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Cadernos de Saúde Pública

ISSN 1678-4464

36 nº.2

Rio de Janeiro, Fevereiro 2020


RESENHA

Estratégias para prevenção de violência: enfoque na juventude

Carla Jorge Machado, Adalgisa Peixoto Ribeiro

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00217619


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JUVENTUDE E CIDADE: A POTÊNCIA DO UM E DO EM COMUM. Cunha CF, Guerra AMC, Albuquer que BS, Toniolo LB, Melo Em, organizadoras. Belo Horizonte: Folium; 2017. 231 p. (Coleção Promoção da Saúde e Prevenção ds Violência). ISBN 978-85-8450-029-1.

 

Reflexões sobre violências, principais vítimas - a juventude - e estratégias para minimizar suas consequências motivam pesquisadores principalmente da área da saúde 1,2.

A Coleção Promoção da Saúde e Prevenção da Violência, com três livros publicados, exalta a autonomia dos sujeitos na produção de mudanças e na construção de caminhos para vidas marcadas pelas violências.

Juventude e Cidade: A Potência do Um e do Em Comum é o terceiro volume da coleção, com enfoque interdisciplinar. Organizado por cinco pesquisadoras da área de prevenção de violências, o prefácio destaca o esforço de explorar essa interdisciplinaridade, por “nuanças teóricas, clínicas, políticas, estéticas e éticas, apresentando a diversidade dos saberes, (...) diante de tal complexidade” (p. ii). O livro conta com 31 autores - três estrangeiros - filiados a mais de dez instituições distintas.

A primeira seção apresenta conceitos de agressividade, violência, narcisismo, adolescência e juventude. O Capítulo 1 discute intenção agressiva, tendência à agressão e cruzamento estrutural. Inspirando o nome da seção, Lacadée afirma que falar sobre violência a situa “em seu justo lugar a fim de aí invocar o véu, os semblantes necessários para mantê-la em uma medida visível para todos” (p. 8). No Capítulo 2, utiliza-se a psicanálise para avançar nas relações entre individualismo, narcisismo e comportamentos violentos na juventude, relações importantes para entender a busca dos adolescentes pelo reconhecimento e aceitação em grupo social. O Capítulo 3 trata da gênese social e da cultura da violência no Brasil. O Capítulo 4 traz uma crítica sobre a inserção dos jovens no narcotráfico a partir da experiência colombiana.

A primeira seção explicita ainda que comportamento agressivo, agressão e violência já foram tratados pelas áreas de saúde e psicologia 3,4, mas, na obra, define-se o que é diferente, permitindo ao leitor identificar e dirimir esses comportamentos, a despeito das (im)possibilidades de suprimir tendências agressivas inerentes aos indivíduos.

O título da Seção II, A Potência do “Em Comum”: Traduzir em Palavras o Indizível de Cada Um, suaviza a necessária reflexão sobre a associação entre violência e exclusão social. O Capítulo 5 discute a violência estrutural nas grandes cidades, que aprofunda as vulnerabilidades de territórios marginais gerando exclusão social e mais violência, remetendo a uma publicação de mais de dez anos: Fractured Cities: Social Exclusion, Urban Violence and Contested Spaces in Latin America, que trata de exclusão social, violência urbana e espaços nas áreas metropolitanas da América Latina 5. “Que destino dar ao lixo?” é a pergunta dos autores do capítulo se referindo aos que não se adaptam à sociedade do consumo, tornando-se refugos humanos, substituíveis, categorias semelhantes às trabalhadas por Misse ao conceituar sujeição criminal 6. O Capítulo 6 retoma a lógica da psicanálise analisando o contexto dos jovens brasileiros quanto à violência, exclusão e segregação, em nível formal, institucional e no convívio. No Capítulo 7, raça, cor e etnia são discernidas, com clareza, sobre a relação entre racismo e exclusão: “a suposta ausência de conflitos raciais (...) pode significar a estabilidade de um regime racista” (p. 82).

Para além da divisão do livro em seções bem marcadas com subtítulos, a adolescência é a protagonista e o fio condutor que une os Capítulos 8 a 17.

Os Capítulos 8 a 10 abordam adolescência e sistema de medidas socioeducativas. Apresentam definições legais de ato infracional e ação socioeducativa; discutem os efeitos deletérios da “cultura do medo” na atenção à saúde dos adolescentes privados de liberdade a partir dos resultados de estudo em Centros de Saúde e Centros Socioeducativos, em Belo Horizonte; abordam sentimentos e inquietações dos agentes de segurança socioeducativos. Ao final do Capítulo 10, Philippe Lacadée explicita a técnica da conversação usada na experiência que subsidiou a construção do texto, trazendo maior robustez ao capítulo.

A Seção III tem como temática as drogas, com base em experiências com usuários em Consultório de Rua na perspectiva de redução de danos. Embora não expliquem a intervenção com detalhamento, os autores fazem emergir uma crítica sobre os espaços de exclusão social onde acontecem “as cenas públicas de consumo de drogas” (p. 120), território inimigo para a sociedade (Capítulo 11). O Capítulo 13 trata de uma experiência clínica com usuário de heroína.

Como parte da Seção III, mas com localização mais adequada na primeira seção, o Capítulo 12 tenta compreender, de uma perspectiva freudiana, adolescentes com passagem pelo ato homicida, mencionando efeitos negativos do desamparo e da ausência de pontos de ancoragem que colaborem positivamente para a construção de sua identidade.

A Seção IV conta com quatro capítulos em que a adolescência é mirada a partir do risco. Os autores discutem porque o adolescente se coloca em risco: as razões vão do abandono à superproteção e seria uma “maneira de se assegurar do valor de sua existência” (p. 149). Experimentar limites parece ser comum entre adolescentes em contextos parcos de orientações. Compreende-se que o comportamento de risco é mais um componente na engrenagem que conforma o adolescente e o jovem (Capítulo 14). Contudo, arriscar-se pode ter consequências jurídicas, pois pode ser ato infracional. Assim, as autoras mencionam uma possibilidade de intervenção que se vale do acolhimento e da escuta para o adolescente dar novo significado às suas ações futuras após passar por medidas socioeducativas: “novas saídas diante das mudanças impostas pela puberdade, (...) que o incluam na dimensão do laço e da vida” (p. 164) (Capítulo 15).

A entrada no tráfico de drogas poderia ser mais um ato arriscado na adolescência e também pode ter consequências - morte ou encarceramento. A partir dos discursos dos adolescentes em medida socioeducativa, no Capítulo 16, as autoras argumentam que o tráfico de drogas pode ser uma estratégia para “inventar sua própria abertura em direção à sociedade” (p. 174). Finalmente, o Capítulo 17 com título perturbador - Inferno - retrata o caminho de uma criança até a adolescência, em situações de violência que a fazem experimentá-la de forma simbólica e também real, chegando a praticar um homicídio. Trata-se de comentário delicado, bem escrito, em linguagem sofisticada e literária sobre livro de mesmo título. Os capítulos dessa seção complementam o da primeira, que trata de agressividade, agressão e violência.

A Seção V abrange os quatro últimos capítulos e enfatiza a cidade como locus de vivência e reprodução das experiências de violência, cuidado e resistência. Inicia com um ensaio sobre cidade e violência partindo da pergunta: “Por que tanta violência na cidade?” (p. 185). A ideia do muro, que separa e segrega permeia todo o capítulo como uma metáfora da exclusão territorial e das desigualdades sociais: “Os ricos encontram-se separados pelos muros dos perigos representados pelos mais pobres” (p. 191). A reflexão a partir da visão da cidade complementa as reflexões situando a violência em território específico (Capítulo 19). O Capítulo 20 descreve a manifestação política de estudantes secundaristas que ocuparam escolas contra a proposta de emenda à Constituição que criava um teto para os gastos públicos e contra a medida provisória da reforma do Ensino Médio, “taxados de baderneiros, de “à toa”, promíscuos, drogados”. A retratação da juventude como parcela da população que reivindica e propõe mudanças se alia ao discutido no Capítulo 15 sobre por que canalizar, de forma construtiva, a energia dessa juventude por escuta e acolhimento. Finalmente, o Capítulo 21 traz a questão “da desobediência de gênero” e da intolerância.

O livro agrega ensaios, relatos de experiências e a diversidade de juventudes das cidades e que são retratados também em imagens que fazem refletir. Indicado a leitores das áreas da psicologia, justiça e saúde, o livro usa, como fio condutor, a psicanálise. A obra traz ao campo da saúde opções de abordagem da violência, racismo e exclusão, em uma perspectiva de compreensão e de extrair da juventude e da cidade suas potencialidades.

Referências

1.   Boghossian CO, Minayo MCS. Revisão sistemática sobre juventude e participação nos últimos 10 anos. Saúde Soc 2009; 18:411-23.
2.   Takeiti BA, Vicentin MCG. A produção de conhecimento sobre juventude(s), vulnerabilidades e violências: uma análise da pós-graduação brasileira nas áreas de Psicologia e Saúde (1998-2008). Saúde Soc 2015; 24:945-63.
3.   Liu J, Lewis G, Evans L. Understanding aggressive behaviour across the lifespan. J Psychiatr Ment Health Nurs 2013; 20:156-68.
4.   Kim E, Yim HW, Jeong H, Jo SJ, Lee HK, Son HJ, Han HH. The association between aggression and risk of Internet gaming disorder in Korean adolescents: the mediation effect of father-adolescent communication style. Epidemiol Health 2018; 40:e2018039.
5.   Koonings K, Kruijt D, editors. Fractured cities: social exclusion, urban violence and contested spaces in Latin America. London: Zed Books; 2007.
6.   Misse M. Crime, sujeito e sujeição criminal: aspectos de uma contribuição analítica sobre a categoria "bandido". Lua Nova 2010; 79:15-38.

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