Portal ENSP - Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca Portal FIOCRUZ - Fundação Oswaldo Cruz

Cadernos de Saúde Pública

ISSN 1678-4464

38 nº.4

Rio de Janeiro, Abril 2022


ARTIGO

Fatores associados à limitação da mobilidade funcional em idosos do Município de São Paulo, Brasil: análise comparativa ao longo de 15 anos

Carla Ferreira do Nascimento, Yeda Aparecida de Oliveira Duarte, Alexandre Dias Porto Chiavegatto Filho

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00196821


  • Artigo
  • Autores
  • Comentários (0)
  • Informações Suplementares




RESUMO
Este estudo teve como objetivo analisar a prevalência de limitação na mobilidade funcional autorreferida e os fatores associados no período entre os anos 2000 e 2015, em idosos residentes no Município de São Paulo, Brasil. Para as presentes análises foram utilizados os dados das quatro ondas (2000, 2006, 2010 e 2015) do Estudo Saúde, Bem Estar e Envelhecimento (SABE). Foram conduzidos modelos de regressão para analisar as características demográficas, socioeconômicas, comportamentais e relativas à saúde dos indivíduos associadas à limitação da mobilidade em cada onda do estudo, e análise multinível para a comparação entre as quatro ondas. Os resultados indicaram aumento nas prevalências de limitações na mobilidade autorreferida, mais evidente no ano de 2006. Foi observado, ainda, associação com condições crônicas de saúde, como a história de AVC (RP = 1,43; IC95%: 1,29; 1,58, em 2000), a presença de doenças osteoarticulares (RP = 1,35; IC95%: 1,23; 1,49, em 2015), e a queixa de “dor nas costas” (RP = 1,33; IC95%: 1,22; 1,45, em 2006), bem como com aspectos socioeconômicos, como a renda insuficiente (RP = 1,17; IC95%: 1,07; 1,28, em 2010). Em um contexto de envelhecimento populacional acelerado, esses resultados trazem informações relevantes para a promoção de políticas públicas voltadas à prevenção de declínio da mobilidade em pessoas idosas.

Limitação da Mobilidade; Dinâmica Populacional; Doenças Não Transmissíveis


 

Introdução

Nos últimos anos, a expectativa de vida da população mundial tem aumentado de forma significativa 1,2. No Brasil, houve crescimento de 92% na população idosa em um período de 20 anos, de acordo com o último censo em 2010 3, e projeções apontam que, em 2030, essa faixa etária corresponderá a quase 20% de toda a população 1. Apesar do aumento do tempo médio de vida na população, algumas evidências atuais têm mostrado que esse acréscimo muitas vezes vem acompanhado por incapacidades e comorbidades 4.

A mobilidade funcional compreende diversas funções fundamentais para a realização de atividades de vida diária e participação social dos indivíduos, e inclui a mudança de posição do corpo, carregar, mover ou manipular objetos, caminhar, correr e usar meios de transporte 5. Com o avançar da idade, o risco de desenvolver declínio na mobilidade funcional tende a aumentar. Esse processo pode ocorrer como consequência do envelhecimento fisiológico dos sistemas corporais, da presença de doenças crônicas e de características ambientais 6. Estima-se que 14% dos adultos do mundo apresentem alguma incapacidade, incluindo dificuldades para se mover e para realizar o autocuidado 7. No Brasil, entre adultos a partir de 60 anos, esse percentual foi de 15% no ano de 2015 e, considerando apenas os idosos de 70 anos ou mais, de 24% 8.

Além de causas biológicas, as limitações na mobilidade estão associadas aos aspectos socioeconômicos e demográficos, sendo um importante desafio, sobretudo em países com maiores taxas de desigualdades sociais 8,9,10. Dessa forma, é importante conhecer a condição de mobilidade da população, identificando grupos mais vulneráveis ou com demandas específicas, para organização de políticas públicas de saúde e melhor alocação de recursos 11. Assim, este estudo teve como objetivo analisar as prevalências de limitação da mobilidade funcional autorreferida e os fatores demográficos, socioeconômicos, comportamentais e de saúde associados, no período entre 2000 e 2015, em idosos residentes no Município de São Paulo, Brasil.

Métodos

Para esta análise foram utilizados os dados do Estudo Saúde, Bem Estar e Envelhecimento (SABE), um estudo longitudinal de múltiplas coortes, com amostra representativa para a população de pessoas com idade igual ou superior a 60 anos, residentes no Município de São Paulo. O Estudo Sabe tem o objetivo primário de avaliar as condições de vida e saúde das pessoas idosas e é coordenado pelo Departamento de Epidemiologia, Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo (USP). A coleta de dados do estudo foi realizada por entrevistas domiciliares realizadas por profissionais treinadas, que aplicaram o questionário padronizado, contendo questões relacionadas às condições de saúde, dados pessoais e antropométricos, estado funcional, uso de medicamentos, história laboral, uso e acesso a serviços e características da morada.

Até o momento, o Estudo SABE tem quatro ondas, coletadas nos anos 2000, 2006, 2010 e 2015. A seleção dos indivíduos foi realizada por meio de amostragem probabilística por conglomerados, estratificada por sexo e faixa etária, a partir de sorteio de domicílios com base no cadastro permanente de setores censitários da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). A primeira onda do Estudo SABE, em 2000, teve 2.143 participantes e a cada nova onda os indivíduos eram localizados e revisitados. Além disso, novas coortes probabilísticas formadas por pessoas com 60-64 anos de idade foram adicionadas ao estudo a cada nova onda. Informações mais detalhadas sobre os métodos do Estudo SABE foram publicadas previamente 12,13. A Figura 1 apresenta o esquema amostral do estudo.

 

 

Figura 1 Estrutura amostral do Estudo SABE, São Paulo, Brasil.

 

O desfecho de interesse deste estudo foi a presença de limitação na mobilidade em qualquer uma das seguintes questões: “Tem alguma dificuldade em caminhar uma rua (quadra)?”; “Tem alguma dificuldade em subir um andar pelas escadas sem descansar?”; “Tem alguma dificuldade em se curvar, ajoelhar ou agachar?”; e “Encontra alguma dificuldade em levantar ou carregar pesos maiores que 5kg, como uma sacola de compras pesada?”. Para a análise de fatores associados, foram incluídas características demográficas, socioeconômicas, comportamentais e relativas à saúde dos indivíduos, previamente relatados como fatores associados à condição de mobilidade em adultos idosos.

As características demográficas incluíram a faixa etária (60-69, 70-79 e 80 anos e mais), sexo (feminino ou masculino) e raça/cor da pele (branca, parda, preta ou outras). As socioeconômicas foram a escolaridade em anos (até 3, 4-7, 8 ou mais), ter renda suficiente para cobrir as despesas (sim ou não) e morar sozinho (sim ou não). Do ponto de vista comportamental foram incluídos o consumo semanal de álcool (menos de 1 dia, 1-3 dias e 4 dias ou mais), o tabagismo (fuma atualmente, deixou de fumar ou nunca fumou) e a prática de atividades físicas vigorosas (3 ou mais dias na semana). Quanto aos aspectos de saúde, foram consideradas a presença autorrelatada de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT: hipertensão arterial, diabetes mellitus, doença pulmonar, doença cardíaca, acidente vascular cerebral - AVC - e doenças osteoarticulares), a queixa de “dor nas costas” (sim ou não) e o número de quedas nos últimos doze meses (nenhuma, uma, duas ou mais). Além disso, a função cognitiva foi avaliada pelo Mini Exame do Estado Mental Modificado14, com pontuação ≤ 12 pontos indicando seu comprometimento.

Cada onda do estudo foi caracterizada de acordo com as variáveis socioeconômicas, demográficas, comportamentais e relacionadas à saúde. Em seguida, foram ajustados modelos de regressão de Poisson, considerando os blocos de variáveis demográficas, socioeconômicas, comportamentais e de saúde, em uma estrutura conceitual hierárquica. Os resultados foram apresentados em termos de razões de prevalência (RP) 15 e intervalos de 95% de confiança (IC95%), separadamente para cada onda do Estudo SABE. Todas essas análises consideraram a complexidade da amostra, sendo utilizado o pacote survey do R (http://www.r-project.org).

Por fim, foram ajustados modelos de regressão de Poisson multinível para analisar a presença de diferenças entre as quatro ondas do estudo, relativas ao desfecho analisado com ajuste pelos blocos de variáveis previamente citados. Nesses modelos, a dependência das observações decorrente do desenho longitudinal do Estudo, em que o indivíduo pode ser revisitado nas ondas seguintes, foi considerada. Assim, foi adicionado um intercepto randômico aos modelos, considerando os indivíduos como segundo nível de análise. A qualidade dos modelos foi analisada por meio da redução dos valores do Akaike information criterion (AIC). Para o ajuste dos modelos multinível, foi utilizado o pacote lme4 do R.

Resultados

As amostras foram formadas por 2.143 indivíduos no ano de 2000, 1.413 em 2006, 1.344 em 2010 e 1.224 em 2015. A Figura 1 apresenta essa distribuição de forma mais detalhada nas diferentes ondas do Estudo SABE. Nas quatro ondas do Estudo SABE, a faixa etária mais prevalente foi a de 60-69 anos, com proporção variando entre 54,2 a 59,1%. Observa-se, no entanto, aumento ao longo dos 15 anos na proporção de indivíduos com 80 anos e mais, que em 2000 correspondia a 10,9% e passou a representar 15,2% da amostra na última onda do estudo. No que diz respeito ao sexo, o feminino foi o mais prevalente nas quatro ondas, com 58,8% da amostra em 2000 e 56,2% em 2015 Tabela 1.

 

 

Tab.: 1
Tabela 1 Caracterização das ondas do Estudo SABE. São Paulo, Brasil, 2000, 2006, 2010 e 2015.

 

Outras características sociodemográficas que apresentaram mudanças ao longo dos 15 anos do estudo foi a escolaridade e a suficiência de renda. Houve aumento da proporção de indivíduos com maior escolaridade (17,6% em 2000 e 31,4% na última onda), e na proporção de idosos que considerava sua renda suficiente para cobrir as despesas, que era de 31,4% e passou a representar 52,1% dessa população. Algumas DCNT também se tornaram mais prevalentes ao longo dos anos, como a hipertensão arterial e as doenças osteoarticulares. A caracterização da amostra de acordo com as variáveis socioeconômicas, demográficas e de saúde nas quatro ondas do estudo pode ser vista na Tabela 1.

A Figura 2 apresenta a frequência relativa de limitação em cada uma das quatro tarefas de mobilidade, para as quatro ondas do Estudo SABE. Observa-se que a capacidade de agachar é o item com maior número de queixa de limitação, seguido de carregar objetos, subir escadas e caminhar. Essa ordenação é observada nas quatro ondas analisadas. A Tabela 2 apresenta as frequências absolutas e relativas de dificuldade em cada um dos quatro itens de mobilidade avaliados nas três primeiras ondas do Estudo SABE (2000, 2006 e 2010) de acordo com as ondas subsequentes (2006, 2010 e 2015).

 

 

Figura 2 Proporção de indivíduos com comprometimento em cada item autorreferido segundo onda do Estudo SABE, São Paulo, Brasil, 2000, 2006, 2010, 2015.

 

 

 

Tab.: 2
Tabela 2 Frequência de dificuldade em quatro itens de mobilidade nas três primeiras ondas do Estudo SABE, de acordo com as ondas subsequentes. São Paulo, Brasil, 2000, 2006, 2010 e 2015.

 

Em relação à variável de interesse do estudo, a dificuldade autorreferida em alguma das quatro tarefas relacionadas à mobilidade, verifica-se menor proporção no ano 2000 do que nos outros anos Tabela 1. Essa diferença foi significativa, como pode ser observado nas razões de prevalências ajustadas pelas variáveis demográficas e socioeconômicas, apresentadas na Tabela 3, que mostra RP = 1,15 (IC95%: 1,05; 1,25) para a onda 2006; de RP = 1,11 (IC95%: 1,01; 1,22) para 2010; e RP = 1,12 (IC95%: 1,05; 1,23) para 2015, quando a onda 2000 era a referência. Essa associação perde significância no modelo ajustado por todos os blocos de variáveis.

 

 

Tab.: 3
Tabela 3 Modelos de regressão multinível para prevalência de mobilidade comprometida em cada onda do Estudo SABE. São Paulo, Brasil, 2000, 2006, 2010, 2015.

 

Quanto aos fatores de risco analisados pelos modelos de regressão apresentados na Tabela 4, observa-se que as idades mais avançadas se associaram positivamente com a queixa de limitação na mobilidade nos quatro modelos, com RP = 1,31 (IC95%: 1,19; 1,44); RP = 1,35 (IC95%: 1,22; 1,49); RP = 1,26 (IC95%: 1,13; 1,41) e RP = 1,18 (IC95%: 1,05; 1,34), bem como o sexo feminino, com variação de RP = 1,22 (IC95%: 1,08; 1,36) a RP = 1,31 (IC95%: 1,16; 1,48) Tabela 4.

 

 

Tab.: 4
Tabela 4 Razões de prevalência (RP) ajustadas e seus respectivos intervalos de 95% de confiança (IC95%) para limitação da mobilidade. São Paulo, Brasil, 2000, 2006, 2010, 2015.

 

A baixa escolaridade se associou ao desfecho no ano 2010, com RP = 1,28 (IC95%: 1,11; 1,47), para o grupo com até três anos de estudos quando comparado com aqueles que estudaram por oito anos ou mais, assim como a ausência de renda suficiente (RP = 1,17; IC95%: 1,07; 1,28) Tabela 4. Aspectos comportamentais também apresentaram associações isoladas em alguns modelos, como o consumo de álcool de 1 a 3 dias por semana (RP = 0,66; IC95%: 0,53; 0,82) e o tabagismo (RP = 1,03; IC95%: 0,93; 1,13) em 2010, bem como a inatividade física (RP = 1,54; IC95%: 1,34; 1,77) em 2000.

As caraterísticas de saúde que se associaram com o desfecho nas quatro ondas do Estudo SABE foram a história de AVC, com RP = 1,24 (IC95%: 1,08; 1,42) a RP = 1,43 (IC95%: 1,29; 1,58), a presença de doenças osteoarticulares, com RP = 1,26 (IC95%: 1,16; 1,36) a RP = 1,35 (IC95%: 1,23; 1,49), e a queixa de “dor nas costas” RP = 1,24 (IC95%: 1,12; 1,36) a RP = 1,45 (IC95%: 1,33; 1,57) Tabela 4. Outros aspectos também mostraram associações em alguns modelos, como a hipertensão arterial, as doenças pulmonares, as cardiopatias, o declínio cognitivo e a história de duas quedas ou mais nos últimos 12 meses Tabela 4.

É importante ressaltar que, no geral, as medidas de efeito apresentaram direções similares, indicando consistência nas associações. As RPs das demais variáveis e seus respectivos ICs estão apresentados na Tabela 4.

Discussão

Este estudo indica aumento nas prevalências de limitação na mobilidade autorreferida de idosos residentes no Município de São Paulo entre 2000 e 2015 Tabela 1. De acordo com os resultados da análise multinível, esse aumento foi significativo apenas para o ano de 2006 em relação a 2000, mesmo no modelo ajustado pelas variáveis demográficas, o que indica que essa relação não parece ser explicada por mudanças na estrutura etária da população. Entretanto, após ajuste pelas variáveis demográficas e socioeconômicas, as diferenças nas prevalências de limitação da mobilidade passam a apresentar significância estatística também para os demais anos, chamando atenção para influência da condição social nessas relações Tabela 3.

Foram apresentadas, também, associações entre características de saúde, comportamentais, demográficas e socioeconômicas com a limitação da mobilidade funcional em todas as ondas do estudo. Algumas dessas variáveis apresentaram associações consistentes nos quatro momentos analisados, como a faixa etária, o sexo, a presença de algumas DCNT, e a queixa de dor lombar. Outros aspectos, como a escolaridade, o relato de suficiência de renda, o consumo de álcool e o tabagismo, se associaram com o desfecho apenas em algumas ondas, mas com direções dos efeitos similares nos quatro modelos.

De acordo com um estudo que analisou os dados de 28.943 idosos brasileiros participantes da PNAD 1998, mais de 60% dessa população apresentava alguma dificuldade autorreferida em tarefas de mobilidade, sendo que entre as mulheres essa prevalência ultrapassava os 80% 16. Nesse estudo, além de tarefas como caminhar, ajoelhar, agachar e subir escadas, outras também foram investigadas, como caminhar distâncias maiores do que um quilômetro, se alimentar, ir ao banheiro, e praticar esportes 16. A inclusão de tarefas com maior grau de dificuldade, provavelmente aumentou o número de indivíduos com queixa na mobilidade. Ainda nesse estudo, os autores encontraram que a proporção de idosos com dificuldade para ajoelhar e agachar foi em torno de 50% e maior do que 50% para subir escadas 16. Neste estudo, esses percentuais foram de 46% a 51% para a dificuldade em agachar, e de 26% a 31% para subir escadas.

Diferente dos achados deste estudo, outro trabalho, que comparou os resultados da PNAD dos anos de 1998 e 2003 encontrou redução na proporção de idosos brasileiros com limitação na mobilidade, mesmo quando analisados os valores estratificados por região 17. No Sudeste, por exemplo, a prevalência era de 24,4% em 1998 e reduziu para 22,1% em 2003 16. Este estudo teve caráter descritivo, não se propondo a realizar análises ajustadas por outros fatores. Além de o período analisado ser anterior ao deste estudo, a questão referente ao desfecho se referiu à dificuldade para caminhar cerca de 100 metros, distinta da pergunta presente no questionário do Estudo SABE, o que pode justificar algumas das diferenças encontradas.

Estudos conduzidos em outros países também mostram resultados variados acerca das limitações na mobilidade. Em um estudo de base populacional de Uganda 18, que analisou 2.628 indivíduos com idade igual ou superior a 50 anos, observou-se que 28,4% da amostra apresentava dificuldade para caminhar ou subir escadas, percentual próximo ao do encontrado neste estudo para dificuldade em subir escadas. Outro estudo, com amostra representativa da população com 55 anos e mais de Singapura, mostrou que mais de 90% dos indivíduos se considerou capaz de se mover sem qualquer ajuda ou dispositivos de auxílio. Neste estudo buscou-se avaliar as mudanças nas prevalências de limitação na mobilidade entre 1995 e 2005, sendo considerado como comprometimento a necessidade autorrelatada de qualquer assistência física para se locomover ou se transferir e supervisão ao usar dispositivos auxiliares. Assim como neste estudo, os autores observaram aumento dessa prevalência, principalmente nas faixas etárias mais avançadas 19.

Análises similares às deste estudo foram realizadas previamente, com o objetivo de comparar as mudanças na morbidade por doenças cardiovasculares em idosos moradores da cidade de São Paulo entre os anos 2000 e 2010 20. Neste estudo, os autores encontraram aumento das chances de doenças cardiovasculares em 2006 e 2010, em relação ao ano 2000, mesmo nos modelos ajustados 20, indicando um padrão de piora das condições crônicas na década que sucedeu ao ano 2000, o que provavelmente refletiu na capacidade funcional e de mobilidade dos idosos. Esse padrão de crescimento das condições crônicas se alinha com o processo brasileiro de transição epidemiológica observado por Marinho et al. 21, em um estudo publicado em 2018. De acordo com os resultados desses autores, houve melhora geral da condição de saúde da população entre 1990 e 2016, com redução das causas infecciosas e neonatais de morte, porém com crescimento no peso das doenças crônicas, que passaram a ser as principais causas de incapacidade na população 21.

Quanto à análise dos fatores de risco, algumas características apresentaram associações consistentes nos quatro momentos analisados. Embora não determine a perda funcional, a idade é considerada um fator de risco bem estabelecido na literatura para declínio de mobilidade 22. Sabe-se que o impacto de comorbidades, das características ambientais e socioeconômicas são mais evidentes com o avançar da idade, aumentando o risco de os indivíduos desenvolverem dificuldades na locomoção e na realização de outras atividades funcionais 22,23. As mulheres, embora tenham sobrevida média maior do que os homens, também apresentam maior risco de desenvolver incapacidades 24,25. Esse fato corrobora com os resultados deste estudo, em que o sexo feminino apresentou prevalência de limitação na mobilidade cerca de 20% a 30% maior do que a dos homens.

Algumas DCNT são conhecidas por causar impactos diretos na capacidade de locomoção e mobilidade 26, como as doenças cerebrovasculares, que são caracterizadas por déficits neurológicos decorrentes de infarto ou hemorragias no encéfalo 27. O AVC tem apresentado incidência e prevalência crescentes em números absolutos, sendo uma das principais causas de incapacidade na população 28,29. Nossos resultados mostraram que esta condição se associou fortemente com a queixa de limitação da mobilidade em todas as ondas do estudo.

Outras condições de saúde que também se associaram à limitação da mobilidade em todos os anos analisados foram doenças osteoarticulares e a queixa de dor lombar. Esses resultados corroboram com a literatura, uma vez que esses problemas são descritos como importantes causas de anos vividos com incapacidade 30. As doenças osteoarticulares, como a osteoartrite, se caracterizam por processos inflamatórios e danos estruturais nas articulações do corpo, causando dor e redução das amplitudes de movimento. Algumas das principais articulações acometidas são os joelhos e quadris, estruturas que estão diretamente relacionadas à locomoção 31. A dor lombar, embora seja um sintoma cuja etiologia nem sempre seja bem definida, foi relatada, em uma análise publicada recentemente, como a queixa que mais contribui para a necessidade de serviços de reabilitação e de saída prematura do trabalho, seguida por outros problemas osteoarticulares 32.

A presença acumulada de doenças crônicas contribui para uma cadeia de alterações que culminam em inatividade física, imobilidade, depressão, entre outras condições adversas na saúde 21,26. Uma das consequências dessa cadeia pode ser o aumento do risco de quedas, que, por sua vez, também gera consequências como medo de cair, lesões físicas e a própria imobilidade 33. Dessa forma, os resultados deste estudo corroboram com a literatura em mostrar a associação entre esses aspectos e a mobilidade funcional autorreferida.

Alguns aspectos também se associaram com o desfecho analisado, mas não em todas as ondas do Estudo SABE. Em relação às características sociais, a menor escolaridade teve associação com a queixa de limitação na mobilidade no ano de 2010, e a percepção de suficiência de renda em 2000, 2010 e 2015. Ambas as variáveis são consideradas proxy para a condição socioeconômica dos indivíduos e apontadas em publicações prévias como fatores de risco para piores condições de saúde, inclusive a mobilidade 34,35. Essa relação pode ocorrer devido ao acesso mais difícil aos serviços de saúde, a comportamentos de risco mais frequentes, bem como pelo comprometimento do bem-estar psicológico causado pelo estresse 34,36,37. Embora essas variáveis sejam consideradas fatores de risco não modificáveis, resultados como os deste estudo apontam para a necessidade de maior atenção à população mais vulnerável aos problemas de saúde por se encontrarem em desvantagem social. Suportam, portanto, a promoção de estratégias que busquem maior equidade no acesso aos serviços e programas assistenciais de saúde e sociais.

Os comportamentos de risco, como o consumo de álcool e de tabaco, são mais prevalentes em populações de condições socioeconômicas mais baixas e também tiveram associações significativas em parte das ondas. Vale ressaltar, porém, que a natureza transversal das análises e o tipo de pergunta que não considera as intensidades e as doses consumidas tornam o resultado sujeito a vieses. Estudos têm apontado que as associações positivas encontradas entre o consumo moderado de álcool e melhores condições de saúde podem ocorrer pelo fato de o grupo de comparação dos abstêmios muitas vezes apresentar algum problema de saúde 38. Estudos com delineamento longitudinal e diferentes métodos de mensuração do consumo de álcool suportam essa hipótese, mostrando os efeitos deletérios dose-dependentes do alcoolismo na saúde geral dos indivíduos 38,39. Quanto ao tabaco, o consenso é que não existem doses seguras para seu uso 40. Os resultados da coorte de 2000 mostraram que indivíduos que já haviam fumado apresentaram, em média, maiores prevalências de mobilidade comprometida, quando comparados com aqueles que nunca fumaram. A mesma direção de associação foi observada para os que se declararam fumantes, porém sem significância estatística.

Medidas de redução do consumo dessas substâncias na população têm sido implementadas, como a restrição da disponibilidade, a regulamentação da publicidade e dos espaços de consumo, e a facilitação no acesso a serviços de saúde que detectem e tratem os problemas relacionados 41,42. Essas medidas têm apresentado resultados positivos, sobretudo quanto ao controle do tabagismo 42, e necessitam ser continuadas e aprimoradas. Nossos resultados complementam as evidências sobre os impactos negativos do tabaco, reiterando a importância dessas políticas.

É importante levantar algumas limitações deste estudo. Primeiro, os dados foram obtidos a partir de entrevista, estando sujeitos a vieses de memória. Deve-se ressaltar que, nos casos de idosos do estudo com déficit cognitivo, uma pessoa próxima era requisitada a responder ao questionário. Segundo, as informações sobre o consumo de álcool foram referentes aos três meses anteriores à entrevista, não sendo possível analisar de forma mais específica a quantidade ingerida. Além disso, a ocorrência de quedas também foi referente apenas aos 12 meses anteriores. Para ambas as variáveis, embora a pergunta referente ao período mais próximo à entrevista reduza o risco de viés de memória, é possível que informações anteriores importantes tenham sido perdidas. Por fim, a característica seriada das análises não permite inferir causalidade, de forma que os efeitos observados devem ser interpretados com cautela.

Os resultados deste estudo apontam para o aumento da prevalência de limitações da mobilidade funcional entre pessoas idosas residentes no Município de São Paulo em um período de 15 anos, parcialmente explicada pela mudança na estrutura demográfica da população. Indica também a influência das condições socioeconômicas nessa evolução ao longo do tempo e a importante contribuição de algumas condições crônicas, principalmente o AVC, as doenças osteoarticulares e a queixa de dor lombar nesse processo. Em um contexto de envelhecimento populacional acelerado, esses resultados trazem informações relevantes para a promoção de políticas públicas voltadas à prevenção de declínio da mobilidade, com ampliação do acesso aos grupos mais vulneráveis.

Agradecimentos

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo financiamento.

Referências

1.   United Nations Department of Economic and Social Affairs, Population Division. World population prospects 2019. https://population.un.org/wpp/Graphs/Probabilistic/PopPerc/60plus/76 (acessado em 06/Mar/2021).
2.   United Nations Department of Economic and Social Affairs, Population Division. World population ageing 2015. New York: United Nations; 2015.
3.   Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde. Indicadores de saúde, 2010. http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/saude/tabnet/ (acessado em 01/Jan/2020).
4.   Lee J, Lau S, Meijer E, Hu P. Living longer, with or without disability? A global and longitudinal perspective. J Gerontol A Biol Sci Med Sci 2020; 75:162-7.
5.   Organização Mundial da Saúde. Classificação internacional de funcionalidade, incapacidade e saúde. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo/Centro Colaborador da Organização Mundial da Saúde; 2015.
6.   Rantakokko M, Mänty M, Rantanen T. Mobility decline in old age. Exerc Sport Sci Rev 2013; 41:19-25.
7.   Mitra S, Sambamoorthi U. Disability prevalence among adults: estimates for 54 countries and progress toward a global estimate. Disabil Rehabil 2014; 36:940-7.
8.   Andrade FB, Duarte YAO, Souza Junior PRB, Torres JL, Lima-Costa MF, Andrade FCD. Inequalities in basic activities of daily living among older adults. Rev Saúde Pública 2019; 52 Suppl 2:14s.
9.   Alves LC, Leite IC, Machado CJ. Fatores associados à incapacidade funcional dos idosos no Brasil: análise multinível. Rev Saúde Pública 2010; 44:468-78.
10.   Biritwum RB, Minicuci N, Yawson AE, Theou O, Mensah GP, Naidoo N, et al. Prevalence of and factors associated with frailty and disability in older adults from China, Ghana, India, Mexico, Russia and South Africa. Maturitas 2016; 91:8-18.
11.   Watfe GMP, Fajersztajn L, Ribeiro E, Menezes PR, Scazufca M. Prevalence of older adult disability and primary health care responsiveness in low-income communities. Life (Basel) 2020; 10:133.
12.   Lebrão ML, Duarte YAO, Santos JLF, Silva NN. 10 Years of SABE Study: background, methodology and organization of the study. Rev Bras Epidemiol 2019; 21 Suppl 2:e180002.
13.   Lebrão ML, Duarte YAO. O projeto SABE no município de São Paulo: uma abordagem inicial. Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde; 2003.
14.   Icaza MG, Albala C. Minimental State Examinations (MMSE) del estudio de dementia en Chile: análisis estadístico. Brasília: Organización Panamericana de la Salud; 1999.
15.   Barros AJD, Hirakata VN. Alternatives for logistic regression in cross-sectional studies: an empirical comparison of models that directly estimate the prevalence ratio. BMC Med Res Methodol 2003; 3:21.
16.   Melzer D, Parahyba MI. Socio-demographic correlates of mobility disability in older Brazilians: results of the first national survey. Age Ageing 2004; 33:253-9.
17.   Parahyba MI, Simões CCS. A prevalência de incapacidade funcional em idosos no Brasil. Ciênc Saúde Colet 2006; 11:967-74.
18.   Wandera SO, Ntozi J, Kwagala B. Prevalence and correlates of disability among older Ugandans: evidence from the Uganda National Household Survey. Glob Health Action 2014; 7:25686.
19.   Yong V, Saito Y, Chan A. Changes in the prevalence of mobility limitations and mobile life expectancy of older adults in Singapore, 1995-2005. J Aging Health 2010; 22:120-40.
20.   Massa KHC, Duarte YAO, Chiavegatto Filho ADP. Análise da prevalência de doenças cardiovasculares e fatores associados em idosos, 2000-2010. Ciênc Saúde Colet 2019; 24:105-14.
21.   Marinho F, de Azeredo Passos VM, Carvalho Malta D, Barboza França E, Abreu DMX, Araújo VEM, et al. Burden of disease in Brazil, 1990-2016: a systematic subnational analysis for the Global Burden of Disease Study 2016. Lancet 2018; 392:760-75.
22.   Ferrucci L, Cooper R, Shardell M, Simonsick EM, Schrack JA, Kuh D. Age-related change in mobility: perspectives from life course epidemiology and geroscience. J Gerontol A Biol Sci Med Sci 2016; 71:1184-94.
23.   Duim E, Lima Passos V. Highways to ageing - linking life course SEP to multivariate trajectories of health outcomes in older adults. Arch Gerontol Geriatr 2020; 91:104193.
24.   Ahmed T, Vafaei A, Auais M, Guralnik J, Zunzunegui MV. Gender roles and physical function in older adults: cross-sectional analysis of the International Mobility in Aging Study (IMIAS). PLoS One 2016; 11:e0156828.
25.   Roman Lay AA, Ferreira do Nascimento C, Caba Burgos F, Larraín Huerta AC, Rivera Zeballos RE, Pantoja Silva V, et al. Gender differences between multimorbidity and all-cause mortality among older adults. Curr Gerontol Geriatr Res 2020; 2020:7816785.
26.   Costa Filho AM, Mambrini JVM, Malta DC, Lima-Costa MF, Peixoto SV. Contribution of chronic diseases to the prevalence of disability in basic and instrumental activities of daily living in elderly Brazilians: the National Health Survey (2013). Cad Saúde Pública 2018; 34:e00204016.
27.   Sacco RL, Kasner SE, Broderick JP, Caplan LR, Connors JJ, Culebras A, et al. An updated definition of stroke for the 21st century: a statement for healthcare professionals from the American Heart Association/American Stroke Association. Stroke 2013; 44:2064-89.
28.   Lotufo PA, Goulart AC, Passos VMA, Satake FM, Souza MFM, França EB, et al. Doença cerebrovascular no Brasil de 1990 a 2015: Global Burden of Disease 2015. Rev Bras Epidemiol 2017; 20 Suppl 1:129-41.
29.   Ouriques Martins SC, Sacks C, Hacke W, Brainin M, Assis Figueiredo F, Marques Pontes-Neto O, et al. Priorities to reduce the burden of stroke in Latin American countries. Lancet Neurol 2019; 18:674-83.
30.   Vos T, Abajobir AA, Abate KH, Abbafati C, Abbas KM, Abd-Allah F, et al. Global, regional, and national incidence, prevalence, and years lived with disability for 328 diseases and injuries for 195 countries, 1990-2016: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2016. Lancet 2017; 390:1211-59.
31.   Hunter DJ, Bierma-Zeinstra S. Osteoarthritis. Lancet 2019; 393:1745-59.
32.   Cieza A, Causey K, Kamenov K, Hanson SW, Chatterji S, Vos T. Global estimates of the need for rehabilitation based on the Global Burden of Disease study 2019: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2019. Lancet 2020; 396:2006-17.
33.   Hartholt KA, van Beeck EF, Polinder S, van der Velde N, van Lieshout EMM, Panneman MJM, et al. Societal consequences of falls in the older population: injuries, healthcare costs, and long-term reduced quality of life. J Trauma 2011; 71:748-53.
34.   Foster HME, Celis-Morales CA, Nicholl BI, Petermann-Rocha F, Pell JP, Gill JMR, et al. The effect of socioeconomic deprivation on the association between an extended measurement of unhealthy lifestyle factors and health outcomes: a prospective analysis of the UK Biobank cohort. Lancet Public Health 2018; 3:e576-85.
35.   Stringhini S, Carmeli C, Jokela M, Avendaño M, McCrory C, D'Errico A, et al. Socioeconomic status, non-communicable disease risk factors, and walking speed in older adults: multi-cohort population based study. BMJ 2018; 360:k1046.
36.   Chen E, Miller GE. Socioeconomic status and health: mediating and moderating factors. Annu Rev Clin Psychol 2013; 9:723-49.
37.   Almeida APSC, Nunes BP, Duro SMS, Facchini LA. Determinantes socioeconômicos do acesso a serviços de saúde em idosos: revisão sistemática. Rev Saúde Pública 2017; 51:50.
38.   Stockwell T, Zhao J, Panwar S, Roemer A, Naimi T, Chikritzhs T. Do "moderate" drinkers have reduced mortality risk? A systematic review and meta-analysis of alcohol consumption and all-cause mortality. J Stud Alcohol Drugs 2016; 77:185-98.
39.   Ortolá R, García-Esquinas E, López-García E, León-Muñoz LM, Banegas JR, Rodríguez-Artalejo F. Alcohol consumption and all-cause mortality in older adults in Spain: an analysis accounting for the main methodological issues. Addiction 2019; 114:59-68.
40.   Inoue-Choi M, Liao LM, Reyes-Guzman C, Hartge P, Caporaso N, Freedman ND. Association of long-term, low-intensity smoking with all-cause and cause-specific mortality in the National Institutes of Health - AARP diet and health study. JAMA Intern Med 2017; 177:87-95.
41.   Monteiro MG. A iniciativa SAFER da Organização Mundial da Saúde e os desafios no Brasil para a redução do consumo nocivo de bebidas alcoólicas. Epidemiol Serv Saúde 2020; 29:e2020000.
42.   Portes LH, Machado CV, Turci SRB, Figueiredo VC, Cavalcante TM, Silva VLC. A política de controle do tabaco no Brasil: um balanço de 30 anos. Ciênc Saúde Colet 2018; 23:1837-48.

CreativeCommons
Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons

 


Cadernos de Saúde Pública | Reports in Public Health

Rua Leopoldo Bulhões 1480 - Rio de Janeiro RJ 21041-210 Brasil

Secretaria Editorial +55 21 2598-2511.
cadernos@fiocruz.br

  • APOIO:

©2015 | Cadernos de Saúde Pública - Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca | Fundação Oswaldo Cruz. - Ministério da Saúde Governo Federal | Desenvolvido por Riocom Design