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Cadernos de Saúde Pública

ISSN 1678-4464

38 nº.6

Rio de Janeiro, Junho 2022


EDITORIAL

Transparência e processo editorial: como é o trabalho das Editoras-chefes?

Luciana Correia Alves, Marilia Sá Carvalho, Luciana Dias de Lima

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311XPT089822


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A maioria dos editoriais de uma revista científica busca anunciar novos caminhos para a publicação, mudanças na política editorial ou contemplar temas da atualidade, de interesse da comunidade acadêmica e da sociedade como um todo.

Nesse editorial, queremos mostrar parte do dia a dia do trabalho das Editoras-chefes de CSP. Muitas questões e curiosidades surgem a respeito do que acontece internamente em uma revista científica, a partir do momento que o autor submete seu manuscrito, e sobre o processo de avaliação. Entendemos que apresentar ao público - leitores e autores - o percurso do artigo, desde a submissão até a publicação, além de alguns indicadores e aspectos da rotina da editoria científica, permite conferir maior transparência ao processo editorial.

Logo que o autor submete seu manuscrito no Sistema de Avaliação e Gerenciamento de Artigos (SAGAS; http://cadernos.ensp.fiocruz.br/csp/), a secretaria editorial de CSP verifica a adequação às normas, oculta toda identificação de autoria no texto e gera um arquivo no formato PDF. Este arquivo é encaminhado para as Editoras-chefes, que fazem a triagem inicial, avaliando se o artigo deve seguir para a revisão por pares ou ser recusado, com base em aspectos relacionados à inovação, originalidade 1, temáticas prioritárias e perfil da revista. Esse processo, comum a todas as revistas com grande volume de submissões, geralmente é feito em até 5 dias, permitindo que os autores submetam o artigo a outro periódico, se assim desejarem.

Desde 2015, CSP recebe mais de 2 mil artigos por ano, sendo que, em 2021, foram submetidos 3.022 manuscritos à revista Figura 1. A proporção de recusas de artigos na entrada passou de 67,5% em 2015 para 75,9% em 2021, acompanhando o volume de submissões. Houve um aumento expressivo de submissões em 2020, durante o momento inicial da pandemia da COVID-19. Entre abril e agosto de 2020, em regime de fast-track2, CSP recebeu 644 trabalhos sobre o tema, dos quais 54 foram publicados. Nesse esforço para dar nossa contribuição ao enfrentamento da pandemia, a grande maioria dos artigos recusados o foram com pareceres Figura 1.

 

 

Figura 1 Número de artigos recebidos e proporção de recusas na entrada em CSP por ano, 2015-2021.

 

Vários são os fatores que contribuem para o elevado número de submissões à CSP: entre eles, os critérios de avaliação da produção científica que sobrevalorizam a quantidade em relação à inovação e à qualidade 3. Além disso, as restrições associadas aos elevados preços das taxas de publicação praticados pelos principais publishers multinacionais impõem barreiras para a divulgação de resultados de pesquisa em acesso aberto 4,5. Financiada predominantemente com recursos públicos da instituição mantenedora e de agências de fomento, CSP é uma revista que se destaca, no cenário nacional e internacional, como um dos poucos periódicos científicos da Saúde Coletiva que não cobra taxa de submissão e de publicação para seus fascículos regulares.

Na etapa de avaliação por pares entram em ação os 44 Editores Associados - alguns mais afeitos ao tema do artigo, outros mais especializados no método. Em CSP, os Editores Associados são majoritariamente pesquisadores sêniores de renomadas instituições brasileiras, situadas em diversas regiões do país e mesmo do exterior. Os Editores Associados indicam revisores (também denominados como consultores) e acompanham o processo de avaliação do artigo na revista; qualquer pesquisador doutor é potencialmente elegível para emitir parecer, respeitando a diversidade de abordagens, objetos e métodos de distintas perspectivas disciplinares que caracterizam a Saúde Coletiva. Recomendamos idealmente três e, no mínimo, dois pareceres para a tomada de decisão.

É importante observar que, no modelo de revisão por pares atualmente adotado pela revista, a avaliação é completamente anônima: a identidade dos avaliadores não é revelada para revisores e autores que participam desse processo. Esses três atores - Editoras-chefes, Editores Associados e consultores - estabelecem um diálogo com o autor.

Destaca-se que o artigo pode ser submetido a diversas rodadas de avaliação e reformulações. Os Editores Associados são os responsáveis por verificar as várias versões e recomendar às Editoras-chefes nova chance, aprovação ou recusa do artigo. A decisão editorial final é tomada pelas Editoras-chefes com base na análise conjunta dos pareceres e na avaliação do Editor Associado responsável. Em 2021, dos 729 artigos que seguiram para a etapa de avaliação por pares, 26,7% artigos foram recusados com parecer e 29,8% aprovados, sendo que 39,2% ainda se encontram em avaliação e 4,3% foram arquivados por falta de resposta dos autores.

As diversas etapas de um artigo submetido à CSP, até a decisão final, estão sistematizadas em fluxograma previamente publicado 6. Ao final do processo, com a contribuição de editores e revisores, o artigo é aperfeiçoado. Frequentemente, essa etapa acontece com muita discussão, em que autores concordam ou não com os pareceres recebidos. A carta, detalhada ponto a ponto em resposta aos comentários e sugestões de revisores e editores, sistematiza o debate.

Enfim, artigo aceito! Momento da finalização: adequação dos artigos ao padrão CSP, revisão de idioma e tradução de resumos, até a aprovação da prova de prelo pelos autores. Cada uma dessas etapas tem seu tempo, e a mais lenta é a que se refere à obtenção de pareceres. Aí temos um imenso gargalo, problema que afeta de modo geral as revistas científicas, no mundo e no Brasil.

A responsabilidade pela coordenação de todas essas etapas é exercida de modo compartilhado pelas Editoras-chefes, considerando as especificidades do percurso do artigo na revista. O que mais fazem as Editoras-chefes? Muita coisa: do aperfeiçoamento do sistema de submissões (em fase de mudança), à escolha da cor da página de entrada e do tema das fotografias que ilustram as páginas do site - esse ano dedicado às grandes manifestações populares, em vários lugares do mundo, em momentos políticos diferentes. Desde 2018, incorporamos ainda atividades rotineiras relacionadas à divulgação científica, estruturadas em três frentes de atuação: redes sociais, assessoria de imprensa e produção em vídeo e podcast do programa Entrevista com Autores7.

Um esclarecimento: todos nós, Editores Associados e Editoras-chefes, passamos pelo mesmo processo, sem privilégios. E já tivemos artigos recusados. Contamos isso com muito orgulho, não como pesquisadoras (afinal recusas não são confortáveis), mas como editoras.

Esperamos que esse breve editorial responda às curiosidades e comentários suscitados após a publicação do episódio especial Como Trabalham as Editoras de CSP? (https://www.youtube.com/watch?v=zWPKKjXGR_k&list=PLjxv_Q_71tpYCzJQpHiyeq-tmEvQVEujA&index=22&t=7s). E que também possibilite esclarecer autores, revisores e público leitor da revista sobre alguns aspectos que permeiam os bastidores da publicação científica.

Referências

1.   Carvalho MS, Travassos C, Coeli CM. Mais do mesmo. Cad Saúde Pública 2013; 29:2141.
2.   Carvalho MS, Lima LD, Coeli CM. Fast-track COVID-19 em CSP. Cad Saúde Pública 2020; 36:e00204820.
3.   Coeli CM, Carvalho MS, Lima LD. Inovação, qualidade e quantidade: escolha dois. Cad Saúde Pública 2016; 32:eED010116.
4.   Lopes RJ. Acesso aberto a artigos científicos volta à discussão após mudanças no grupo Springer Nature. Folha de S.Paulo 2022; 31 jan. https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2022/01/acesso-aberto-a-artigos-cientificos-volta-a-discussao-apos-mudancas-no-grupo-springer-nature.shtml.
5.   Quando os oligopólios mandam na investigação mundial. Abril 2022; 13 fev. https://www.abrilabril.pt/trabalho/quando-os-oligopolios-mandam-na-investigacao-mundial.
6.   Carvalho MS, Coeli CM, Travassos C. Uma breve história de Cadernos de Saúde Pública. Ciênc Saúde Colet 2015; 20:2007-12.
7.   Mansur V, Guimarães C, Carvalho MS, Lima LD, Coeli CM. Da publicação acadêmica à divulgação científica. Cad Saúde Pública 2021; 37:e00140821.

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