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Cadernos de Saúde Pública

ISSN 1678-4464

38 nº.6

Rio de Janeiro, Junho 2022


RESENHA

Símbolos e visão de mundo

Romeu Gomes

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311XPT072922


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Mary Douglas (1921-2007) é considerada uma grande referência contemporânea da antropologia social. Citando Durkheim, Laplantine 1 (p. 91) observa que a antropologia social focaliza “a coesão das instituições, o caráter integrativo da família, da moral e sobretudo da religião”. Por essa abordagem, tomar como ponto de partida o estudo das instituições faz que a fronteira entre antropologia e sociologia seja frágil. A antropóloga britânica é autora de várias obras acerca de ideias que ultrapassam o campo antropológico, estabelecendo diálogo com várias áreas disciplinares. Dentre suas obras publicadas em língua portuguesa, três delas podem ser destacadas: Pureza e Perigo2 (problematização das antíteses pureza e impureza, sagrado e profano, limpeza e sujeira); Como as Instituições Pensam3 (discussão sociológica acerca da cognição humana e da contribuição da teoria cognitiva à análise institucional) e Risco e Cultura: Um Ensaio sobre a Solução de Riscos Tecnológicos e Ambientais4, em coautoria com Aaron Wildavsky (foco na ideia de que o risco é socialmente construído, e não totalmente controlável).

A obra em tela 5, editada em 1971 e revista em 1996 em língua inglesa, chega ao Brasil em 2021. Além de duas introduções, constitui-se de dez capítulos com títulos sugestivos: (1) Distante do Ritual; (2) Para a Experiência Interior; (3) O Irlandês do Pântano; (4) Grade e Grupo; (5) Os Dois Corpos; (6) Casos de Teste; (7) O Problema do Mal; (8) Regras Impessoais; (9) Controle dos Símbolos; e (10) Fora da Caverna. Transversal a esses capítulos, a discussão se ancora em duas macrorreferências que ora se diferenciam, ora se superpõem. A primeira delas se refere à ideia de que cada sistema simbólico tanto se desenvolve de forma autônoma por meio de regras específicas, como suas diferenças se somam em ambientes culturais. Já a segunda referência diz respeito à cosmologia, mais especificamente à cosmologia religiosa, tratada - como a autora observa - não como um nicho ou a partir da linguagem de púlpitos. Ao longo de sua narrativa, a autora consegue fazer uma trama dessas duas referências, tornando-as tangíveis por meio de exemplos que vão desde comunidades tribais, como a dos pigmeus, até sociedades industriais, como a londrina.

Símbolos Naturais, título central da obra, à primeira vista, como a própria Douglas observa, pode se afigurar como uma contradição, uma vez que se conhece a natureza por meio de símbolos, que são produzidos por convenções e, por isso, se tornando oposto ao que se entende por natural. Nesse sentido, a autora, de um lado, sublinha que cada “símbolo natural” traz em si um significado social que necessita ser lido pela lente da cultura e, por outro, ao considerar que cada pessoa trata seu corpo ancorado numa imagem social, investe na possibilidade de buscar substratos comuns às diferentes sociedades. Nesse investimento, considera que podem-se encontrar sistemas de símbolos “naturais”, traduzidos por regularidades em diferentes culturas. Assim, podendo ser visto como a utopia da antropologia de buscar uma teoria geral para a humanidade, a autora destaca que o foco central da obra em questão “é o de possibilitar comparações menos subjetivas e relativistas por meio da elaboração de algo sobre ambientes sociais diferentes5 (p. 16).

Mary Douglas aprofunda uma reflexão teórica acerca das interações sociais integradas a cosmologias, recorrendo e problematizando as ideias de pensadores clássicos, a exemplo de Durkheim e Lévi-Strauss. Avança também na proposição de método para que se aproxime da compreensão sobre as relações entre sistema simbólico e instituição social. Esse empreendimento metodológico se encontra mais visível no capítulo 4 (Grade e Grupo).

Nesse capítulo, baseada no trabalho do sociólogo Basi Bernstein, que enfocou a divisão de trabalho na sociedade industrial a partir do discurso e de técnicas de controle, ela amplia o diagrama desse sociólogo, concentra a interação entre indivíduos em duas dimensões sociais: sistema simbólico e pressão social. A primeira dimensão - denominada por ela de grade - se refere a sistema de classificação numa perspectiva social em que os indivíduos devem se situar; enquanto a segunda - nomeada de grupo - diz respeito à pressão e experiência de ter como opção consentir nas demandas de outras pessoas. Por meio de um diagrama, a linha vertical representa a Grade, tendo como topo o sistema de classificações compartilhadas e, em oposição, na ponta da base encontra-se o sistema privado de classificação. Atravessando o meio da linha vertical, Douglas traça uma linha horizontal que representa o Grupo, tendo como a extremidade esquerda o ego independente de outras pessoas e, na direita, o ego cada vez mais controlado. Na interseção dessas duas linhas que formam uma cruz, situa-se o ponto zero (o vazio sem nenhum sentido). Explorando os quadrantes (esquerda superior, esquerda inferior, direita superior e direita inferior), formados a partir da interseção das linhas verticais e horizontais, a antropóloga discute formas de ver as relações entre sistemas simbólicos e ordem social, assim como independência individual e pressão social. Para isso, lança mão de estudos tanto sobre as chamadas culturas “primitivas” quanto acerca de sociedades contemporâneas.

A partir da leitura do livro em questão, pelo menos duas implicações podem ser esboçadas para a área da saúde. Uma delas fica mais evidente no capítulo 5 (Os Dois Corpos). Nessa parte, que se inicia com a afirmativa de que “o corpo social limita o modo como o corpo físico é percebido5 (p. 159), encontra-se um forte argumento de que um estudo específico ou uma atuação especializada relacionada a um desses dois corpos não pode prescindir da mínima compreensão do outro. A outra implicação, fruto da leitura transversal a todos os capítulos, pode trazer, entre outras, uma advertência ao fato de que, se a área da saúde quer focalizar populações, não pode desconsiderar cosmologias religiosas expressas por rituais. Faz-se necessário que tal área ultrapasse os dados sobre religião, formatados em frequências, desprovidos da compreensão sobre corações e mentes dos indivíduos dos segmentos sociais. Por outro lado, a área em questão - por meio da mencionada desconsideração - pode ser ineficaz por não conseguir estabelecer diálogos entre a lógica contida em suas políticas/planejamentos e as visões de mundo do seu público-alvo. Parodiando ideias do último capítulo de Douglas, que por sua vez faz uma paródia de Platão, é salutar para a saúde constantemente se ver dentro e fora da caverna. Caso contrário, pode ser levada a ver as sombras projetadas em suas paredes como se fossem reais.

Referências

1.   Laplantine F. Aprender antropologia. São Paulo: Brasiliense; 2003.
2.   Douglas M . Pureza e perigo. São Paulo: Perspectiva; 2012.
3.   Douglas M . Como as instituições pensam. São Paulo: Edusp; 1998.
4.   Douglas M , Wildavsky A. Risco e cultura: um ensaio sobre a solução de riscos tecnológicos e ambientais. Rio de Janeiro: Elsevier; 2012.
5.   Douglas M . Símbolos naturais: explorações em cosmologia. São Paulo: Editora Unesp; 2021.

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