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Cadernos de Saúde Pública

ISSN 1678-4464

34 nº.Suplemento 1

Rio de Janeiro, 2018


OBITUÁRIO

Homenagem de CSP ao seu fundador e ex-Editor e pesquisador da ENSP/Fiocruz Luiz Fernando Ferreira

Paulo Gadelha Discípulo de Ludovicus Tertius Guanabarinus Diretor-Fundador da Casa de Oswaldo Cruz Ex-Presidente da Fundação Oswaldo Cruz (2009-2016)

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00222718


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Manguinhos é um mundo. É muita coisa.

É razão, é lógica, método científico.

‘Fé eterna na ciência'. É fé, não é razão, é mais do que razão.

Manguinhos é fantasia, irreverência, diferença e tensão.

Manguinhos é bom. Tão bom, que foi ocupado desde a pré-história.

É bom envelhecer em Manguinhos”.

(Ludovicus Tertius Guanabarinus, Falas e Saudades, 2015. Compilação livre).

 

Luiz Fernando Rocha Ferreira da Silva explica, para os não iniciados: Ludovicus, de São Luis, Rei da França, comandante das Cruzadas; Guanabarinus, da colônia lusa onde nasceu e Tertius, porque primus foi Aristóteles e secundus, Aquinensis. Tertius, Guanabarinus. “Sequência meramente cronológica e não de competência”.

De quem fala Ludovicus Tertius Guanabarinus? De Manguinhos, ou de si mesmo? Certamente, dos dois. Criador e criatura, criatura e criador. Na infância em Manguinhos, plasmou sua vocação e imaginação. Na maturidade, foi ao limite da razão para, depois, buscar o que faltava na irracionalidade, na poesia, na fé, na irreverência, na fantasia e no erotismo. Aparente contradição ambulante, explodindo de vida!

Criatura, foi construtor. Ninguém encarnou tão profundamente a alma de Manguinhos e contribuiu tão decisivamente para reinventá-la para nós, seus contemporâneos. Aproximou os pioneiros com a garotada que, na década de 1980, sob a liderança de Arouca, criava o Poli, a Casa de Oswaldo Cruz, a Creche, a Paleoparasitologia e a modernidade democrática da Fiocruz, com suas “diferenças e tensões, rituais, concílios, santos, hereges, mártires, inquisidores e, mesmo, monjas-matriarcas”.

Parasitólogo, formado por José Rodrigues da Silva na escola da medicina tropical do Pavilhão Carlos Chagas, da Universidade do Brasil, recebeu o Prêmio Gunning, da Faculdade de Medicina, por sua tese Isosporose Humana Experimental. Infectou a si e a colegas e fez biópsias. Reconhece, “francamente, eu engoli cocô”. Imagino que sem um termo de consentimento. Outros tempos!

A Paleoparasitologia, seu maior legado científico, tem também seus momentos marginais e de heresia: “Do lado marginal, a Paleoparasitologia precisa, muitas vezes, dominar as práticas do contrabando, do transporte de cadáveres, da sonegação de informações às autoridades etc...”. É célebre a cena em que a cabeça de uma múmia rola pelo ônibus e Luiz e Adauto - cada um culpava o outro! - se desdobravam para convencer o motorista de que faziam ciência.

A ousadia - “não há um caminho para a verdade, é preciso pular abismos” -, de lidar com um material que ninguém queria, cocô de múmias, - “Yes, I have a lot of cropolites. Nobody was never interested in feces. Specially archeological feces” (Ondemar Dias, Diretor do Instituto de Arqueologia Brasileira) - e formular uma hipótese que se provou incorreta - a esquistossomose era autóctone nas Américas - leva à criação de um novo campo científico e ao prestígio internacional.

Conde de Val Paraizo (sic), Diretor da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz), Pesquisador Emérito, Vice-Presidente e Presidente da Fiocruz, Membro Honorário da Academia Nacional de Medicina, Membro Titular da Academia Brasileira de Medicina Militar e Membro Titular da Academia de Medicina do Rio de Janeiro e muitos outros títulos recebidos e autoconferidos, Luiz Fernando foi sempre um esteio dos processos participativos e democráticos da Fiocruz, embora confidenciasse, à boca pequena, que preferia decisões mais rápidas, ao estilo do poder soberano e do estalinismo. Dizia que já sabíamos onde queríamos chegar, que tínhamos habilidade para conduzir ao desfecho favorável e concedia, por solidariedade, sua atenção e tempo para o ritual dos “concílios internos”. Sua heterodoxia, nos salvou de boa. Arouca candidato a Vice-Presidente da República deixa um vácuo na presidência. Luiz e confrades criam uma nova regra: assume o Vice mais velho, o Decano. E assim se fez. Ludovicus Presidente!

Ao reler seus poemas, me deparo com a politização, a denúncia social e da desumanização da técnica, dos anos 1960, permeada sempre de erotismo e heroísmo, contrastada pelo predomínio do erótico, da fantasia e do místico, dos anos 1980 em diante:

“Eu ouvi brados na rua

E pensei então, que havia chegado a hora

Mas na rua eu só vi

Meninas de minissaia e arcebispo de meia roxa

(...)

Aquilo, por certo,

Não era a luta do povo

Então eu fiquei muito triste

E pensei

Ainda não chegou o momento”

(1968, in Alguns Poemas de Ludovicus Tertius Guanabarinus, s/d. p. 49-50).

A frustração é respondida pela afirmação da vida: “Se eu nada posso compreender, só me resta buscar prazer”. O erotismo é a constante. Fonte de energia vital e salvação: “Perdão senhores, porque blasfemo. Não foi pela cruz que eu combati, mas pelo olhar da cigana”.

É Ricamor quem encarna toda a gama do erótico e da fantasia, ora encontrada no combate aos mouros, ora cavalgando nua nos bosques de Manguinhos, ora sendo possuída por Ludovicus na “Terceira Torre”, só conhecida pelos iniciados, e sobre a qual me chamou a atenção o Abade Schultz, companheiro de sonhos e armas: “Diga do teu desejo, porque ele se fará. Eu serei loura ou morena, negra ou ruiva; serei ardente ou suave; sacerdotisa pudica ou devassa bacante; eu serei de acordo com a vontade do meu amo e senhor”.

Não lembrarei aqui os mais próximos, com acesso aos rituais mais restritos da Confraria, nem aqueles que tinham a felicidade de serem considerados dignos de seus escritos. Melhor manter o indefinido. Há uma grande tribo que se encontra e se inspira em Luiz, ou melhor em Ludovicus Tertius Guanabarinus, continente da alma de Manguinhos.

Luiz Fernando se foi. Esperava ele que ao chegar o dia, o Sr. Deus chamaria Nossa Senhora, sua Madrinha, pediria para ela lhe trazer um café e depois “ir buscar o menino”. E quando ela viesse, “Eu vou com ela alegremente”.

Luiz Ludovicus permanece conosco, sempre irrequieto, provocador, querelante, criativo, iconoclasta, místico e fazedor de mitos. A alma de Manguinhos se agiganta!

 

 

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