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Cadernos de Saúde Pública

ISSN 1678-4464

38 nº.1

Rio de Janeiro, Janeiro 2022


ARTIGO

Mortalidade perinatal no Brasil em 2018: análise epidemiológica segundo a classificação de Wiggleworth modificada

Aglaer Alves da Nobrega, Yluska Myrna Meneses Brandão e Mendes, Marina Jorge de Miranda, Augusto César Cardoso dos Santos, Andréa de Paula Lobo, Denise Lopes Porto, Giovanny Vinícius Araújo de França

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00003121


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RESUMO
A mortalidade perinatal engloba a mortalidade fetal e a neonatal precoce (0 a 6 dias). Este estudo descreveu os óbitos perinatais ocorridos no Brasil em 2018, segundo a classificação de Wigglesworth modificada. As fontes de dados foram os Sistemas de Informações sobre Mortalidade e sobre Nascidos Vivos. Foram calculadas as taxas de mortalidade fetal e perinatal por mil nascimentos totais (nascidos vivos mais natimortos) e a taxa de mortalidade neonatal precoce por mil nascidos vivos, e comparadas usando seus respectivos intervalos de 95% de confiança (IC95%). Os óbitos perinatais foram classificados nos grupos de causas anteparto, anomalias congênitas, prematuridade, asfixia e causas específicas. Foi calculado, para cada grupo de causas, o número de óbitos por faixa de peso, além das taxas de mortalidade e os respectivos IC95%, e feita a distribuição espacial das taxas de mortalidade por Unidade da Federação (UF). Foram registrados 35.857 óbitos infantis, sendo 18.866 (52,6%) neonatais precoces; os natimortos somaram 27.009. Os óbitos perinatais totalizaram 45.875, perfazendo uma taxa de mortalidade de 15,5‰ nascimentos. A maior taxa de mortalidade (7,6‰; 7,5‰-7,7‰) foi observada no grupo anteparto, seguido da prematuridade (3,6‰; 3,6‰-3,7‰). No grupo anteparto, 14 das 27 UFs (sendo oito na Região Nordeste e quatro na Região Norte) apresentaram as taxas de mortalidade perinatal acima da nacional. A taxa de mortalidade perinatal no Brasil mostrou-se elevada, e a maioria dos óbitos poderia ser prevenida com investimento em cuidados pré-natais e ao nascimento.

Mortalidade Perinatal; Óbito Fetal; Morte Neonatal


 

Introdução

A mortalidade perinatal é compreendida como os óbitos ocorridos entre a 22ª semana de gestação e o sexto dia completo de vida após o nascimento. Ou seja, engloba a mortalidade fetal e a neonatal precoce (0 a 6 dias) 1. A análise conjunta dessas mortalidades é importante porque as causas de mortes fetais e neonatais precoces são similares e, frequentemente, relacionadas às condições do pré-natal, do parto e do recém-nascido. Assim, as intervenções que reduzem a natimortalidade e a mortalidade neonatal precoce também reduzem a mortalidade materna 2,3,4,5,6.

Os óbitos perinatais são eventos potencialmente evitáveis e refletem a qualidade da assistência prestada no pré-natal, no parto e nos primeiros dias de vida do recém-nascido 7,8. Com o declínio da mortalidade na infância, a mortalidade perinatal emergiu como um problema de saúde pública, sobretudo nos países de baixa e média renda 9. Apesar de observada uma redução de óbitos fetais no mundo, as mortes neste grupo, bem como a dos recém-nascidos, estão reduzindo mais lentamente que aquelas ocorridas em menores de cinco anos e mortes maternas 10.

Nesse contexto, ressalta-se que, globalmente, as mortes de recém-nascidos correspondem a 44% do total de óbitos de menores de cinco anos 10. Sobre os conceptos que nasceram mortos, estima-se que, em 2015, foram 2,6 milhões, podendo variar entre 2,4 e 3 milhões. Daquele total, 98% das mortes ocorreram em países de baixa e média renda, sendo 77% concentrados no sul da Ásia e na África Subsaariana 9.

No Brasil, a taxa de mortalidade infantil caiu 80,4% nas últimas décadas, passando de 71,3 por mil nascidos vivos, em 1982, a 14, em 2015. Já a mortalidade neonatal reduziu 63,4%, e passou de 33,4 para 8,2 por mil no mesmo período, uma redução 17% menor quando comparada à mortalidade infantil. Entre as mortes neonatais, o declínio foi mais lento na mortalidade neonatal precoce do que na mortalidade neonatal tardia (7 a 28 dias) 11. A taxa de mortalidade fetal passou de 8,19, em 1996, para 9,5/1.000 nascimentos, em 2015 e, desde 2000, apresenta um quadro estacionário no Brasil e em todas as regiões 12.

Dado o desafio que é reduzir a mortalidade perinatal 13, estudos nacionais sobre esse tema ainda se fazem necessários e podem ser úteis para evidenciar a qualidade dos serviços de saúde e sugerir medidas para reduzir os óbitos perinatais.

O objetivo desse estudo foi descrever e classificar os óbitos perinatais ocorridos no Brasil, segundo a classificação de Wigglesworth modificada, no ano de 2018.

Método

Foi realizado um estudo descritivo dos óbitos perinatais ocorridos no Brasil em 2018. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define óbito fetal como a morte de um produto da concepção, antes da expulsão ou da extração completa do corpo da mãe, independentemente da duração da gravidez. O óbito é constatado quando, após a separação, não houver respiração ou outro sinal de vida, como batimentos do coração, pulsação do cordão umbilical ou movimentos efetivos dos músculos de contração voluntária. O nascido vivo é o produto da expulsão ou extração completa do corpo da mãe, independentemente da duração da gestação, de um produto de concepção que, depois da separação, respire ou apresente qualquer sinal de vida como batimentos do coração, pulsação do cordão umbilical ou movimentos efetivos dos músculos de contração voluntária, estando ou não cortado o cordão umbilical e estando ou não desprendida a placenta 1.

Para o período perinatal, adotou-se a definição utilizada pelo Ministério da Saúde: inicia-se em 22 semanas completas de gestação e termina aos sete dias completos de vida. Desta forma, para o estudo, óbito perinatal é aquele ocorrido nesse período 14.

As fontes de dados foram os Sistemas de Informações sobre Mortalidade (SIM) e o Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC), sistemas oficiais de captação de óbitos e nascimentos vivos no Brasil, respectivamente 15. Os dados contidos em ambos os sistemas servem de base para o cálculo de importantes indicadores de saúde nos níveis federal, estadual e municipal.

O SIM, implantado em 1975, tem como documento base e padronizado para captação de dados sobre óbito em todo o país a Declaração de Óbito (DO) 15. Em 2018, apresentava uma cobertura nacional de 95,8%, variando entre 89,1% e 100% nas Unidades de Federação (UFs). A cobertura nacional para o óbito infantil, em 2018, foi de 91,1%, variando de 78,2% a 100% 16.

A implantação do SINASC nas UFs ocorreu no início de 1990, de forma gradual. O registro dos dados sobre nascimentos se dá por meio da Declaração de Nascido Vivo (DNV) 17. Em 2018, o sistema apresentava uma cobertura nacional de 97,6%, variando entre 91% e 100% nas UFs 16.

As taxas de mortalidade fetal e perinatal por mil nascimentos totais (nascidos vivos mais óbito fetal) e a taxa de mortalidade neonatal precoce por mil nascidos vivos foram calculadas pelo método direto e comparadas usando seus respectivos intervalos de 95% de confiança (IC95%). Para o cálculo da taxa de mortalidade fetal foi somado ao numerador e ao denominador o número de óbitos fetais com idade gestacional ignorada ou não preenchida 14,18. Assim, dos 27.009 óbitos fetais ocorridos em 2018, estavam com idade gestacional ignorada 2.338 (8,7%).

As variáveis analisadas foram sexo (masculino e feminino); peso ao nascer, em gramas (< 500; 500-999, 1.000-1.499, 1.500-2.499, 2.500 ou mais); idade materna, em anos (< 20, 20-34, ≥ 35); escolaridade materna, em anos de estudo (0-3, 4-7, 8-11, 12 ou mais); idade gestacional, em semanas (< 22; 22-27, 28-31, 32-36, 37-41, 42 ou mais); tipo de gravidez (única, múltipla) e tipo de parto (vaginal, cesáreo). Os nascimentos vivos com peso inferior a 500g e idade gestacional inferior a 22 semanas foram incluídos apenas no cálculo da mortalidade neonatal precoce.

Os óbitos perinatais foram agrupados, segundo a classificação de Wigglesworth 19 modificada por Keeling et al. 20, em cinco grupos de causas excludentes: anteparto, anomalias congênitas, prematuridade, asfixia e causas específicas. Essa classificação é baseada em grupos com implicações claras para o manejo clínico Quadro 1 19,20.

 

 

Quadro 1 Grupos de causas de óbito perinatal, segundo classificação de Wigglesworth modificada 20.

 

O grupo anteparto foi composto por todos os óbitos fetais ocorridos antes do trabalho de parto. Para o grupo de anomalias congênitas, foram consideradas como malformação letal ou potencialmente letal aquelas descritas por Wilkinson et al. 21 (Q00-Q01, Q03, Q04.2-Q04.3, Q04.9, Q05,Q20-Q28, Q33.6, Q60.1-Q60.2, Q60.6, Q61.0-Q61.4, Q61.9, Q77.1,Q78.0, Q79.0,Q79.2-Q79.3, Q87.2, Q89.4, Q89.7-Q89.9, Q91, Q92.7). No grupo de prematuridade, foram incluídos os nascidos vivos com menos de 37 semanas de gestação e todos os nascidos vivos com peso ao nascer menor que 1.000g. Para avaliar trauma de parto e asfixia, foram incluídas as causas básicas do capítulo XVI da Classificação Internacional de Doenças - 10ª revisão (CID-10) 1, classificando o traumatismo de parto de P10 a P15; a asfixia, a hipóxia intrauterina (P20) e a asfixia ao nascer (P21). As causas específicas incluíram óbitos por sífilis, toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus, vírus herpes simplex (STORCH), óbitos neonatais precoces, com 1.000g ou mais de peso e que foram a óbito com 4h ou mais após o nascimento e com 37 ou mais semanas de gestação. As causas básicas finais do óbito, confirmadas após investigação 22, foram informadas por meio de códigos da CID-10 1.

No estudo de Keeling et al. 20, utilizado como referencial teórico, os pesquisadores usaram dados de prontuários, clínicos, resultados de necropsias macroscópicas, histológicas, dentre outros. Todavia, de posse desses resultados, eles propuseram uma árvore de decisão, cujos pontos colocados são captados pelo SIM. Desta forma, foi possível aplicar a referida classificação e realizar as análises para o conjunto dos óbitos perinatais ocorridos no Brasil em 2018 por meio das variáveis do SIM. Da mesma forma, essa análise pode ser reproduzida com os dados estaduais, municipais e das regiões de saúde.

Foram calculadas, pelo método direto, as taxas de mortalidade por mil e os respectivos IC95%, bem como o número de óbitos segundo a faixa de peso em cada grupo de causas. Os cálculos foram realizados pelo Microsoft Excel (https://products.office.com/). Para o cálculo das taxas, procedeu-se da seguinte forma nos grupos de causas de óbito:

(1) Anteparto: óbitos no anteparto divididos pela soma dos óbitos no anteparto com o total de nascidos vivos, multiplicado por mil;

(2) Anomalias congênitas: óbitos por anomalias divididos pela soma dos óbitos por anomalias com o total de nascidos vivos, multiplicado por mil;

(3) Prematuridade: óbitos por prematuridade (nascido vivo < 1.000g e < 37 semanas de gestação) divididos pela soma dos óbitos por prematuridade com o total de nascidos vivos, multiplicado por mil;

(4) Asfixia: óbitos por asfixia (intraparto + trauma + < 4h de vida) divididos pela soma dos óbitos por asfixia com o total de nascidos vivos, multiplicado por mil;

(5) Causas específicas: óbitos por causas específicas (STORCH + > 37 semanas de gestação), divididos pela soma dos óbitos por causas específicas com o total de nascidos vivos, multiplicado por mil.

Além disso, foi realizada a distribuição espacial das taxas de mortalidade entre as UFs, por cada grupo de causa, por UF. O software utilizado foi QGis, versão 2.18 (https://qgis.org/en/site/).

Os dados utilizados no estudo foram de bases secundárias e não nominais, disponibilizadas pelo Departamento de Análise em Saúde e Doenças não Transmissíveis da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde. Dessa forma, encontram-se em conformidade com o Decreto nº 7.724/201223 e com a Resolução nº 510/201624, que dispõem sobre o acesso a informações e sobre as normas aplicáveis a pesquisas, respectivamente.

Resultados

Em 2018, foram registrados 35.857 óbitos infantis: 18.866 (52,6%) neonatais precoces; os óbitos fetais somaram 27.009, representando 58,9% dos óbitos perinatais. Assim, os óbitos perinatais totalizaram 45.875, perfazendo uma taxa de mortalidade de 15,5‰ nascimentos totais Tabela 1.

 

 

Tab.: 1
Tabela 1 Número de óbitos e taxa de mortalidade fetal, neonatal precoce e perinatal. Brasil, 2018.

 

As maiores taxas de mortalidade perinatal, a cada mil nascimentos, foram observadas nos óbitos do sexo masculino (16,2‰; 16‰-16,4‰) e de peso entre 500g e 999g (602,4‰; 595,7‰-609‰). As mães com idade maior que 34 e menor que 20 anos apresentaram as maiores taxas sendo, respectivamente, 17,7‰ (17,3‰-18‰) e 16,4‰ (16‰-16,7‰) nascimentos. A maior taxa (50,6‰; 48,9‰-52,2‰) foi registrada entre os conceptos das mulheres com baixa escolaridade Tabela 1.

Os óbitos perinatais ocorridos entre a 32ª e 36ª semanas de gestação mostraram uma taxa de mortalidade, por mil nascimentos totais, quase nove vezes maior que aquela observada no período gestacional seguinte. A gravidez múltipla (51,9‰; 50,2‰-53,6‰) e o parto vaginal (20,5‰; 20,3‰-20,8‰) também apresentaram as maiores taxas Tabela 1.

Quando os óbitos perinatais foram distribuídos seguindo a classificação de Wigglesworth modificada 20, a maioria (22.667; 51,8%) ocorreu antes do parto e tinham menos de 1.000g; e 4.714 (10,8%) eram portadores de anomalia congênita letal ou potencialmente letal Figura 1. A prematuridade totalizou 10.704 (24,5%), asfixia, 3.281 (7,5%) e as causas especificas, 2.384 (5,4%). Dos 558 registros de STORCH, 551 (98,7%) foram por sífilis congênita.

 

 

Figura 1 Distribuição dos óbitos perinatais * segundo classificação de Wigglesworth modificada 20. Brasil, 2018.

 

A maior taxa de mortalidade por grupos de causas de óbito foi observada no grupo anteparto (7,6‰; 7,5‰-7,7‰), seguido da prematuridade (3,6‰; 3,6‰-3,7‰), das anomalias congênitas (1,6‰; 1,6‰-1,6‰), asfixia (0,8‰; 1,1‰-1,2‰) e causas especificas (0,8‰; 0,8‰-0,8‰).

No grupo anteparto, a maioria dos óbitos (15.995; 74,2%) apresentou 1.000g de peso ou mais Tabela 2. Desse total, 91,5% estavam com 28 ou mais semanas de gestação. Dos 6.355 óbitos ocorridos antes do parto e que estavam com 2.500g de peso ou mais, a maioria (4.343; 68,3%) estava entre a 37ª e 41ª semana de gestação.

 

 

Tab.: 2
Tabela 2 Óbitos perinatais por faixa de peso *, segundo classificação de Wigglesworth modificada 20. Brasil, 2018.

 

No grupo das anomalias congênitas, 3.656 (81,9%), estavam pesando 1.000g ou mais Tabela 2 e 92,9% estavam com 28 ou mais semanas de gestação. O grupo de causas prematuridade (3.177; 29,9%), asfixia (2.593; 89,9%) e causa específica (2.086; 95,6%) estava com 1.000g de peso ou mais Tabela 2.

Quando a taxa de mortalidade perinatal, por mil nascimentos totais, foi analisada segundo UF, observou-se que, no grupo anteparto, 14 das 27 apresentaram taxas acima da nacional. Destas, oito estiveram na Região Nordeste e quatro na Região Norte. Piauí (10,7‰), Bahia (10,6‰), Maranhão (10,6‰) e Amapá (10,2‰) apresentaram as maiores taxas. A taxa do Piauí foi o dobro da observada no Paraná, a menor Figura 2a). No grupo de anomalias congênitas, a maior taxa foi em Roraima (2,2‰), seguida de Rondônia, Tocantins, Sergipe e Distrito Federal, com 2,1‰ cada Figura 2b). Com relação à prematuridade, destacaram-se Amapá (7,1‰), Sergipe (5,8‰) e Bahia (4,9‰) Figura 2c). No grupo de asfixia, o Acre (2,4‰) apresentou uma taxa quatro vezes maior que o Distrito Federal (0,6‰), Bahia (1,9‰) e Amazonas (1,9‰) Figura 2d). Nas causas específicas, destacaram-se Roraima (2,7‰), Acre (1,8‰) e Rio de Janeiro (1,7‰) Figura 2e).

 

 

Figura 2 Distribuição espacial da taxa de mortalidade perinatal por grupos de causas e Unidade da Federação, segundo classificação de Wigglesworth modificada 20. Brasil, 2018.

 

Discussão

Os resultados apontam que no Brasil, em 2018, a taxa de mortalidade perinatal foi de 15,5‰ nascimentos totais e os óbitos neonatais precoces representaram a maioria dos óbitos infantis, menos, no entanto, da metade dos óbitos perinatais. A taxa de mortalidade no grupo anteparto foi o dobro da observada no grupo de prematuridade e quase cinco vezes maior que a registrada nas anomalias congênitas.

A maioria dos óbitos ocorridos no período anteparto foi de fetos com 1.000g ou mais de peso e, dentre estes, a quase totalidade apresentou mais de 28 semanas de gestação. A mortalidade perinatal vem sendo discutida há bastante tempo como um indicador de resultado dos cuidados pré-natais e das condições maternas durante a gestação 7,25. Por isso, faz-se necessário concentrar esforços na díade mãe-bebê ao investir em cuidados pré-natais para reduzir a mortalidade perinatal, visto que melhoras nos padrões de atendimento e do acesso a esses cuidados podem reduzir a mortalidade.

O grupo das anomalias congênitas apresentou a terceira maior taxa de mortalidade, segundo a classificação adotada. A seleção deste grupo foi feita considerando-se as malformações letais ou potencialmente letais descritas na literatura. Existem várias maneiras diferentes de interpretar, teoricamente, uma condição perinatal como sendo letal. Porém, raras anomalias mais comumente descritas como letais são realmente letais no sentido estrito. A sobrevida prolongada foi descrita em todas as condições listadas, com exceção da agenesia renal bilateral. Todavia, mesmo nessa condição, a sobrevivência seria concebível com suporte intensivo 21. Por isso, é primordial assegurar o acesso ao diagnóstico, ainda no período gestacional, bem como a terapia para as lesões potencialmente tratáveis.

A prematuridade configura-se como o grupo composto por recém-nascidos com idade gestacional menor que 37 semanas e aqueles com peso inferior a 1.000g. As maiores taxas de mortalidade neonatal precoce foram registradas nos grupos de extremo baixo peso (< 1.000g) e até 27 semanas de gestação (pré-termo extremo). Estudos mostram a gravidez gemelar, antecedente de parto prematuro, a presença de sangramento, pressão arterial alta, infecção do trato genital, diabetes, pré-eclampsia/eclampsia, pré-natal inadequado e ausente como fatores de risco para a ocorrência de prematuridade 26,27. Esses achados apontam que, para evitar a ocorrência desses óbitos, é preciso centrar esforços em dois momentos distintos: nos cuidados com a mulher por meio dos manejos pré-natal e obstétricos adequados e, posteriormente ao nascimento, no atendimento neonatal. Com o progresso contínuo nos cuidados perinatais, o limite da viabilidade humana mudou para uma idade gestacional cada vez mais precoce 28, porém, a taxa de mortalidade nos nascidos extremamente prematuros ainda permanece alta. Por isso, faz-se necessário investir nos cuidados de saúde perinatais apropriados para o tratamento desse grupo.

No grupo asfixia, a quase totalidade dos óbitos estava com 1.000g ou mais de peso e, dentre esses, a maioria estava com 2.500g ou mais. A asfixia perinatal é reconhecida como uma medida sensível da qualidade da assistência prestada tanto à gestante quanto ao recém-nascido, visto que ela surge em decorrência da falta de oxigenação adequada fetal-neonatal no periparto, ao nascimento e nos primeiros minutos de vida 29. Desta forma, os óbitos por essa causa apresentam-se como potencialmente evitáveis por meio da assistência adequada, que assegure um diagnóstico e tratamento precoces no pré-natal, parto e ao nascimento.

A quase totalidade dos óbitos registrados no grupo de causas específicas foi devido à sífilis. Trata-se de uma infecção sexualmente transmissível, cujo tratamento com antibiótico, quando ofertado em tempo oportuno, pode assegurar a remissão completa da doença na mãe e impedir a transmissão vertical para o bebê, tornando, dessa forma, evitáveis os óbitos por essa causa 30. Desde 2005, os manuais de atenção qualificada e humanizada do Ministério da Saúde têm como critério fundamental para o acompanhamento do pré-natal a solicitação de vários exames, dentre eles, a sorologia para sífilis. Com diagnóstico confirmado, deve-se instituir o tratamento e o acompanhamento da gestante 31. Todavia, um estudo mostrou que, entre 2010 e 2015, ocorreu aumento nas taxas de incidência de sífilis congênita em crianças menores de um ano de idade e nas taxas de mortalidade infantil, natimortos e abortos espontâneos por sífilis. Esse estudo também apontou a correlação entre taxas de natimortos causadas por sífilis e assistência pré-natal inadequada 32.

A análise da taxa de mortalidade, segundo o grupo de causas, apontou grandes discrepâncias dos resultados entre as UFs. Essas diferenças podem refletir tanto as dificuldades no acesso aos serviços de saúde como as desigualdades socioeconômicas. Por exemplo, as menores taxas de mortalidade por anomalias congênitas registradas em alguns estados da Região Norte podem dever-se ao subdiagnóstico, causado provavelmente pela dificuldade de acesso a exames durante a gestação e após o parto. Outrossim, as anomalias costumam desapontar como causas importantes de óbito em lugares onde as demais causas de mortalidade infantil já foram controladas 33,34,35. Outro ponto a ser destacado é que o Norte e o Nordeste, regiões com as maiores taxas de mortalidade perinatal em todos os grupos, apresentam os mais baixos indicadores econômicos e de vulnerabilidade social do país 36. O fato de a maior taxa de mortalidade perinatal ser observada entre mulheres com baixa escolaridade fortalece essa hipótese.

Os dados analisados nesse estudo são de fontes secundárias e, por isso, impõem algumas limitações aos resultados. Estudos que avaliaram os dados do óbito fetal e não fetal no SIM mostraram que a qualidade variou de boa a excelente e vem aumentando ao longo do tempo 37,38. Assim, acredita-se que os valores ignorados excluídos das análises não alteraram, substancialmente, os resultados desse trabalho. Por outro lado, de acordo com estimativas indiretas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para o Brasil, em 2008, o SIM e o SINASC, ainda apresentam uma sub-enumeração para menores de um ano, limitando, dessa forma, o uso do cálculo direto para estimar a mortalidade. As menores coberturas ocorrem nas regiões Norte e Nordeste e alguns estados do Centro-oeste, seguindo o padrão de desigualdade socioeconômica 39. Sendo assim, os indicadores nessas regiões podem estar ainda piores, se considerada a provável subestimação dos dados.

A classificação de Wigglesworth modificada baseia-se em uma árvore de decisão, que vai gerando grupos específicos e excludentes ao longo das análises 20. Porém, os indivíduos que evoluíram a óbito, na sua complexidade, podem apresentar mais de uma afecção contribuinte, mas são classificados em apenas uma delas, o que indica que o valor da taxa é da afecção e não dos indivíduos. Mesmo assim, os resultados encontrados com a utilização desse método de análise são relevantes para apontar áreas prioritárias de cuidados de saúde e prevenção em saúde infantil.

O investimento em cuidados pré-natais e ao nascimento pode ter um impacto triplo na redução da mortalidade. Segundo a OMS, a alta cobertura de cuidados na época do nascimento e os cuidados com recém-nascidos pequenos e doentes salvariam quase três milhões de vidas (mulheres, recém-nascidos e fetos) a cada ano 10. Por isso, o tema da mortalidade perinatal precisa assumir um lugar proeminente na agenda atual das ações de saúde no Brasil, por meio do fortalecimento e aprimoramento das iniciativas existentes no país 40,41. Só assim será possível reduzir a ocorrência de tantos óbitos perinatais e alcançar a meta pactuada nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável tanto para mortalidade neonatal como para mortalidade materna 42,43.

Por fim, a classificação dos óbitos perinatais usada nesse trabalho forneceu informações relevantes para o planejamento de intervenções nos cuidados com a gestante e os recém-nascidos. Os resultados podem ajudar a definir as áreas a serem priorizadas, visando à redução da mortalidade perinatal e, de forma indireta, da materna.

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