Portal ENSP - Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca Portal FIOCRUZ - Fundação Oswaldo Cruz

Cadernos de Saúde Pública

ISSN 1678-4464

38 nº.3

Rio de Janeiro, Março 2022


ARTIGO

Percepção de risco de adoecimento por COVID-19 e depressão, ansiedade e estresse entre trabalhadores de unidades de saúde

Aline Silva-Costa, Rosane Harter Griep, Lúcia Rotenberg

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00198321


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RESUMO
O objetivo foi analisar as associações entre a percepção de risco de adoecimento por COVID-19 e os sintomas de depressão, ansiedade e estresse em profissionais atuantes em unidades de saúde. Estudo transversal com trabalhadores de diversas categorias profissionais que buscaram voluntariamente um dos primeiros Centros de Referência em Testagem de COVID-19 no Município do Rio de Janeiro, Brasil. Os trabalhadores foram convidados a responder a um questionário online entre maio e agosto de 2020. Foram utilizadas a escala Percepção de Risco de Adoecimento por COVID-19 e a Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse (DASS-21). Foram estimados razão de chance (OR) e intervalo de 95% de confiança. Do total (N = 2.996), 81,5% eram mulheres com idade média de 40,7 anos. Cerca da metade apresentava grau leve, moderado ou severo de depressão, ansiedade ou estresse, sendo a frequência de trabalhadores com sintomas severos, respectivamente, 18,5%, 29,6% e 21,5%. Observou-se que as associações entre a percepção de risco e os sintomas de depressão, ansiedade e estresse foram mais fortes à medida que aumentava a classificação de gravidade de cada sintoma. Os trabalhadores com alta percepção de risco de adoecimento por COVID-19 apresentaram OR mais elevadas para sintomas severos de depressão (OR = 4,67), ansiedade (OR = 4,35) e estresse (OR = 4,97). Os achados apontam a demanda por medidas de proteção à saúde dos trabalhadores, que não devem se restringir aos equipamentos de proteção individual. É essencial que os gestores promovam espaços coletivos de discussão e ações que favoreçam a recuperação dos trabalhadores em contexto pandêmico de longa duração.

Saúde Mental; COVID-19; Profissionais de Saúde; Risco


 

Introdução

A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou, em janeiro de 2020, que o surto da COVID-19 constitui uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) 1, o que foi logo depois caracterizado como pandemia. Com o contínuo aumento do número de casos graves, hospitalizações e óbitos relacionados à doença, foram adotadas estratégias para reduzir o risco de exposição ao vírus por grande parte da população, como o distanciamento social 2. No entanto, em direção oposta, os trabalhadores de serviços de saúde, em especial os profissionais que prestam assistência, constituem o grupo mais vulnerável à infecção pelo SARS-CoV-2 3,4.

Nesse contexto, um inquérito sobre a percepção de risco e preocupações entre profissionais da saúde durante a pandemia da COVID-19 mostrou que 59,2% dos trabalhadores referiram alta percepção de risco de ser infectado 5. De forma semelhante, 35,5% dos trabalhadores da saúde referiram que seu local de trabalho apresentava maior risco de infecção do que outros locais 6. Morawa et al. 7 observaram que 27,8% dos trabalhadores da saúde referiram medo de ser infectado pelo SARS-CoV-2, destacando associação entre o medo do contágio e níveis elevados de ansiedade.

Além de mudanças no ritmo e estilo de vida, e da sobrecarga de trabalho durante a pandemia, as preocupações com o risco de infecção podem contribuir para diversos problemas relacionados à saúde mental entre os profissionais de saúde 3,4,8,9,10. Assim, este grupo vivencia não apenas o medo de ser infectado, adoecer e morrer, como também o medo relacionado ao risco de infectar outras pessoas 11. Ademais, a pandemia impôs a necessidade de seguir protocolos que se modificam rapidamente dado o desconhecimento da patologia 12. Este contexto de extrema pressão favorece dilemas éticos e morais, que contribuem para o desgaste emocional enfrentado pelos trabalhadores 13.

De fato, revisão sistemática recente mostrou elevada prevalência de ansiedade durante a pandemia da COVID-19, porém sem diferenças entre trabalhadores nos diversos continentes, evidenciando que a ansiedade relacionada à doença entre profissionais de saúde independe do contexto cultural 9. Os autores reforçam ainda que a identificação de diversos fatores de risco no trabalho, incluindo os psicossociais, devem ser priorizados nos estudos relacionados à saúde mental, a fim de contribuir para o desenvolvimento de estratégias de prevenção e tratamento destes trabalhadores 3.

No entanto, de forma geral, a literatura sobre as implicações da pandemia da COVID-19 à saúde mental dos trabalhadores se restringe a contextos hospitalares, sem focar os outros níveis de atenção à saúde 14. Além disso, estudos realizados no Brasil ainda são escassos 9,11. Assim, este estudo teve como objetivo analisar as associações entre a percepção de risco de adoecimento por COVID-19 e os sintomas de depressão, ansiedade e estresse em trabalhadores atuantes em unidades de saúde no Rio de Janeiro.

Métodos

Estudo transversal realizado entre maio e agosto de 2020 em um dos primeiros Centros de Referência em Testagem de COVID-19 para profissionais atuantes em unidades de saúde no Rio de Janeiro. Todos os trabalhadores que atuavam em unidades de saúde e que buscavam voluntariamente o Centro de Referência para a realização de testes para COVID-19 foram convidados a participar do inquérito epidemiológico intitulado Saúde Mental em Profissionais de Saúde Frente à Pandemia de COVID-19: Informação para Ações em Saúde do Trabalhador.

O estudo incluiu trabalhadores de diversas categorias profissionais que atuavam em todos os níveis de complexidade da saúde, incluindo Unidades Básicas de Saúde (UBS), Unidades de Pronto Atendimento (UPA), clínicas, Secretarias de Saúde e, principalmente, hospitais gerais e especializados públicos e privados, incluindo hospitais de campanha. De um total de 11.600 trabalhadores que buscaram voluntariamente o Centro de Referência e realizaram o teste para COVID-19, 3.484 preencheram o questionário online15. Foram incluídos nas análises apresentadas 2.996 (86%) trabalhadores com dados completos nas variáveis sexo, idade, ocupação, percepção de risco no trabalho e sintomas de depressão, ansiedade e estresse.

Instrumentos e variáveis utilizadas

Os participantes responderam a um questionário online que incluiu perguntas sobre aspectos sociodemográficos, relacionadas ao trabalho e à saúde.

Exposição

A escala Percepção de Risco de Adoecimento por COVID-19 contempla aspectos da percepção do risco de se infectar e infectar outras pessoas, experiências adversas e estratégias utilizadas para lidar com circunstâncias estressantes na situação de pandemia. A escala aplicada originalmente no contexto da pandemia da síndrome respiratória aguda grave foi traduzida do inglês e adaptada ao contexto brasileiro da COVID-19, com propriedades psicométricas adequadas. A escala se apresentou como unidimensional, com todas as cargas fatoriais acima de 0,40, alfa de Cronbach de 0,738 e índices de ajuste adequados: índice de ajuste comparativo (CFI) = 0,95; índice de Tuckey-Lewis (TLI) = 0,96; e o índice de ajuste parcimonioso (RMSEA) = 0,07 15. A escala de 9 itens foi precedida do seguinte enunciado “Em relação ao seu trabalho durante a pandemia de COVID-19, por favor, assinale o quanto você concorda com as afirmativas a seguir”. As opções de respostas variaram de concordo totalmente (5) a discordo totalmente (1). Na versão da escala validada para o contexto brasileiro foi recomendado o uso de 8 itens para o cálculo do escore global 15. Após o somatório da pontuação de cada item, foi utilizada a mediana do escore global para categorizar os trabalhadores em dois grupos: “baixa” e “alta” percepção de risco de adoecimento por COVID-19 no trabalho durante a pandemia 15.

Desfechos

Os sintomas de ansiedade, estresse e depressão foram avaliados por meio da aplicação da Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse (DASS-21). A DASS-21 é composta por três subescalas do tipo Likert de 4 pontos (variando de 0: não se aplica a mim a 3: aplica-se muito a mim, ou a maior parte do tempo). Cada subescala é composta por 7 itens destinados a avaliar os estados de depressão (itens: 3, 5, 10, 13, 16, 17, 21), ansiedade (2, 4, 7, 9, 15, 19, 20) e estresse (1, 6, 8, 11, 12, 14, 18) 16. A pontuação de cada subescala foi calculada a partir do somatório dos itens, multiplicado por dois e categorizado em 5 grupos: depressão: normal (0-9 pontos), leve (10-13 pontos), moderado (14-20 pontos), severo (21-27 pontos) e extremamente severo (28+ pontos); ansiedade: normal (0-7 pontos), leve (8-9 pontos), moderado (10-14 pontos), severo (15-19 pontos) e extremamente severo (20+ pontos); estresse: normal (0-14 pontos), leve (15-18 pontos), moderado (19-25 pontos), severo (26-33 pontos) e extremamente severo (34+ pontos) 17. Para o presente estudo, as categorias “severo” e “extremamente severo” foram agrupadas. Foram observados os seguintes valores para o alfa de Cronbach: 0,898 para a subescala de depressão, 0,877 para a subescala de ansiedade e 0,902 para a subescala de estresse.

Covariáveis

Foram utilizadas as seguintes covariáveis: sexo (feminino, masculino); idade (anos completos); escolaridade (Ensino Médio, Ensino Superior); situação conjugal (solteiro/separado, casado/vive em união); mora sozinho (sim, não); cuida de crianças e/ou idosos (sim, não); local de trabalho (vigilância/telessaúde/Secretaria de Saúde, UPA/pronto atendimento/unidade móvel, hospital geral, hospital especializado, UBS, policlínica/clínica especializada); ocupação (técnico/auxiliar de Enfermagem, enfermeiro, médico, outras profissões de nível superior, outras profissões de nível médio, técnico de laboratório, estudante); carga horária de trabalho antes da pandemia (até 40 horas/semana, mais de 40 horas/semana); carga horária de trabalho durante a pandemia (até 40 horas/semana, mais de 40 horas/semana); e comportamento altruísta - variável mensurada pela seguinte pergunta: “Em relação ao seu trabalho durante a pandemia de COVID-19, o quanto você concorda com a afirmativa a seguir. Aceito os riscos envolvidos para ajudar as pessoas”. As opções de respostas variaram de concordo totalmente (1) a discordo totalmente (5). Foi classificado com comportamento altruísta o trabalhador que respondeu “concordo totalmente” ou “concordo parcialmente” 15.

Análise de dados

Para a descrição da amostra de estudo, as variáveis categóricas foram expressas em frequências absolutas e relativas e as variáveis quantitativas expressas em média e desvio padrão (DP), utilizando-se testes de tendência linear. Para testar as associações entre a percepção de risco de adoecimento por COVID-19 e os sintomas de depressão, estresse e ansiedade, foram estimadas razões de chances (OR) e seus respectivos intervalos de 95% de confiança (IC95%), por meio de modelos de regressão multinomial, ajustados por potenciais confundidores. Foram considerados confundidores as variáveis associadas tanto à exposição percepção de risco 15 quanto ao desfecho. Foi considerado o nível de significância de 5%. Todas as análises estatísticas foram conduzidas no programa R, versão 3.6.1 (http://www.r-project.org).

Considerações éticas

Estudo aprovado pelos Comitês de Ética em Pesquisa do Instituto Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz (CAAE 31065020.1.0000.5248) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (CAAE 31065020.1.3001.5282). Foram enviados convites de participação por e-mail e WhatsApp, a partir das informações do cadastro de testagem do Centro de Referência, incluindo o objetivo da pesquisa e os requisitos para a participação. O preenchimento do questionário foi realizado logo após o de acordo no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Resultados

Descrição do perfil da amostra estudada

Os trabalhadores eram em maioria do sexo feminino (81,5%) e tinham em média 40,7 (DP = 9,8) anos de idade. As profissões mais frequentes foram técnicos/auxiliares de enfermagem (27,9%), enfermeiros (23,1%), médicos (7,4%) e outros profissionais de saúde de nível superior (23,1%). A maioria trabalhava em hospitais (51,8%), sejam hospitais especializados (27%) ou hospitais gerais (24,8%). O total de 11,4% trabalhava em UBS e 11,1% em policlínicas ou clínicas especializadas.

Sintomas de depressão severa e moderada foram observados, respectivamente, em 18,5% e 17,1% do grupo. Observou-se frequências crescentes dos níveis de depressão (leve para severa) entre as mulheres, os mais jovens, os solteiros/separados, aqueles que cuidam de criança/idoso, os que moram sozinhos, que trabalhavam mais de 40 horas/semana durante a pandemia e entre os classificados com alta percepção de risco de adoecimento por COVID-19 Tabela 1.

 

 

Tab.: 1
Tabela 1 Sintomas de depressão segundo fatores sociodemográficos e ocupacionais em trabalhadores atuantes em unidades de saúde durante a pandemia da COVID. Rio de Janeiro, Brasil, 2020.

 

No que se refere à ansiedade, 29,6% dos trabalhadores foram classificados com sintomas de ansiedade severa e 17,9% com sintomas de ansiedade moderada. Foram observadas indicações de gradiente linear segundo a gravidade do sintoma para a frequência de mulheres, solteiros/separados, os que cuidam de criança/idoso, que trabalhavam mais de 40 horas/semana antes da pandemia, que trabalhavam mais de 40 horas/semana durante a pandemia e de trabalhadores com alta percepção de risco de adoecimento por COVID-19 Tabela 2.

 

 

Tab.: 2
Tabela 2 Sintomas de ansiedade segundo fatores sociodemográficos e ocupacionais em trabalhadores atuantes em unidades de saúde durante a pandemia da COVID-19. Rio de Janeiro, Brasil, 2020.

 

Sintomas de estresse severo ou moderado foram observados, respectivamente, em 21,5% e 14,2% dos trabalhadores. Observou-se tendência de associação linear de acordo com a gravidade dos sintomas de estresse, com frequências crescentes dos níveis de estresse (leve para severa) entre as mulheres, os mais jovens, os solteiros/separados, aqueles que cuidam de criança/idoso, aqueles que trabalhavam mais de 40 horas/semana antes da pandemia, os que trabalhavam mais de 40 horas/semana durante a pandemia e entre os classificados com alta percepção de risco Tabela 3.

 

 

Tab.: 3
Tabela 3 Sintomas de estresse segundo fatores sociodemográficos e ocupacionais em trabalhadores atuantes em unidades de saúde durante a pandemia da COVID-19. Rio de Janeiro, Brasil, 2020.

 

Associação entre a percepção de risco de adoecimento por COVID-19 e o sofrimento mental

Os resultados dos modelos de regressão brutos e ajustados mostram que a alta percepção de risco de adoecimento por COVID-19 está associada aos três sintomas: depressão, ansiedade e estresse. Os trabalhadores classificados com alta percepção de risco de adoecimento por COVID-19 apresentaram razões de chance mais elevadas para sintomas de depressão leve (OR = 2,48), moderada (OR = 3,15) e severa (OR = 4,67), comparados àqueles com baixa percepção de risco, mesmo após ajuste por potenciais confundidores. Resultados semelhantes, com magnitudes levemente menores, foram observados para as associações entre a alta percepção de risco e sintomas de ansiedade leve (OR = 2,01), moderada (OR = 2,73) e severa (OR = 4,35). No que se refere ao estresse, também foram observadas razões de chances mais elevadas quanto mais graves os sintomas de estresse. Os trabalhadores classificados com alta percepção de risco de adoecimento por COVID-19 apresentaram razões de chance mais elevadas para sintomas de estresse leve (OR = 3,07), moderado (OR = 3,03) e severo (OR = 4,97), comparados àqueles com baixa percepção de risco, mesmo após ajuste por potenciais confundidores Tabela 4.

 

 

Tab.: 4
Tabela 4 Associação entre a percepção de risco para o adoecimento por COVID-19 e sintomas de depressão, ansiedade e estresse entre trabalhadores atuantes em unidades de saúde. Rio de Janeiro, Brasil, 2020.

 

Discussão

Cerca de metade dos trabalhadores atuantes em unidades de saúde apresentava algum grau de depressão, ansiedade ou estresse, seja leve, moderado ou severo. Além disso, observaram-se associações entre a percepção de risco de adoecimento por COVID-19 e os sintomas de depressão, ansiedade e estresse. Os resultados mostraram associações mais fortes à medida que aumentava a classificação de gravidade de cada sintoma avaliado.

Estudos sobre o sofrimento mental durante a pandemia têm mostrado elevadas taxas de adoecimento, principalmente entre os profissionais de saúde 18,19. De forma semelhante ao observado neste estudo, artigo de revisão sobre a saúde mental de trabalhadores da saúde mostrou prevalências de sintomas de ansiedade que variam entre 44,6% e 62%; cerca de 30% tinha nível moderado ou grave de ansiedade. Cerca de 50% dos profissionais de saúde apresentou sintomas depressivos 19. Já um inquérito com profissionais de enfermagem de serviços de saúde de média e alta complexidade mostrou que 39,6% e 38% apresentaram, respectivamente, sintomas severos de ansiedade e de depressão 20. Uma revisão sistemática com metanálise para avaliar a ansiedade nos profissionais da saúde durante a pandemia da COVID-19 mostrou que a prevalência geral de ansiedade (leve, moderada e grave) foi de 35%, variando de 7% a 70,8% 9. Essa variação pode decorrer de diferenças de contextos culturais ou de métodos na avaliação dos sintomas 10. A este respeito, investigação em hospitais na Etiópia com base no mesmo instrumento de avaliação apontou prevalências pouco mais altas que as observadas neste estudo, exceto em relação aos sintomas de estresse, observados em 63,7% dos profissionais de saúde 21.

Artigo de revisão incluindo dados da população geral e de profissionais de saúde mostrou a contribuição da pandemia para os quadros de ansiedade, depressão, estresse e transtorno de estresse pós-traumático, sendo as mulheres, os estudantes e os enfermeiros os mais acometidos pelo adoecimento mental 22. A este respeito, recente revisão sistemática com metanálise não apontou diferença na prevalência de ansiedade e depressão entre os profissionais de saúde e a população geral. Os autores ressaltam que estudos longitudinais precisam ser conduzidos para determinar se essa ausência de diferença está relacionada a estratégias para lidar na linha de frente do enfrentamento da doença 23.

Artigo de revisão sistemática sobre o impacto da COVID-19 na saúde mental em profissionais da saúde mostrou que um dos principais fatores associados aos problemas relativos à saúde mental foi a percepção de risco de adoecimento, ou seja, a preocupação em ser infectado ou em infectar outras pessoas 24. O estudo da relação entre problemas psíquicos e comportamentos não saudáveis em resposta à pandemia da COVID-19 mostrou que os profissionais de saúde que apontaram seu local de trabalho como de maior risco de infecção apresentavam mais estresse e ansiedade 6. Além disso, a alta percepção de risco de se infectar pela COVID-19 foi significativamente associada aos sintomas de ansiedade 25. Os autores discutem que, particularmente para os profissionais de saúde, a percepção de que se encontram sob maior risco de exposição ao vírus do que a população em geral pode levá-los a ampliar suas percepções de risco, aumentando assim os níveis de ansiedade 25, o que pode ser atribuído também aos sintomas de depressão e estresse.

Nessa perspectiva, estudo sobre a percepção de risco de COVID-19 em países da Europa, América e Ásia mostrou que as pessoas que vivenciaram a infecção apresentaram percepção de risco significativamente maior do que aquelas que não tiveram a experiência 26. Além disso, a percepção de risco correlacionou-se significativamente com a adoção de comportamentos preventivos de saúde. Os autores argumentaram que quanto mais as pessoas acreditam que é importante fazer algo em benefício do outro e/ou da sociedade, mesmo que tenha algum custo para elas individualmente, maior é a percepção de risco 26. No contexto dos profissionais atuantes em serviços de saúde aqui estudados, a percepção de risco foi associada ao comportamento altruísta, mas tal comportamento não se associou aos sintomas de depressão, ansiedade ou estresse.

Para Phua et al. 27, em situações de pandemia, as unidades de saúde precisam se preparar para os desafios não só relacionados à infraestrutura e aos suprimentos, mas também a ações de proteção contra a transmissão hospitalar e promoção do bem-estar mental. Visto que o setor saúde está em primeiro lugar no que diz respeito ao risco que envolve seus funcionários, reduzir esse risco é o primeiro passo para uma prestação de cuidados de saúde de qualidade. A percepção de risco dos profissionais de saúde pode afetar fortemente não apenas sua saúde mental, mas também sua exposição a este risco 28.

Este estudo se beneficia da avaliação da percepção de risco de adoecimento por COVID-19 por meio da adoção de uma escala utilizada pioneiramente no Brasil, com evidências de boas propriedades psicométricas 15. A utilização da escala torna a avaliação mais robusta, dada a abrangência da avaliação do risco, considerando o medo de ser infectado, de adoecer e morrer, como também o medo relacionado ao risco de infectar amigos e familiares. O estudo é pioneiro na avaliação da associação entre a percepção de risco de adoecimento por COVID-19 e a saúde mental, com base na gravidade dos sintomas de depressão, ansiedade e estresse. Assim, este estudo dá uma contribuição ao campo do conhecimento ao investigar uma amostra abrangente representada por profissionais atuantes em diferentes níveis de atenção à saúde.

Apesar das forças destacadas, o estudo apresenta limitações, como a falta de representatividade da amostra estudada, obtida por adesão voluntária ao preenchimento de um questionário online, o que pode ter gerado um viés de autosseleção. Embora a adoção de coleta de dados online tenha se propagado durante a pandemia, em resposta às recomendações de distanciamento social, e o questionário tenha sido elaborado por pesquisadores experientes na área da saúde do trabalhador e pré-testado em voluntários, foram obtidas respostas em branco ou inconsistentes. A avaliação seccional apresentada pode remeter à discussão de causalidade reversa, uma vez que trabalhadores com histórico de sofrimento mental antes da pandemia podem ter mais chance de apresentar maior percepção de risco de adoecimento do que aqueles sem sintomas de depressão, ansiedade e estresse. De toda forma, estudo que aborda a visão de trabalhadores da linha de frente na pandemia indica que estes atribuem o sofrimento psíquico às mudanças no trabalho, em especial aquelas relacionadas ao risco de contaminação 29. Apesar do caráter seccional, em que as variáveis classificadas como exposição e desfecho foram obtidas no mesmo momento, destaca-se que, para esta abordagem, a discussão ultrapassa as questões de causalidade, dado que a força das associações entre a percepção do risco de adoecimento e os problemas com a saúde mental é de considerável relevância para a elaboração de estratégias de enfrentamento a situações de pandemia, principalmente no que se refere aos trabalhadores atuantes nos serviços de saúde.

Destacamos ainda que o estudo abordou os trabalhadores na primeira fase da epidemia, momento de muita tensão e medo diante do novo contexto. O estresse crônico e a elevada carga física e mental dos trabalhadores tendem a se perpetuar ao longo do tempo. Os profissionais de saúde, principalmente quando em contato direto com pacientes infectados, precisam ter sua saúde mental monitorada com regularidade 3. No entanto, não foi possível monitorar a percepção de risco e a saúde mental nos diversos momentos da pandemia, que se alastrou de forma muito especial, com patamares elevados de morbimortalidade no Brasil. No contexto brasileiro de crise política, econômica e social, a ausência de um alinhamento entre as recomendações da OMS e as medidas adotadas no país dificultou o controle da pandemia no país 30, contribuindo para o sofrimento mental da população. Além disso, a vacinação tardia (quando comparada a outros países) também pode ter afetado a percepção de risco e a saúde mental dos trabalhadores de maneira muito mais severa do que aquela captada nos achados apresentados. Estudo sobre a saúde mental de enfermeiros sugere que ser vacinado garante não apenas a proteção imunológica contra o vírus, mas pode também reduzir o medo e a preocupação de se infectar ou infectar outras pessoas 31 e, portanto, reduzir a chance dos sintomas analisados neste artigo.

A associação entre a alta percepção de risco de adoecimento e o agravamento do sofrimento mental aponta a demanda por medidas de proteção à saúde dos trabalhadores. Tais medidas não devem se restringir à disponibilização de equipamentos de proteção individual (EPIs), treinamento e apoio psicológico, que são imprescindíveis, como aponta a literatura de forma unânime. É essencial que os gestores busquem promover espaços coletivos de discussão sobre o trabalho na própria unidade, além de ações que favoreçam a recuperação dos trabalhadores, como maior número de folgas, novas contratações e locais adequados para a alimentação e repouso, medidas que potencialmente reduzem o impacto à saúde mental dos profissionais de saúde 24,29. Trata-se de valorizar a força de trabalho em uma situação de extrema sobrecarga física e mental decorrente do excesso de demandas conjugado ao afastamento de colegas por adoecimento e à sensação de impotência diante da doença, com potenciais riscos psíquicos. Neste contexto, os profissionais da saúde se ressentem da pouca preocupação da gestão com a saúde dos trabalhadores, mesmo em situações em que estes adoecem por COVID-19, ressaltando que são procurados apenas para confirmar seu retorno à atividade, e não para acompanhar seu estado de saúde 29. Em suma, em um contexto pandêmico de longa duração, somente uma força de trabalho bem atendida do ponto de vista da organização do trabalho e de ações em saúde do trabalhador poderá prover assistência de qualidade nas diversas unidades de saúde.

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