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Cadernos de Saúde Pública

ISSN 1678-4464

37 nº.7

Rio de Janeiro, Julho 2021


EDITORIAL

Da publicação acadêmica à divulgação científica

Vinicius Mansur, Clara Guimarães, Marilia Sá Carvalho, Luciana Dias de Lima, Claudia Medina Coeli

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00140821


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A divulgação científica, enquanto campo de conhecimento e estratégia de ação, vem ganhando importância crescente no mundo. Isso ocorre, em parte, como resposta intuitiva dos cientistas aos movimentos anticiência, mas também e principalmente em virtude da compreensão dos interesses políticos e econômicos relacionados ao questionamento das evidências científicas. O neologismo “agnotologia” 1 propõe o estudo das políticas de produção da ignorância e das estratégias de estímulo ao anticientificismo, não como resultado da falta de informação, mas como criação intencional. Criam-se dúvidas sobre os consensos da ciência, baseadas em ditos “especialistas”, apoiadas em apenas um artigo publicado, financiado, possivelmente, pelos interessados em negar as evidências científicas 2. É o caso, por exemplo, do interesse da indústria do petróleo na negação do aquecimento global 3.

Nesse sentido, cientistas têm procurado sair dos debates centrados unicamente entre pares, para responderem à necessidade de tornar o conhecimento científico mais acessível. Não se trata apenas de falar com jornalistas e outros grupos e atores da sociedade, mas de enfrentar o dilema entre falar sob o risco de uma possível (e frequente) má interpretação; e de não falar e deixar de aproveitar a oportunidade de fortalecer os laços entre a ciência e os cidadãos.

Em CSP, passamos a encarar esses desafios com um trabalho profissional e regular de divulgação científica, desde agosto de 2018, contando com um jornalista por meio período e uma estagiária de Comunicação. Inicialmente, trabalhamos com foco nas redes sociais de CSP já existentes (Facebook: https://www.facebook.com/cadernosdesaudepublica/; Twitter: https://twitter.com/CadernosSP), tendo como objetivos: qualificar, aumentar o volume e garantir a regularidade das postagens; ampliar a interação com os usuários e o relacionamento com perfis estratégicos; e instituir rotina de avaliação mensal a partir de relatórios de desempenho. Em um cenário no qual as plataformas restringem o potencial de visualização das publicações não pagas, todo alcance obtido nas redes de CSP aconteceu apenas de forma orgânica, sem qualquer verba para impulsioná-las. Ainda assim, observamos um crescimento expressivo. De agosto de 2018 até o fechamento deste Editorial, em 19 de maio, houve um salto de 2.459 curtidas para 7.380 (+200%) na página do Facebook e de 420 seguidores para 2.147 (+411%) no Twitter.

Com a aprovação de projeto de CSP no âmbito do Edital de Divulgação Científica lançado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) no primeiro semestre de 2019, uma nova frente de atuação foi criada: as oficinas de divulgação científica. A proposta era reunir autores e jornalistas, comunicadores com experiência em redes sociais e grupos de advocacy ligados à temática, visando à formulação coletiva de estratégias de divulgação científica. O projeto previa a realização de três oficinas sobre artigos dos Suplementos Saúde das Crianças e Adolescentes Indígenas na América Latina (http://cadernos.ensp.fiocruz.br/csp/sumario/volume/36/fasciculo/307), Redes de Políticas Públicas, Regionalização e Saúde (http://cadernos.ensp.fiocruz.br/csp/sumario/volume/36/fasciculo/303) e Vacinas em Saúde Pública (http://cadernos.ensp.fiocruz.br/csp/sumario/volume/37/fasciculo/323).

Somente a oficina sobre saúde indígena pôde ser realizada antes da pandemia. Com 23 participantes, 22 propostas de ação foram formuladas, discriminando, para cada uma, o público-alvo pretendido e os responsáveis por executá-las. Destas, seis foram executadas. A crise sanitária fez mudarem as prioridades, afinal as questões levantadas pela anticiência durante a pandemia tornaram-se o foco de todos, inclusive de CSP.

Pelo mesmo motivo as outras duas oficinas foram reorientadas. O Suplemento Redes de Políticas Públicas, Regionalização e Saúde deu origem, em pareceria com Plataforma Região e Redes (https://www.resbr.net.br/), a um programa de debates, o Dilemas (https://www.youtube.com/watch?v=bTAuqlZOv4s&t=390s). O temático Vacinas em Saúde Pública foi levado a um debate - Vacinação contra COVID-19: Reflexões sobre Atitudes e Opiniões - entre três dos autores do Suplemento, atualizando os textos publicados para o contexto pandêmico (http://informe.ensp.fiocruz.br/secoes/noticia/428/51378).

Com a estruturação do fluxo de publicação fast-track para artigos voltados aos muitos aspectos da pandemia, CSP criou um programa, o Entrevista com Autores, disponibilizado em playlist no canal de YouTube da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca/Fiocruz (https://www.youtube.com/watch?v=mDv5r_LeYLA&list=PLjxv_Q_71tpYCzJQpHiyeq-tmEvQVEujA), no qual editores e autores dialogam sobre artigos publicados. O programa foi bem-sucedido e seus temas se diversificaram.

Também o investimento na assessoria de imprensa trouxe retorno positivo. O volume de citações de CSP com caráter noticioso (não-acadêmico) cresceu e ganhou um novo perfil. Nos últimos dois anos, 55 veículos jornalísticos diferentes, nacionais e internacionais, divulgaram matérias baseadas em artigos científicos publicados em CSP.

Atualmente, portanto, a divulgação científica de CSP está estruturada em três frentes: redes sociais, assessoria de imprensa e a produção em vídeo e podcast do programa Entrevista com Autores. A ampla e paulatina expansão da revista nesse campo foi, e ainda é, um processo de aprendizado contínuo baseado em experimentação, monitoramento dos resultados, avaliação, aperfeiçoamento das práticas e análise de tendências externas. Em um cenário de grandes restrições orçamentárias, esse processo foi também um exercício constante de administração dos recursos e da energia a serem investidos em cada iniciativa.

A chegada da pandemia demoliu rapidamente muitos dos gigantescos muros que separavam sociedade e cientistas. O mundo pede respostas da ciência, especialmente do campo da Saúde Pública/Saúde Coletiva, seja em relação a medidas de prevenção individual, a vacinas ou ao impacto da pandemia na segurança alimentar. É preciso aproximar a linguagem dos artigos científicos às do jornalismo, das redes sociais, dos áudios e dos vídeos. Acreditamos que nosso papel é apoiar autores que publicam em CSP a se envolverem cada vez mais nas atividades de divulgação científica. A participação de CSP junto aos autores é uma garantia da qualidade científica que sirva de base para outras linguagens, que levem o conteúdo publicado para além dos especialistas. E por isso pretendemos manter, expandir e aprimorar essas iniciativas.

CSP segue firme na criação de pontes e diálogos entre diferentes atores e em diversas frentes. Este é nosso compromisso: partir da troca entre pares para apoiar a adequada difusão da ciência voltada à melhoria das condições de vida e de saúde das populações.

Referências

1.   Proctor R, Schiebinger L, editores. Agnotology: the making and unmaking of ignorance. Palo Alto: Stanford University Press; 2018.
2.   Michaels D. The triumph of doubt: dark money and the science of deception. Oxford: Oxford University Press; 2020.
3.   Leite JC. Controvérsias científicas ou negação da ciência? A agnotologia e a ciência do clima. Scientiae Studia 2014; 12:179-89.

CreativeCommons
Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons

 


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