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Cadernos de Saúde Pública

ISSN 1678-4464

35 nº.6

Rio de Janeiro, Junho 2019


COMENTÁRIOS

Os autores respondem

Anita Liberalesso Neri, Flávia Silva Arbex Borim, Samila Sathler Tavares Batistoni, Meire Cachioni, Dóris Firmino Rabelo, Arlete Portella Fontes, Mônica Sanches Yassuda

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00087919


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Prezadas Editoras,

O caráter acumulativo da ciência e sua ênfase na necessidade de abertura à crítica são características fundamentais do processo de construção do conhecimento. Acreditar na importância desses pressupostos e praticá-los constantemente faz de nós melhores pesquisadores e ajuda-nos a produzir dados válidos. Dessa forma, acolhemos com muita simpatia a Carta ao Editor de Lima et al. 1, contendo comentários sobre o artigo que publicamos em CSP 2.

Nós não só estávamos cientes do valor do trabalho de derivação de evidências de validade de uma versão brasileira da CASP-19, feito pela professora e seus colaboradores, como destacamos o caráter pioneiro da sua publicação. Nossas justificativas para a realização de um novo estudo creditam valor aos procedimentos e aos dados desse trabalho. Ao utilizar amostra composta por adultos e idosos residentes na Região Nordeste, e também nas regiões Sudeste e Sul, nós pretendemos oferecer uma contribuição à compreensão do funcionamento da CASP-19 em diferentes contextos culturais no Brasil.

Nem os fundamentos e nem o conteúdo da escala são uma completa unanimidade na pesquisa internacional, dada a complexidade do construto, com significados fortemente arraigados na cultura. Antes de serem obstáculos, essas características estimulam o investimento nos fundamentos, no conteúdo, na linguagem e no formato do instrumento. Oxalá outros pesquisadores decidam partir dos dados de Lima et al. 1 e de Neri et al. 2, para investigar o comportamento da CASP-19 em outros contextos e em outros segmentos representativos da ampla heterogeneidade das experiências de velhice no país.

Nós igualmente solicitamos a autorização do Dr. Martin Hyde para realizar a validação semântico-cultural da CASP-19. O Professor esclareceu que a escala não é coberta por direitos autorais, e que, sendo de livre acesso, tem seu uso liberado a quaisquer organizações de pesquisa, sem fins lucrativos. Sua resposta foi de encorajamento e confiança em nosso discernimento e em nossa capacidade de realizar o trabalho, sem nenhuma exigência, sugestão ou restrição.

Os cidadãos ingleses aos quais se destinou a escala original tinham nível de escolaridade expressiva e inequivocamente mais alto do que os brasileiros. Para nós, esse fato justifica restringir a priori o uso da CASP-19 a adultos e idosos brasileiros com escolaridade mais alta e testar sistematicamente os efeitos do nível de escolaridade sobre o desempenho da escala nos diversos segmentos da população adulta e idosa do Brasil. Optamos por excluir analfabetos e pessoas com compreensão e expressão deficientes da linguagem escrita. Além disso, testamos a consistência interna da escala como um todo e de seus fatores em diferentes níveis de escolaridade.

Uma questão adicional sobre o uso da escala no Brasil é que não sabemos se e como o conteúdo e a linguagem da CASP-19 fazem parte do cotidiano de adultos e idosos brasileiros de vários extratos de idade e escolaridade. É mais um argumento em favor da necessidade de investigar mais a fundo as questões de educação, origem cultural e coorte a qual pertencem os respondentes de estudos metodológicos envolvendo a escala.

Sabemos que um dos objetivos da análise fatorial é a redução de dimensões, assim como sabemos que a construção de instrumentos válidos e econômicos é um objetivo muito caro aos psicometristas. Com base nos dados que obtivemos poderíamos ter sugerido que fosse realizada uma diminuição das dimensões ou fatores e do número de itens da CASP. Não o fizemos por julgar que seria uma decisão prematura, considerando o tamanho (n = 368), a composição (a maioria mulheres; 66,8% dos participantes com 9 ou mais anos de escolaridade; 8,2% com 44 a 54 anos, 15,6 % com 55 a 59 anos, 24,8% com 60 a 64 anos e 51,8% com 65 anos e mais; 54,3% residentes na Região Sudeste, 36,7% na Nordeste e 9% na Região Sul), a forma de recrutamento e a origem da amostra (por conveniência, em programas não formais de educação orientados a adultos e idosos socialmente ativos e envolvidos). Os fatores que obtivemos (autorrealização/prazer e controle/autonomia) também merecem mais investigação quanto a seu significado entre falantes da língua portuguesa no Brasil, antes que se façam afirmações e sugestões mais categóricas. Preliminarmente, nossos resultados podem ser descritos como indicativos da validade da CASP-19 para adultos mais velhos e idosos brasileiros com bom nível de escolaridade.

Vistos em conjunto, os dois artigos comentados nestas páginas de CSP poderão funcionar como pontos de partida para a realização de outros estudos metodológicos e para a condução de pesquisas populacionais com a CASP-19. Novos trabalhos deverão investir em análises de validade de construto, por meio de análises fatoriais exploratórias e confirmatórias aplicadas a amostras mais robustas e a diferentes segmentos etários, educacionais, culturais e populacionais, assim como deverão investir em mais estudos de validade convergente. Será bom que esses utilizem instrumentos mais explorados e com tradição de uso mais estabelecida entre adultos e idosos brasileiros do que a CASP-19.

Referências

1.   Lima F, Patribu K, Laks J, Campos MS. Considerações sobre a CASP-19 no Brasil. Cad Saúde Pública 2019; 35:e00070619.
2.   Neri AL, Borim FSA, Batistoni SST, Cachioni M, Rabelo DF, Fontes AP, et al. Nova validação semântico-cultural e estudo psicométrico da CASP-19 em adultos e idosos brasileiros. Cad Saúde Pública 2018; 34:e00181417.

CreativeCommons
Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons

 


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