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Cadernos de Saúde Pública

ISSN 1678-4464

38 nº.Suplemento 1

Rio de Janeiro, 2022


PERSPECTIVAS

Por que precisamos de inquéritos populacionais sobre saúde?

Cesar G. Victora

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311XEN010222


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Nos últimos 50 anos, nosso país evoluiu muito em termos da cobertura e qualidade de seus sistemas de informação em saúde. Os registros de nascimentos e óbitos passaram a ter cobertura praticamente universal, com qualidade crescente ao longo do tempo. Sistemas de informações hospitalares, sistemas baseados nas redes de atenção primária, sistemas especiais de vigilância (por exemplo, sobre nutrição e enfermidades respiratórias), sistemas de informação sobre vacinações, entre outros, todos têm contribuído para monitorar indicadores de saúde em todo o país. Exemplos claros da importância e agilidade dos sistemas existentes foram fornecidos durante a pandemia por COVID-19, quando dados dos Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Gripe (SIVEP-Gripe) e dados de cobertura vacinal oriundos do Programa Nacional de Imunizações (PNI) permitiram monitorar o progresso da pandemia e originaram muitos artigos científicos publicados praticamente em tempo real.

Para complementar os dados produzidos rotineiramente pelos sistemas de informações em saúde, é essencial dispor também de inquéritos de base populacional. Usando metodologia padronizada de amostragem, questionários e de mensuração de parâmetros biológicos (como antropometria e coleta de amostras para exames laboratoriais), os inquéritos permitem medir a frequência de agravos à saúde que nem sempre são suficientemente severos para levar à busca de serviços ou ao óbito, quando seriam detectados pelos sistemas rotineiros de informação. Usando a conhecida analogia do iceberg, os inquéritos permitem entender o que está passando abaixo do nível do mar, enquanto os sistemas de informação relatam o que está visível fora da água. Dados primários de inquéritos e dados secundários de rotina se complementam e permitem um maior entendimento da situação de saúde de um país.

Inquéritos populacionais acrescentam pelo menos mais quatro vantagens aos dados rotineiros. Primeiro, permitem medir comportamentos que influenciam hábitos de saúde, como fica claro nos artigos sobre tabagismo, obesidade, dieta e consumo de álcool, todos incluídos neste Suplemento de CSP. Segundo, permitem entender os padrões de busca de serviços assistenciais para doenças importantes como hipertensão e diabete em outros dois artigos aqui publicados; voltando ao iceberg, essas análises quantificam e elucidam a natureza do que está passando abaixo do que é detectado por sistemas de notificação. Terceiro, o uso de questionários padronizados na população permite medir problemas de saúde que, apesar de resultarem em grandes cargas de morbidade, não ficam evidentes nos sistemas de mortalidade ou morbidade; exemplos claros são a saúde mental e osteomusculares, também contemplados neste Suplemento. Finalmente, por meio de coleta direta de informações sobre posição socioeconômica, escolaridade, sexo e etnia, os inquéritos permitem estratificar todos os indicadores estudados para subgrupos populacionais, evidenciando e monitorando desigualdades em saúde. Todos nós que já tentamos realizar análises de dados coletados rotineiramente sobre estratificadores sociais e de etnia sabemos como pode ser frustrante usar bancos de dados nos quais as definições são imprecisas e, muitas vezes, um alto percentual de registros deixa de apresentar dados válidos. Um ponto alto deste volume é sua ênfase em desigualdades sociais. Ainda sobre esse tema, vale notar que o Brasil - comparado a todos os demais países que conheço - é um exemplo muito positivo de como a pesquisa em Saúde Coletiva tem priorizado o estudo de desigualdades.

Realizei meu primeiro inquérito populacional em 1982, como parte de minha tese de doutoramento 1 sobre mortalidade infantil e subnutrição em áreas geográficas de minifúndio e de latifúndio no Rio Grande do Sul, Brasil. Desde então, tive a oportunidade de contribuir para a realização de inquéritos de saúde e nutrição de crianças nos nove estados da Região Nordeste (1986-1991), e de posteriormente integrar um grupo de quatro pesquisadores que fizeram o delineamento original dos Multiple Indicator Cluster Surveys (MICS) em 1994 - uma série de inquéritos padronizados que até o presente momento incluem mais de 350 inquéritos em 115 países 2. Sou, portanto, um admirador incondicional da realização periódica de inquéritos como a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS).

Termino este breve texto cumprimentando os pesquisadores envolvidos na PNS, a gestão do Ministério de Saúde que a apoiou e, em especial, meus colegas que são autores dos artigos aqui apresentados. Espero que o conhecimento científico aqui disseminado venha a ser usado para embasar as ações do nosso Sistema Único de Saúde. Todos nós, cientistas e pesquisadores, estamos conscientes das dificuldades que enfrentamos em um ambiente negacionista, mas ficamos esperançosos de que, em um futuro não muito distante, a ciência, a pesquisa e a Saúde Coletiva voltem a ser respeitadas e priorizadas.

Referências

1.   Victora CG. The epidemiology of child health in Southen Brazil. The relationships between mortality, nutrition, health care and agricultural development [Doctoral Dissertation]. London: Evaluation and Planing Centre, London School of Hygiene and Tropical Medicine; 1983.
2.   Hancioglu A, Arnold F. Measuring coverage in MNCH: tracking progress in health for women and children using DHS and MICS household surveys. PLoS Med 2013; 10:e1001391.

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