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Cadernos de Saúde Pública

ISSN 1678-4464

38 nº.3

Rio de Janeiro, Março 2022


PERSPECTIVAS

A saúde e a era da guerra e paz em formato híbrido

Luis David Castiel

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00041222


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No momento desta escritura, houve a invasão da Ucrânia pelo exército russo, que está com um aparente domínio discutível da situação e talvez deva prevalecer. Existe uma quantidade considerável de explicações sobre a origem do conflito tentando esclarecer as razões e os possíveis efeitos geopolíticos e humanitários do confronto que marca o primeiro conflito bélico no território europeu desde o término da Segunda Grande Guerra em 1945.

Não se trata, aqui, de entrar na análise da pertinência de tais explicações. Mas, sim, do fato deste grave conflito ocorrer em meio a um contexto já bastante complexo que se vive no planeta quanto à pandemia coronaviral e de suas repercussões em termos sanitários/epidemiológicos, econômicos, políticos, sociais etc. A rapidez e a magnitude deste processo alterou drasticamente como vivemos, trabalhamos, estudamos, socializamos, são feitos negócios e aumenta a precarização em grau e quantidade de grupos sociais desprivilegiados. Houve, em linhas gerais, usando um termo da moda, uma disrupção das formas de viver tais como eram conhecidas.

Além disso, convive-se com manifestações desastrosas de variados graus de instabilidades climáticas/atmosféricas planetárias. E ainda, especificamente no contexto brasileiro, temos consequências funestas em vários aspectos resultantes da sinergia destes elementos com a incessante proliferação de malfeitos do governo Jair Bolsonaro que também interferem no agravamento progressivo do quadro econômico e social do país.

Pode-se, metaforicamente, por um lado, comparar as precariedades desse estado de coisas em vários aspectos, desde o início do malfadado governo, como algo capaz de evocar um quadro comparável aos efeitos deletérios de algo equivalente a uma forma implícita de “guerra”. O objetivo seria instituir uma politização fragilizadora de vários setores técnicos nos âmbitos sanitários, culturais, educacionais, científicos, acadêmicos, agrários, das políticas públicas em geral do país.

Especificamente em relação ao campo sanitário, é sabido que houve evidências flagrantes de sérios comprometimentos não só no âmbito dos serviços públicos do Sistema Único de Saúde, mas também diante do enfrentamento específico da pandemia. Isso acontece no contexto de uma ampliação significativa da pauperização de contingentes populacionais já precarizados por ações e inações instituídas desde o governo Michel Temer, iniciado em 2016.

De qualquer forma, é insofismável que estejamos passando por um contexto de alta incerteza, especialmente devido à inevitável gestão dos riscos de COVID-19. Essa configuração, por sua vez, seria capaz, nessas contingências, de consumar um crime (genocídio?) perfeito, especialmente em certas formações socioeconômicas na forma de tanatopolítica de grupos/classes sociais subalternizados.

Ou seja, em função da evolução da guerra na Ucrânia, há previsões de danos econômicos no Brasil, que tem debilidades em sua economia, em um momento de inflação elevada no país e juros na casa de dois dígitos. Segundo Diniz 1, importa considerar que os combustíveis são os componentes de maior peso do nosso principal índice de inflação, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), e o petróleo sofrerá reajustes conforme o andamento do conflito armado. Em outros termos, esta guerra deve diminuir mais ainda as possibilidades de reversão no nosso aperto monetário.

É sabido que a Rússia é um dos maiores produtores de petróleo do mundo, com capacidade para produzir mais de 10 milhões de barris por dia. Já a nossa produção gira em torno de três milhões de barris diários. Ou seja, uma redução ou interrupção no fornecimento da commodity poderia reduzir o Produto Interno Bruto (PIB) global em 2022.

A guerra na Ucrânia também pode trazer pressões inflacionárias vindas do dólar. A moeda americana vinha sendo negociada no menor patamar em sete meses com o apetite do investidor estrangeiro por ativos brasileiros trazendo bilhões em divisas para a Bolsa. Com a aversão ao risco, contudo, a tendência é que a procura por dólar aumente - o investidor compra dólares para adquirir ativos mais seguros no exterior.

A turbulência provocada com uma guerra no Leste Europeu também promete refletir na inflação de alimentos. Juntas, Ucrânia e Rússia respondem por quase um terço das exportações globais de trigo (28%) e um quinto das exportações de milho (18%). A Rússia também é um poderoso fornecedor de insumos agrícolas e está entre os maiores exportadores de fertilizantes nitrogenados (como amônia e ureia) do mundo. Em qualquer situação de guerra, é esperado um aumento expressivo de preços.

Além disso, temos de levar em conta a guerra híbrida. Segundo Belli 2, há enfrentamentos bélicos convencionais com armas pesadas e explosivos com vistas à ocupação de territórios e, simultaneamente, ações cibernéticas mediante diversos dispositivos e instrumentos/armas digitais.

Por exemplo, as ações russas são diversificadas por meio de recursos digitais para destruir a infraestrutura ucraniana. Ou até para tomar posse de tal infraestrutura para convertê-la em armamento suplementar. Dessa forma, diversos portais governamentais ucranianos foram inativados por meio de ações que os tornou indisponíveis com o excesso de pedidos de acesso.

Isso também aconteceu com outros sites governamentais e bancos estatais anteriormente, suspendendo serviços públicos digitais e bancários online no país. Tais ataques já haviam ocorrido em anos anteriores. Por exemplo, o ataque cibernético denominado NotPetya desativou grande parte do país, incluindo setores da economia. Inclusive chegou a controlar sistemas de monitoramento de radiação na usina de Chernobyl.

Assim, fica explícito não ser somente a infraestrutura de TI a afetada, pois quaisquer sistemas/dispositivos conectados se tornam vulneráveis mediante a invasão progressiva de softwares usados para causar danos, afetando tanto computadores como celulares, e até redes inteiras, também chamados de malwares, capazes de produzir falhas permitindo interferências em sistemas bancários, estações de energia, redes de telecomunicações e reservatórios de água.

Essas ações evidentemente podem atuar em termos de comprometimentos psicológicos das pessoas que perdem a possibilidade de comunicação com familiares e com informações relevantes sobre os acontecimentos. Além disso, nos últimos anos, a Rússia desenvolveu tanto condições cibernéticas ofensivas como defensivas.

Ao mesmo tempo, independente da guerra cibernética, já se sabe da existência cotidiana do lado dark da Internet e suas atividades ilícitas, em que o anonimato, a criptografia e a privacidade são facilmente penetrados e, também, polêmicas, bizarrices, atrocidades e atos criminosos acontecem. Há inclusive uma rede secreta na dark web, onde se pode acessar qualquer site, o que é proibido e impossível de alcançar por meio de navegadores convencionais. A este espaço se atribui responsabilidade por atividades criminosas, como comércios ilegais, mercado de drogas, contratação de assassinos, compra de armas, organização de grupos terroristas, compra ilegal de armas e munição, tráficos de seres humanos e órgãos, pornografia infantil, entre outras 3.

Aqui temos o fenômeno da forma ampliada, por meio das redes sociais, de um ativismo fanático de extrema direita. Certas formas perversas de governo com feições autoritárias podem ser muito perigosas, porque fornecem condições psicológicas para a “lealdade total” dos traços paranoicos por seus adeptos. O tipo de lealdade dos apoiadores fanáticos que ocorre quando os indivíduos estão plenamente convencidos de que apenas posições marcadas pelo negacionismo em torno da violência de cunho fascistoide fornecem um senso paradoxal de lugar no mundo. O absurdo pode se tornar “verdadeiro” a partir do fato de que os algoritmos de mídia social são programados para oferecer ao usuário qualquer conteúdo adulterado capaz de atraí-los com mais frequência e mais tempo para a plataforma.

Os algoritmos dos engenheiros do caos 4 forçam seus seguidores a se sustentarem, não importa qual posição, razoável ou absurda, realista ou imaginária, desde que intercepte as aspirações e, principalmente, estimule os medos dos usuários. O jogo agora consiste em adicionar pessoas que irão convergir a favor de posições políticas extremadas e, acima de tudo, gerar o apoio fanático do maior número de grupos para ganhar a maioria. Tais algoritmos enfraquecem as diferenças ideológicas tradicionais e reduz o tecido do conflito político em termos de “elites” versus “pessoas”.

Para além de um julgamento de supostas “tolices” dos conteúdos de desinformação, há uma lógica muito consistente. Há falsos ideólogos que elaboram pseudoverdades que vão muito além de uma simples ação digital capaz de gerar rumores e falsidades. Na verdade, isso consiste em um elemento central de uma almejada fragmentação da coesão social.

A confusão atual está estruturada em dois eixos racionais: (1) raiva que se origina em precariedades sociais e econômicas reais - efeito do modus operandi predador da lógica capitalista neoliberal e suas afirmações cínicas; e (2) dispositivos de comunicação robustos, originalmente com funções comerciais, mas indevidamente ajustados para manipular emoções e sentimentos cruciais para a desinformação ser amplamente difundida de modo a servirem para os interesses e a manutenção de governos autoritários e regressivos.

Os engenheiros do caos e os líderes de movimentos de extrema esquerda pretendem direcionar a raiva social para fins políticos por meio desses dispositivos de “pseudoinformação”. Os avanços na Internet, juntamente com a expansão das mídias sociais, mudaram os caminhos e meios de formulação de políticas e interação em termos socioculturais. Democracias representativas estão sendo controladas, como aconteceu nos contextos americano, italiano, húngaro, turco, inglês (Brexit) e brasileiro. Baseado nos erros aparentes da atual epidemia de desinformação, há uma lógica muito consistente. Há falsos ideólogos que elaboram falsas verdades que vão muito além de uma simples ação digital capaz de gerar rumores e falsidades.

De qualquer forma, é impossível negar que a guerra na Ucrânia ocupou nosso cotidiano em sinergia com a normatividade algorítmica à qual também estamos sujeitos. Para analisar essa questão, é necessário depurar alguns termos, especialmente “normatividade”. Inevitavelmente, temos que olhar em Canguilhem 5 que a norma nada mais é do que o efeito que confere determinado valor a algo, seja objeto, evento ou ação em função de seus vínculos com algum propósito implícito ou explícito.

Nesse sentido, a norma é a posição de um juízo de valor no qual se manifesta a “insuficiência” de um presente em relação a determinado requisito. No entanto agora é necessária uma normatividade que exerça a negação mais eficaz do negacionismo que traz o sofrimento derivado de ações perversas de desinformação. Há uma nova face assustadora à saúde derivada do clima de guerra e suas ações predatórias locais e à distância.

Ora, normalizar é valorar. E em tempos de graves instabilidades sanitárias o acréscimo de uma guerra com potencial de ampliação de efeitos econômicos globais, muitas normas que adotamos na vida social que poderiam fornecer níveis de valor em termos de proteção à segurança e à saúde se fragilizam intensamente. De certo modo, tais regras referem-se a imperativos do que se deve “fazer desta forma”, porque é o melhor possível nas circunstâncias.

No atual contexto brasileiro bélico russo-ucraniano/pandêmico/bolsonariano, o problema crucial talvez possa ser definido pelo fato de as normas que valiam deixaram de ser válidas. Em muitos aspectos, vive-se em um estado assustador de exceção normativa e sua evolução ainda não pode ser avaliada. E isso gera efeitos adversos profundos, seja em termos subjetivos ou objetivos.

Para tentar compreender, pode-se empregar ideias de Georges Canguilhem 5 ao postular que a normatividade seria o instrumento pelo qual o ser vivo, humano ou animal é individualizado. A partir daí, não se concebe mais o ser vivo como mecanismo, mas como um poder. A “atitude normativa” pertence à vida, a fim de prover normas que valorizem os fatos para resolver os obstáculos e problemas que impediriam a continuidade da condição de ser vivo.

De todos os modos, é importante não menosprezar a problemática da atual tirania algorítmica. Os sistemas humanos são governados globalmente por tecnologias de comunicação que desestabilizam formas clássicas de representação do mundo. Os algoritmos promovem o sequestro da linguagem por meio de uma espécie de autoritarismo daqueles que capturam os dados, os oligopólios das grandes empresas de tecnologia representadas pelas Big Tech, bem conhecidas.

Esta é uma questão essencial para a saúde coletiva. Independentemente da guerra, é preciso enfrentar também as múltiplas expressões da forma neoliberal de governo. Isso nos obriga a pensar criticamente não apenas em seus efeitos sobre as políticas públicas, o papel do Estado e dos direitos sociais, mas também nas relações sociais em termos de saúde, normalidade e doença, e sobre o próprio cuidado.

Logo não é despropositado assinalar que vários aspectos do cotidiano brasileiro do governo Bolsonaro ampliam a precarização de muitos contingentes populacionais com efeitos nitidamente graves em vários aspectos, inclusive em termos sanitários. Ademais, ainda que não exista um contexto bélico explícito aos moldes do conflito russo-ucraniano, há fortes estímulos ao acesso a armamentos para interessados com acenos a ações golpistas conforme os resultados eleitorais em outubro de 2022. Ao mesmo tempo, é possível acrescentar práticas cibernéticas criminosas digitais em vários formatos. Inegavelmente, tais questões inexoravelmente se colocam como desafios para a Saúde Coletiva, mesmo que estejamos em tempos de paz neste país. Paz?

Agradecimentos

Agradecimentos à pesquisadora Marilia Sá Carvalho.

Referências

1.   Diniz M. Como a guerra entre Rússia e Ucrânia impacta a economia brasileira. InfoMoney 2022; 24 fev. https://www.infomoney.com.br/mercados/guerra-russia-ucrania-impactos-economia-brasileira/.
2.   Belli L. Rússia também ataca Ucrânia pela internet. Entenda a ciberguerra. Folha de S.Paulo 2022; 25 fev. https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2022/02/russia-tambem-ataca-ucrania-pela-internet-entenda-a-ciberguerra.shtml.
3.   Quora. What is the deep/dark web and how do you access it? https://www.quora.com/What-is-the-deep-dark-web-and-how-do-you-access-it (acessado em 16/Mar/2021).
4.   Da Empoli G. Engenheiros do caos. Belo Horizonte: Editora Vestígio; 2019.
5.   Canguilhem G. O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária; 2011.

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