Portal ENSP - Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca Portal FIOCRUZ - Fundação Oswaldo Cruz

Cadernos de Saúde Pública

ISSN 1678-4464

38 nº.1

Rio de Janeiro, Janeiro 2022


RESENHA

Reflexividades e identidades

Martinho Braga Batista e Silva

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00284221


  • Artigo
  • Autores
  • Comentários (0)
  • Informações Suplementares





REFLEXIVIDADE NA PESQUISA ANTROPOLÓGICA EM SAÚDE: DESAFIOS E CONTRIBUIÇÕES PARA A FORMAÇÃO DE NOVOS PESQUISADORES. Ferreira J, Brandão ER, organizadoras. Brasília: Editora UnB; 2021. 288 p. ISBN: 978-65-5846-007-7. 

 

Não é a primeira vez que as organizadoras da coletânea contribuem para a área de saúde coletiva, já que as professoras do Instituto de Estudos de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IESC/UFRJ) também foram coautoras, autoras e/ou organizadoras de outra coletânea fundamental para a formação do que chamam “profissionais de saúde que são convertidos em pesquisadores e que retornam ao exercício da profissão1 (p. 33). Há oito anos, foi publicada a coletânea intitulada Etnografias em Serviços de Saúde2 (p. 28), apresentando estudos que “ao esmiuçarem as vicissitudes, limites e práticas das políticas de saúde podem provocar inquietação ou até resistência nos leitores, sobretudo aqueles vindos dos serviços”. A coletânea de 2014 destaca os cenários, os atores, as linguagens e as identidades em jogo nessas etnografias no/do/com o Sistema Único de Saúde (SUS), ou seja, as instituições nas quais as pesquisas são conduzidas, sejam elas consideradas consolidadas ou inusitadas, respectivamente hospitais e farmácias; as pessoas que se tornaram interlocutoras das pesquisadoras ao longo das investigações, sejam elas usuários ou equipes de unidades; as expressões acionadas em disputas políticas, como é o caso de parto humanizado; e, finalmente, as etnógrafas em cena, sejam elas vistas como estagiárias pelos interlocutores ou assumindo o papel de usuárias dos serviços em que realizam a pesquisa. Este último destaque da coletânea de 2014 atravessa a de 2021.

Há nove capítulos distribuídos em duas partes na coletânea, a primeira composta de traduções e a segunda principalmente de reflexões de professoras e alunas do IESC/UFRJ. No terceiro capítulo da coletânea, as três autoras abordam a emergência de emoções ao longo do trabalho de campo em hospitais, tais como a indignação e o constrangimento, em situações nas quais “o pesquisador seja profissional de saúde, com formação e com conhecimentos técnicos em determinada área da saúde, de modo a configurar uma dupla identidade1 (p. 100). Elas narram interações entre os integrantes das equipes - e com eles - marcadas por hierarquia, impaciência e instrumentalização, de maneira que, nesses cenários, uma das pesquisadoras é convocada a abrir pacotes de luvas e opinar sobre a dosagem de um medicamento, sendo que ela é médica e, assim é identificada pelos integrantes, também em grande parte médicos. Esse cenário consolidado, o hospital, também é a instituição na qual a reflexividade é tomada como desafio em mais da metade dos capítulos da coletânea.

Desintoxicação, desculpabilização, desmoralização, decadência e desabafo são as expressões que percorrem o capítulo seguinte, um ensaio cujo cenário é a unidade de alcoolismo de um hospital psiquiátrico, no qual também emergem emoções, como a vergonha, embora os/as interlocutores/as sejam usuários/as, e não profissionais. Apontada como estagiária, doutora, psicóloga e amiga, a autora foi residente em saúde mental no estabelecimento, destacando assim o modo como as pesquisadoras são identificadas pelos seus interlocutores enquanto conduzem as etnografias em serviços de saúde.

As autoras pretendem “estudar um tema de saúde (vacinas), dentro de um lugar efervescente (escola), com interlocutoras intensas (adolescentes), tendo que administrar um familiar presente (mãe) e estar acompanhada não apenas por um caderno de campo, mas de uma câmera fotográfica1 (p. 150, grifo meu), no quinto capítulo. Já não é mais a identidade profissional (médica, psicóloga) que aponta no horizonte reflexivo desse fazer etnográfico, já que uma das autoras foi percebida, tolerada e acomodada pelas alunas principalmente como filha da professora, ela “não se tornou tia, como geralmente são chamadas as pessoas que trabalham com crianças e jovens, mas uma amiga, a qual abraçavam1 (p. 161).

Nem parente nem profissional, o autor do sexto capítulo era “equiparado a um homem jovem heterossexual de sucesso” nas academias de ginástica em que exercitou a observação participante, ao mesmo tempo em que suas reações às investidas sexuais de uma aluna fizeram que alunos e professores colocassem em dúvida sua “masculinidade”, ainda, segundo ele “com muitas referências jocosas à possibilidade de eu ser gay1 (p. 190-1). O autor também é professor de educação física e coloca no centro do fazer etnográfico a identidade sexual e de gênero.

A autora do sétimo capítulo foi confundida com as adolescentes que frequentavam a unidade docente-assistencial em que realizou sua etnografia, um hospital universitário, de maneira que sua “aparência jovial provocou reações de identificação1 (p. 225). Além de evocar uma empatia geracional e uma posição de gênero que facilitavam tais reações, a nutricionista foi identificada como igual pelas usuárias do programa de transtornos alimentares e convidada para conversar pelas mães delas, oscilando entre a raiva e a admiração para com uma pediatra, de maneira que seu trabalho de campo releva um trânsito possível entre pacientes, parentes e profissionais.

A etnografia multissituada, desenvolvida em ambulatórios de dermatologia e outros estabelecimentos de saúde, foi conduzida com informantes que a autora conhecia “de vista, por termos amigos da área acadêmica em comum1 (p. 240). Ainda assim, a psicóloga por vezes foi recebida com desconfiança, sua formação tendo sido confundida com serviço social e ela mesma tendo sido incluída no grupo dos estudantes justamente “por ser ‘a pesquisadora em hanseníase'1 (p. 244).

No nono capítulo, as autoras também apresentam um cenário cercado de desconfianças e suspeitas, já que uma delas viveu provas de lealdade e teve acesso a documentos sigilosos enquanto frequentava reuniões e visitas em companhia de representantes das comunidades terapêuticas. A dupla posição da etnógrafa também a tornou alguém que colaborava na comunicação entre mundos diferentes para o estabelecimento de ações de políticas públicas, envolvendo certa “diluição entre relações de pesquisa, voluntariado, amizade1 (p. 270). Adquirir identidades ao longo do trabalho de campo alcança um espaço relevante nesse “voluntariado de dentro, ao lado e de fora1 (p. 278) de federações, conselhos e secretarias.

Essas e outras modalidades de etnografar estabelecimentos apontam para a relevância das duas traduções que compõem a primeira parte da coletânea, pois “trabalhamos com pessoas que podem estar tanto em uma posição de vulnerabilidade, como em uma posição de dominância1 (p. 67), seja em comunidades terapêuticas, hospitais ou escolas. Além disso, se uma das autoras traduzidas compreende as práticas de cuidado ao mesmo tempo “como relação social, como construção social, como forma de vínculo social, como conjunto de comportamentos ritualizados e de gestos portadores de símbolos1 (p. 88), por que não poderíamos fazê-lo nos ambulatórios, academias e demais serviços de saúde percorridos pelas/os demais autoras/es da coletânea?

Se “em estudos na área de saúde coletiva, é frequente que o pesquisador seja um profissional de saúde que atua na mesma instituição em que empreende a observação e as entrevistas1 (p. 102) temos situações nas quais a entrada nessa área se dá pelo fato de que a pesquisadora é parente de um paciente, entre muitas outras formas pelas quais as/os pesquisadoras/es foram identificadas/os pelas/os suas/seus interlocutoras/es, essa diversidade tendo sido possível principalmente pelo fato de que estavam alertas para esse elemento apontado pelas organizadoras, prefaciadoras e autoras das orelhas de livro e contracapas como indispensável, inerente, imprescindível, inevitável, essencial e constante no/do fazer antropológico em saúde coletiva: a reflexividade.

Referências

1.   Ferreira J , Brandão ER , organizadoras. Reflexividade na pesquisa antropológica em saúde: desafios e contribuições para a formação de novos pesquisadores. Brasília: Editora UnB; 2021.
2.   Ferreira J , Fleischer S, organizadoras. Etnografias em serviços de saúde. Rio de Janeiro: Garamond; 2014.

CreativeCommons
Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons

 


Cadernos de Saúde Pública | Reports in Public Health

Rua Leopoldo Bulhões 1480 - Rio de Janeiro RJ 21041-210 Brasil

Secretaria Editorial +55 21 2598-2511.
cadernos@fiocruz.br

  • APOIO:

©2015 | Cadernos de Saúde Pública - Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca | Fundação Oswaldo Cruz. - Ministério da Saúde Governo Federal | Desenvolvido por Riocom Design