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Cadernos de Saúde Pública

ISSN 1678-4464

38 nº.2

Rio de Janeiro, Fevereiro 2022


ARTIGO

As diferentes tipologias do comportamento sedentário estão associadas ao histórico de problemas no sono em idosos comunitários?

Jaquelini Betta Canever, Letícia Martins Cândido, Katia Jakovljevic Pudla Wagner, Ana Lúcia Danielewicz, Núbia Carelli Pereira de Avelar

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00156521


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RESUMO
Alterações no sono são comuns em idosos e alguns fatores de risco podem agravar essa condição. Entender a associação do comportamento sedentário com o histórico de problemas de sono poderá auxiliar na elaboração de programas de intervenção. Verificar a associação entre tipologias do comportamento sedentário e histórico de problemas no sono em idosos comunitários brasileiros. Estudo transversal, com dados de 43.554 idosos participantes da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), de 2019. As tipologias do comportamento sedentário foram avaliadas por: (1) tempo assistindo televisão; (2) atividades de lazer; e (3) tempo despendido total (televisão + lazer). O comportamento sedentário foi categorizado em < 3; 3-6 e > 6 horas/dia. O desfecho foi histórico de problemas de sono (dificuldade para adormecer, acordar frequentemente à noite ou dormir mais do que de costume) avaliados por meio do autorrelato nos últimos 15 dias. As associações foram verificadas pela regressão logística multivariável. Idosos que permaneceram tempo > 6 horas/dia em comportamento sedentário assistindo televisão tiveram 13% (OR = 1,13; IC95%: 1,02; 1,26) maiores probabilidades de relatarem problemas de sono. Referente ao comportamento sedentário total, idosos que permaneceram entre 3-6 horas e mais do que 6 horas/dia apresentaram 13% (OR = 1,13; IC95%: 1,04; 1,22) e 11% (OR = 1,11; IC95%: 1,01; 1,23) maiores probabilidades de problemas de sono, respectivamente. Os idosos amostrados que relataram permanecer por períodos superiores a 6 horas por dia em comportamento sedentário assistindo à televisão e > 3 horas em comportamento sedentário total tiveram maiores chances de terem problemas no sono. Estes achados podem contribuir nas orientações sobre a necessidade de redução no comportamento sedentário em idosos.

Vida Independente; Comportamento Sedentário; Sono; Idoso; Fatores de Risco


 

Introdução

Alterações no sono são comuns em idosos 1,2 e a senescência contribui para o desenvolvimento de insônia e síndrome de apneia noturna 2. Essas alterações são prevalentes em idosos, podendo acometer entre 5% e 20 % dos idosos mundialmente 1 e entre 19,3% (intervalo de 95% de confiança - IC95%: 18,1; 20,7) 3 a 33% dos idosos comunitários brasileiros 4.

A senescência está associada ao histórico de problemas de sono devido à redução na capacidade de iniciar e manter o sono 2. A partir da quinta década de vida, é comum a ocorrência de mudanças no padrão de sono como o tempo de sono, latência do início do sono longa, duração geral do sono curta, sono fragmentado e frágil e quantidade de sono não REM (rapid eye movement) reduzida 2. Além disso, há aumento do tempo gasto nos estágios não REM 1 e 2, bem como redução do ciclo de sono não REM-REM. O sono não REM é também conhecido como sono de ondas lentas, sendo fundamental para a restauração física e manutenção da qualidade de vida 5.

Devido a essas alterações, os idosos ficam mais suscetíveis ao desenvolvimento de distúrbios do sono 6. A insônia é definida como insatisfação com o sono quantitativo e qualitativo, sendo associada à dificuldade em iniciar e manter o sono, e incapacidade em voltar a dormir após despertar, e caracteriza-se como o distúrbio mais prevalente entre idosos 7. A insônia pode ser derivada de fatores predisponentes, como características demográficas, biológicas, psicológicas e sociais; fatores precipitantes, como multimorbidade; e fatores de perpetuação, como mudanças comportamentais ou cognitivas 7.

Dessa forma, os problemas no sono impactam a qualidade de vida do idoso 8, pois estão associados a desfechos negativos em saúde, como depressão 9, declínio cognitivo 10 e aumento do índice de massa corporal 11. Além disso, estão associados ao aumento na quantidade de cochilos diurnos, o que pode resultar em má iniciação e manutenção do sono noturno 8. Adicionalmente, há alguns fatores de risco relacionados a esta condição em idosos, tais como a doença de Alzheimer 12, depressão 13, noctúria 13, fragilidade 14, síndrome metabólica 15, presença de dor 16 e, também, aspectos relacionados ao estilo de vida, como o comportamento sedentário 3,17,18.

O comportamento sedentário pode ser definido como o tempo despendido na posição sentada, deitada ou reclinada com gasto energético menor ou igual a 1,5 equivalentes metabólicos 19. Compernolle et al. 20 classificaram o comportamento sedentário quanto a sua tipologia, as quais incluem o tempo despendido na televisão e em atividades de lazer (uso de tablets, computadores ou celulares), e repercutem de forma diferenciadas em alguns desfechos em saúde 20. O comportamento sedentário assistindo televisão, por exemplo, é associado a doenças cardiovasculares 21, declínio funcional 22 e mortalidade 23. Em contrapartida, o comportamento sedentário em atividades de lazer foi associado a menores índices de obesidade e diabetes tipo 2 24. Salienta-se que o comportamento sedentário pode acarretar outros desfechos negativos em saúde, tais como a síndrome metabólica, baixa autoestima, câncer e baixa aptidão física 25. Além disso, estudos indicam possível associação entre o comportamento sedentário e histórico de problemas no sono 3,17 devido à alta exposição a luzes artificiais derivadas da televisão e equipamentos eletrônicos 3.

Entretanto associação entre as diferentes tipologias do comportamento sedentário e histórico de problemas no sono em idosos permanece desconhecida. O conhecimento desta associação poderá auxiliar na elaboração de programas de intervenção e/ou políticas públicas subsidiando recomendações para os idosos a adotarem estilos de vida mais ativos visando proporcionar melhor qualidade do seu sono e contribuir para sua longevidade com maior qualidade de vida. Assim, o objetivo deste estudo foi verificar a associação entre diferentes tipologias do comportamento sedentário e histórico de problemas de sono em idosos comunitários brasileiros.

Materiais e métodos

Delineamento do estudo e população

Tratou-se de um estudo transversal, com 43.554 idosos comunitários participantes da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) realizada em 2019 no Brasil pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O projeto da PNS 2019 foi aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), do Conselho Nacional de Saúde (CNS), sob o parecer nº 3.529.376, emitido em agosto de 2019. Este estudo está de acordo com os princípios éticos contidos na Declaração de Helsinki.

Procedimentos de amostragem e coleta de dados

A PNS é um inquérito de base populacional representativo do Brasil e da população residente em domicílios particulares de seu território. A população-alvo da PNS consiste de indivíduos acima de 15 anos ou mais, residentes em domicílios com finalidade exclusiva de habitação. A amostra da PNS é constituída de um conjunto de unidades de áreas selecionadas aleatoriamente por meio de um cadastro que tem por finalidade atender a seleções de amostra para diversas pesquisas que são realizadas pelo IBGE. Os critérios de inclusão deste estudo foram indivíduos acima de 60 anos residentes da comunidade. Não houve critérios de exclusão, pois foram considerados todos os indivíduos acima de 60 anos que responderam às questões da PNS.

Para coleta, é realizada uma seleção dos domicílios cadastrados no Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos aleatoriamente. Posteriormente, o entrevistador faz contato com a pessoa responsável ou com algum dos moradores do domicílio selecionado.

A coleta de dados da PNS 2019 ocorreu entre os meses de agosto de 2019 e março de 2020. Maiores informações sobre a metodologia utilizada na PNS estão disponíveis em publicação prévia 26.

Variável de exposição

As variáveis de exposição foram o comportamento sedentário: (1) assistindo à televisão, obtido com o seguinte questionamento: “Em média, quantas horas por dia o(a) sr.(a) costuma ficar assistindo à televisão (TV)?”; (2) tempo despendido em atividades de lazer (celular, tablets e computadores), avaliado pela questão “Em um dia, quantas horas do seu tempo livre (excluindo o trabalho), o(a) sr.(a) costuma usar computador, tablet ou celular para lazer, tais como: utilizar redes sociais, para ver notícias, vídeos, jogar etc.?”; e (3) comportamento sedentário total (somatório do tempo assistindo à televisão e em atividades de lazer). As opções de respostas incluíam: (1) 1-2 horas; (2) 2-3 horas; (3) 3-6 horas; (4) > 6 horas; e (5) não realiza. A partir das respostas, as variáveis foram recategorizadas em: < 3 horas; 3-6 horas; e > 6 horas por dia 27. Assistir à televisão e realizar atividades de lazer na posição de pé não foram consideradas como comportamento sedentário devido ao gasto energético ser aproximadamente de 2 a 4 equivalentes metabólicos 28.

Desfecho do estudo

O desfecho foi o histórico de problemas no sono autorrelatado, avaliado por meio do questionamento: “Nas últimas duas semanas, com que frequência o (a) sr.(a) teve problemas no sono, como dificuldade para adormecer, acordar frequentemente à noite ou dormir mais do que de costume?”. As opções de resposta foram: (1) nenhum dia; (2) menos da metade dos dias; (3) mais da metade dos dias; e (4) quase todos os dias. Essas questões foram categorizadas em: (1) sem histórico de problemas de sono (opção de resposta 1); e (2) com problemas de sono (incluíram as opções de respostas 2, 3 e 4). O termo histórico de problemas de sono engloba distúrbios como a insônia 7, que pode ser derivada de fatores predisponentes, precipitantes ou de perpetuação e interferir diretamente na qualidade de vida do idoso 7.

Variáveis de ajuste

As variáveis de ajustes foram: sexo (feminino, masculino) 29; faixa etária (60-69, 70-79 e 80 anos ou mais); escolaridade 30 (sem escolaridade formal, 1-4 anos, 5-8 anos, 9-11 anos e 12 ou mais anos); multimorbidade, considerando-se a presença de duas ou mais condições clínicas autorrelatadas 31 (hipertensão arterial sistêmica, diabetes, hipercolesterolemia, doenças cardíacas, acidente vascular encefálico, asma ou bronquite crônica, artrite ou reumatismo, problemas na coluna distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho, depressão, doença mental, doença pulmonar, câncer, insuficiência renal crônica, doença crônica - física ou mental - ou doença de longa duração - mais de 6 meses de duração); renda 32, avaliada por meio da variável F001011 da PNS 2019: Em (mês da pesquisa) recebia normalmente rendimento de aposentadoria ou pensão de instituto de previdência federal (Instituto Nacional de Seguro Social - INSS), estadual, municipal, ou do governo federal, estadual, municipal? Resposta sim ou não; e prática de exercício físico 33, avaliada por meio do questionamento: “Nos últimos três meses, o(a) sr.(a) praticou algum tipo de exercício físico ou esporte?”, sendo as opções de resposta (1) não e (2) sim.

Análise dos dados

Foi utilizado o programa estatístico Stata, versão 15.0 (https://www.stata.com). Todas as análises consideraram o efeito do desenho do estudo, incorporando-se os pesos amostrais por meio do comando svy. Foram realizadas análises descritivas para todas as variáveis, com cálculo das prevalências e respectivos IC95%. Para testar as associações entre o comportamento sedentário e histórico de problemas do sono, foram realizadas análises de regressão logística multivariável, estimando-se as odds ratio (OR) brutas e ajustadas e seus respectivos IC95%.

Resultados

Foram analisados dados de 43.554 idosos, sendo a amostra composta predominantemente por mulheres (55,9%) e faixa etária entre 60-69 anos (55,6%) Tabela 1. A maioria dos idosos que relatou histórico de problemas no sono era do sexo feminino (48,7%; IC95%: 47,8; 49,7), acima de 80 anos (43%; IC95%: 41,0; 44,9), sem escolaridade (44,3%; IC95%: 42,8; 45,7), com multimorbidade (51,3%; IC95%: 50,4; 52,3). Além disso, quase metade dos idosos que relataram problemas no sono passava mais de 6 horas em comportamento sedentário na televisão (47,2%; IC95%: 44,9; 49,5), no lazer (45,3%; IC95%: 40,2; 50,4) e em ambos (45,8%; IC95%: 43,8; 47,8) Tabela 1. A prevalência de presença de problemas no sono foi de 36,1% (IC95%: 35,7; 36,5), sendo que a maioria dos idosos comunitários não apresentou problemas no sono (63,8%; IC95%: 63,4; 64,2).

 

 

Tab.: 1
Tabela 1 Comportamento sedentário, características sociodemográficas e de estilo de vida dos idosos brasileiros conforme o histórico de problemas no sono. Pesquisa Nacional de Saúde, Brasil, 2019.

 

A associação entre o comportamento sedentário e problemas no sono está descrita na Tabela 2. Idosos que permaneceram tempo superior a 6 horas por dia em comportamento sedentário assistindo à televisão apresentaram 13% (OR = 1,13; IC95%: 1,02; 1,26) maiores probabilidades em terem problemas de sono em comparação aos que despenderam tempo inferior a 3 horas por dia nesse mesmo comportamento, considerando o ajuste para sexo, faixa etária, renda, escolaridade, multimorbidade e exercício físico.

 

 

Tab.: 2
Tabela 2 Análises bruta e ajustada entre o comportamento sedentário e histórico de problemas no sono em idosos brasileiros. Pesquisa Nacional de Saúde, Brasil, 2019.

 

Maiores chances de ter problemas de sono também foram observadas no modelo ajustado para os idosos que permaneciam entre 3-6 horas por dia (OR = 1,13; IC95%: 1,04; 1,22) e > 6 horas por dia (OR = 1,11; IC95%: 1,01; 1,23) em comportamento sedentário total (televisão + lazer), em comparação aos que permaneciam até 3 horas por dia no mesmo comportamento. O tempo de comportamento sedentário despendido em atividades de lazer não foi associado significativamente com a presença de problemas de sono.

Discussão

Os principais achados deste estudo mostraram que os idosos que permaneciam por tempo superior a 6 horas/dia em comportamento sedentário assistindo à televisão e tempos superiores a 3-6 horas/dia em comportamento sedentário total tiveram maiores chances de apresentarem histórico de problemas no sono em comparação aos idosos que passavam até 3 horas por dia nos mesmos comportamentos. O comportamento sedentário despendido em atividades de lazer não se mostrou associado ao histórico de problemas no sono.

Neste estudo, a prevalência do histórico de problemas no sono foi de 45,8% em idosos que permaneceram tempo superior a 6 horas em comportamento sedentário total. Este achado corrobora o estudo de Pengpid & Peltzer 34, no qual 40% dos idosos sul-africanos que permaneciam por tempo superior a 8 horas em comportamento sedentário total apresentaram histórico de problemas no sono. Atualmente, sabe-se que o tempo despendido em comportamento sedentário total pode influenciar no ritmo circadiano e acarretar problemas no sono, como pior qualidade e menor duração do sono 35.

Referente ao comportamento sedentário na televisão e histórico de problemas no sono, os achados deste estudo demonstraram que maiores tempo em comportamento sedentário assistindo à televisão aumentaram as chances de os idosos terem problemas no sono. Dados concordantes foram observados por Gajardo et al. 3, nos quais verificaram que 28,9% de adultos e idosos brasileiros que despenderam maiores tempos em comportamento sedentário na televisão apresentaram histórico de problemas no sono (OR = 1,22; IC95%: 1,10; 1,35). Resultados semelhantes foram observados por Madden et al. 17, os quais avaliaram a qualidade do sono e o comportamento sedentário com o uso de um acelerômetro e destacaram que permanecer em comportamento sedentário assistindo à televisão reduziu em aproximadamente 5% a qualidade do sono em idosos comunitários canadenses. A associação entre comportamento sedentário assistindo à televisão e alterações no sono pode ocorrer, pois a exposição à luz da tela (televisão) parece inibir a glândula pineal na produção de melatonina sérica 36, influenciando diretamente no relógio biológico humano e aumentando, consequentemente, a prevalência de problemas de sono 37. Além disso, a posição reclinada adotada para assistir à televisão acentua a hipocinesia e hipodinâmica (perda de força e potência muscular), levando a modificações no ritmo circadiano e sistema endócrino, ocasionando mudanças no ciclo de sono 38.

Foi observado que o tempo de comportamento sedentário despendido em atividades de lazer não foi associado à presença de problemas de sono. Esses achados são similares aos observados na revisão sistemática de Yang et al. 39, nos quais o comportamento sedentário de lazer não esteve associado ao histórico de problemas no sono. Acredita-se que a luz branca das telas de computador compreende toda a gama de luz de comprimento de onda curto (azul) e longo (vermelha), as quais não parecem suprimir a produção de melatonina se utilizadas durante o dia 40. Ademais, Compernolle et al. 20 descreveram que o comportamento sedentário de lazer pode demonstrar efeitos positivos em desfechos de saúde, tais como menor índice de massa corporal, maior força de preensão e melhor qualidade de vida. Estes achados foram relacionados ao comportamento sedentário na televisão acarretar hábitos não saudáveis, como consumo de alimentos e bebidas hipercalóricos e a diferença na postura ou tensão muscular durante o comportamento sedentário na televisão e de lazer 20,41. Acredita-se que no comportamento sedentário de lazer, devido ao uso de dispositivos móveis, haja o mesmo gasto energético de exercícios leves, pois, durante este período, o indivíduo pode se mover e levantar-se com mais frequência do que quando está assistindo à televisão 41. Além disso, sabe-se que o comportamento sedentário na televisão, por si só, está associado a doenças cardiovasculares, síndrome metabólica e diabetes mellitus 2, uma vez que o comportamento sedentário diminui a sensibilidade à insulina 42.

Para os idosos, a implementação de tecnologias apresenta-se como uma solução para melhorar a sociabilidade, pois reduz a solidão 43, promove melhora da função cognitiva 44 e manejo da demência 45. Acredita-se também que o tempo despendido em comportamento sedentário de lazer seja inferior ao tempo despendido em comportamento sedentário na televisão e, por isso, não esteja associado a desfechos negativos em saúde 39. Em relação ao tempo despendido em comportamento sedentário de lazer, a recomendação para uso de telas é de cerca de duas horas diárias 46 e 95% da amostra do presente estudo ficou dentro faixa de < 3 horas.

O conhecimento da associação entre o comportamento sedentário e problemas no sono pode auxiliar na implementação de estratégias para redução do comportamento sedentário, com destaque para a necessidade de diminuir o tempo despendido assistindo à televisão, sobretudo para a população idosa, uma vez que a prevalência de histórico de problemas no sono pode aumentar nos próximos anos devido à pandemia de COVID-19. Em relação às limitações, destaca-se o fato de as variáveis serem coletadas por meio de autorrelato, podendo ter interferência da condição física e emocional do idoso no momento da coleta. Salienta-se também que as perguntas utilizadas para triagem dos desfechos não especificam a postura que o indivíduo assiste à televisão ou realiza sua atividade de lazer, se na posição deitada, reclinada, sentada ou em pé. Neste estudo, assumiu-se que os dispositivos estivessem sendo utilizados, em sua maioria do tempo, na posição sentada, deitada ou reclinada. Outra limitação do estudo diz respeito ao caráter transversal, que, apesar de se tratar de uma metodologia amplamente empregada em estudos populacionais, não nos permite afirmar a existência da relação de causa e efeito entre comportamento sedentário e problemas de sono. Além disso, destaca-se que a tipologia levando em consideração o tempo sentado para refeições, transporte, socialização e ler não foi avaliado pela PNS, o que impossibilitou inserir nas análises deste estudo.

Conclusão

Os idosos amostrados que relataram permanecer por períodos superiores a 6 horas por dia em comportamento sedentário assistindo à televisão e > 3 horas em comportamento sedentário total tiveram maiores chances de ter problemas no sono. Estes achados podem contribuir com o fortalecimento na necessidade de redução no comportamento sedentário em idosos.

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