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Cadernos de Saúde Pública

ISSN 1678-4464

37 nº.5

Rio de Janeiro, Maio 2021


ARTIGO

O ambiente alimentar comunitário e a presença de pântanos alimentares no entorno das escolas de uma metrópole brasileira

Carla Marien da Costa Peres, Bruna Vieira de Lima Costa, Milene Cristine Pessoa, Olivia Souza Honório, Ariene Silva do Carmo, Thales Philipe Rodrigues da Silva, Danielle Soares Gardone, Adriana Lúcia Meireles, Larissa Loures Mendes

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00205120


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RESUMO
O objetivo foi avaliar o ambiente alimentar comunitário e a existência de pântanos alimentares no entorno das escolas de uma metrópole brasileira. Trata-se de um estudo ecológico realizado em escolas públicas e privadas de Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, e teve como unidade de análise o buffer de 250m. Foram incluídas no estudo todas as escolas de Educação Infantil, de Ensinos Fundamental e Médio. Em relação às escolas, foram avaliadas a dependência administrativa e o tipo de ensino ofertado, bem como a renda per capita dos setores censitários das escolas. Contabilizou-se também as informações sobre os estabelecimentos de venda de alimentos para o consumo imediato que estavam dentro do buffer no entorno das escolas. Em relação ao ambiente alimentar foram avaliados apenas os estabelecimentos que comercializam alimentos para o consumo imediato no entorno escolar. A análise dos buffers revelou que 97,4% das escolas tinham ao menos um desses estabelecimentos no seu entorno. Os estabelecimentos mais disponíveis no entorno da escola foram lanchonetes, restaurantes e bares. As escolas localizadas em setores censitários de maior renda apresentavam maior média de todos os estabelecimentos no seu entorno, exceto das mercearias e supermercados. Ademais, 54,6% das escolas estavam em vizinhanças que são classificados como pântanos alimentares. Os resultados revelam que entre as categorias avaliadas ocorre um predomínio dos estabelecimentos que comercializam, predominantemente, alimentos ultraprocessados, como os bares e lanchonetes no entorno das escolas de Belo Horizonte, o que expõe as crianças e os adolescentes a um ambiente alimentar não saudável.

Ambiente Construído; Alimentos Industrializados; Saúde da População Urbana


 

Introdução

O ambiente alimentar pode ser definido segundo o ambiente físico, econômico, político e sociocultural em que os indivíduos interagem e consequentemente são influenciados para a escolha, preparo e consumo dos alimentos 1. Esse ambiente alimentar pode, por sua vez, ser divido em níveis como: comunitário, organizacional, do consumidor e de informação 2. Em relação ao ambiente alimentar comunitário, este refere-se à distribuição, número, tipo, localização e acessibilidade aos estabelecimentos que comercializam alimentos 2. O ambiente organizacional está relacionado aos estabelecimentos que comercializam alimentos que estão localizados dentro de instituições, como por exemplo, nas escolas 2. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) propõe um conceito mais ampliado para o ambiente alimentar das escolas, considerando que este diz respeito aos espaços e infraestruturas disponíveis onde os alimentos podem ser obtidos, comprados e/ou consumidos dentro e ao redor das escolas, que também inclui o ambiente alimentar de informação (marketing, anúncios, rótulos de alimentos, promoções etc.) e pode ser um importante fator associado à obesidade em crianças e adolescentes, dependendo da disponibilidade, do acesso e dos tipos de alimentos comercializados 3.

No contexto da alimentação e nutrição, a abordagem do ambiente alimentar escolar reconhece a importância da disponibilidade e do acesso a alimentos saudáveis dentro e fora das escolas como determinantes do consumo de crianças e adolescentes, uma vez que, para este grupo, os comportamentos são influenciados principalmente pela família e pelo ambiente escolar 4,5. Além disso, é preciso considerar que as crianças e adolescente estão na fase de crescimento e desenvolvimento, por isto necessitam de uma alimentação saudável, capaz de ofertar todos os nutrientes necessários durante este período 6. Nesse cenário, a literatura demonstra que o padrão alimentar adotado por crianças e adolescente está em direção oposta ao recomendado, uma vez que neste grupo prevalece o elevado consumo de alimentos não saudáveis e o baixo consumo de alimentos saudáveis 7,8,9. São considerados alimentos saudáveis aqueles in natura e minimamente processados e os não saudáveis os alimentos ultraprocessados 10, sendo que esta ideia se estende para classificar os estabelecimentos considerando-se o perfil de aquisição de alimentos 11.

Nesse sentido, o acesso físico aos alimentos no entorno escolar tem sido considerado um ponto-chave para a compreensão da influência do ambiente nas escolhas alimentares de crianças e adolescentes e, quando tal ambiente contribui para escolhas alimentares não saudáveis, ele é considerado obesogênico 1,12. Estudos mostram que a menor distância e a maior densidade de estabelecimentos que comercializam alimentos não saudáveis no entorno escolar estão associadas a escolhas alimentares pouco nutritivas e densamente energéticas por crianças e adolescentes, contribuindo para o consumo alimentar inadequado e ganho de peso 13,14,15.

Considerando que existem evidências de que o ambiente no entorno das escolas tem características de um ambiente obesogênico 16,17, é importante a avaliação da existência dos pântanos alimentares, que são as vizinhanças em que as opções de alimentos não saudáveis são abundantes 18, no domínio do ambiente alimentar das escolas.

É necessário, ainda, avançar na temática do ambiente alimentar escolar em países de baixa e média rendas como o Brasil, pois diferentemente do que acontece em países desenvolvidos 15, nestes ainda são poucas as evidências e intervenções focadas no potencial obesogênico e tóxico desse ambiente 19,20,21. Diante disso, este estudo tem por objetivo avaliar o ambiente alimentar comunitário e a existência de pântanos alimentares no entorno das escolas de uma metrópole brasileira.

Métodos

Delineamento do estudo

É um estudo ecológico, realizado com todas as escolas públicas e privadas da cidade de Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais. A cidade é a sexta mais populosa do Brasil, sendo a primeira do estado, com 2.375.151 habitantes, densidade demográfica de 7.167 habitantes/km² e Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,810 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE. Belo Horizonte. https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/belo-horizonte/panorama, acessado em 08/Mar/2018).

Foram excluídas do estudo as instituições de Ensino Superior ou profissionalizantes, visto que seu público-alvo é composto majoritariamente por adultos. Os dados das escolas foram obtidos no site da Secretaria Estadual de Educação (SEE/MG) e são referentes ao ano de 2017. O banco final foi constituído com escolas que ofertavam Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio, totalizando 1.436 instituições.

Dados ambientais

Para caracterizar o ambiente alimentar comunitário no entorno das escolas de Belo Horizonte, foi desenvolvido um banco de dados com informações do endereço das escolas inseridas no estudo e dos estabelecimentos de venda de alimentos de consumo imediato, utilizando-se a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE - https://concla.ibge.gov.br/classificacoes/por-tema/atividades-economicas/classificacao-nacional-de-atividades-economicas.html) referente ao ano de 2015. O banco de dados dos estabelecimentos que comercializam alimentos foi construído baseando-se nas informações de duas fontes governamentais: Superintendência de Arrecadação e Informações Fiscais da Secretaria da Fazenda do Estado de Minas Gerais e a da Secretaria Municipal Adjunta de Fiscalização. Os bancos de dados foram sobrepostos a fim de excluir os estabelecimentos duplicados. Os estabelecimentos discordantes entre as duas fontes de dados foram conferidos utilizando-se a ferramenta Google Street View (https://maps.google.com.br) 22. Após a conferência, foram identificados 13.504 estabelecimentos.

Os estabelecimentos de venda de alimentos analisados no entorno das escolas foram aqueles que comercializam alimentos e refeições para o consumo imediato; foi realizada uma adaptação da classificação proposta por Assis 23, foram incluídos os supermercados, hipermercados e mercearias. Esses estabelecimentos foram incluídos pois neles é possível adquirir alimentos para o consumo imediato, principalmente os ultraprocessados 11. Foram considerados como estabelecimentos para o consumo imediato: lanchonetes, lojas de doces, bares, restaurantes, padarias, supermercados, hipermercados e mercearias (Material Suplementar: http://cadernos.ensp.fiocruz.br/static//arquivo/suppl-csp-2051-20_4058.pdf). As lojas de departamento e de conveniência não foram incluídas pois não são especializadas em comercializar alimentos, apesar de ser identificada a venda destes produtos. Ademais, de acordo com um estudo técnico realizado pela Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional (CAISAN), os estabelecimentos que comercializam alimentos podem ser classificados em: (1) aqueles onde a aquisição de alimentos in natura ou minimamente processados representa mais de 50% da aquisição total, ou seja, nestes estabelecimentos há uma predominância de aquisição de produtos saudáveis; (2) aqueles onde a aquisição de alimentos ultraprocessados representa mais de 50% da aquisição total, ou seja, nestes estabelecimentos há uma predominância de aquisição de produtos não saudáveis e (3) onde há predominância de aquisição de preparações culinárias ou alimentos processados ou onde não há predominância de aquisição de alimentos in natura/minimamente processados nem de alimentos ultraprocessados, estabelecimentos tidos como mistos 11.

Como unidade de análise para avaliar o ambiente alimentar, utilizou-se o buffer euclidiano de 250 metros no entorno de cada escola, que corresponde a, aproximadamente, cinco minutos de caminhada. Como centroide do buffer usou-se a localização da escola. O tamanho do buffer foi considerado com base na distância que crianças e adolescentes usualmente transitam no entorno das escolas, acompanhadas ou não por seus pais ou responsáveis 24,25. Baseando-se na criação dos buffers, foi possível contabilizar cada tipo de estabelecimento de venda de alimentos no entorno das escolas e, posteriormente, comparar o ambiente alimentar entre os tipos de ensino, dependência administrativa e tercis de renda média.

Para identificar os pântanos alimentares no entorno das escolas, foi usada uma adaptação da metodologia proposta por Hager et al. 26, que propuseram avaliar estes pântanos no entorno das residências dos adolescentes. Esses autores consideram como pântanos alimentares as vizinhanças com elevada disponibilidade de lojas de conveniência, e pequenas mercearias 26; no presente estudo as lojas de conveniência foram substituídas pelas lanchonetes. A substituição dessas lojas pelas lanchonetes ocorre no contexto em que as lanchonetes são uma das categorias de estabelecimentos mais frequentados entre os brasileiros 27, e entre os adolescentes o hábito de frequentar estes estabelecimentos está associado com padrão alimentar não saudável 28. Ademais, as lanchonetes são um dos estabelecimentos mais frequentes na base de dados analisada.

Para o cálculo, realizou-se o somatório do número de lanchonetes, mercearias e lojas de doce no entorno das escolas e, quando encontrado somatório maior ou igual a quatro estabelecimentos, o local foi classificado como pântano alimentar. Para a análise desses pântanos também utilizou-se o buffer circular de 250 metros no entorno das escolas como unidade de análise.

Dados de renda

As informações sobre a renda foram obtidas no Censo Demográfico de 2010 do IBGE (http://censo2010.ibge.gov.br/resultados.html), referentes aos limites geográficos dos setores censitários urbanos do município. Para verificar a renda per capita do setor censitário da escola foram utilizados os dados de renda e de população do censo.

Posteriormente, a variável quantitativa contínua “renda per capita dos setores censitários” foi categorizada em tercis de renda (em Reais): 1º tercil (159,60 -| 571,58); 2º tercil (571,59 -| 1.193,88); e 3º tercil (1.193,89 -| 8.388,16). Com base nesses dados, foi atribuído à escola o tercil de renda referente ao setor censitário no qual a ela estava localizada.

Análise de dados

As coordenadas geográficas (latitude e longitude) das escolas e dos estabelecimentos de venda de alimentos foram obtidas baseando-se nos endereços por meio do uso do serviço online de pesquisa Google Maps (https://www.google.com.br/maps?hl=pt-BR). Os dados foram coletados em configuração de Sistema de Coordenadas Geográficas WGS 84 e posteriormente transformados para o Sistema de Coordenadas Projetadas, Sistema Universal Transverso de Mercator (UTM), fuso 23S, datum SIRGAS 2000, por meio do uso do software Qgis 2.10.1 (https://qgis.org/pt_BR/site/).

Foram realizadas análises descritivas com medidas de frequências, medidas de tendência central (média) e dispersão (desvio padrão). Comparou-se o ambiente alimentar das escolas segundo os tipos de ensino, dependência administrativa e tercis de renda média per capita. Para tanto, foi utilizado o software estatístico Stata, versão 14.0 (https://www.stata.com).

Resultados

Das 1.436 escolas incluídas no estudo, 882 (61,42%) eram da rede privada e 554 (38,58%) eram da rede pública; em relação ao tipo de ensino, 616 (42,9%) ofertavam educação infantil e 820 (57,1%) eram de Ensino Fundamental/Médio. Dentre as escolas privadas, 409 (46,9%) estavam localizadas em setores censitários de maior tercil de renda e dentre as públicas, 237 (44,38%) estavam no 2º tercil de renda. Em relação ao ambiente alimentar, foram identificados 13.504 estabelecimentos que comercializam alimentos ou refeições para o consumo imediato. Os estabelecimentos mais frequentes no entorno das escolas foram as lanchonetes (29,02%), os restaurantes (28,06%) e os bares (21,5%) (dados não apresentados).

Verificou-se que no buffer de 250 metros no entorno das escolas a média de estabelecimentos que comercializam alimentos ou refeições para o consumo imediato foi de 13,30 (±16,30). Ao avaliar segundo a categoria de estabelecimentos, observou-se que as lanchonetes (4,10±7,50), restaurantes (3,60±5,70) e os bares (2,80±2,80) eram as categorias que apresentavam as maiores médias. Além disso, 97,4% das escolas tinham ao menos um estabelecimento de consumo imediato no buffer de 250 metros, sendo que 82,2% dos buffers apresentaram pelo menos uma lanchonete, 82,9% pelo menos um bar e 78% pelo menos um restaurante Tabela 1.

 

 

Tab.: 1
Tabela 1 Distribuição dos estabelecimentos de venda de alimentos no entorno escolar, buffer de 250 metros. Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, 2015.

 

As lanchonetes também foram os estabelecimentos com as maiores médias, independentemente do tipo de escola (pública ou privada) e tipo de ensino (Infantil ou Fundamental/Médio). Com exceção das mercearias, a média de todos os tipos de estabelecimentos foi maior no entorno de escolas privadas e que ofertavam Ensino Fundamental/Médio. Quando avaliada a renda per capita do entorno das escolas, os resultados apontaram que na medida em que há aumento da renda per capita do setor censitário eleva-se também a média de todos os estabelecimentos, exceto as mercearias e os supermercados Tabela 2.

 

 

Tab.: 2
Tabela 2 Distribuição dos estabelecimentos de venda de alimentos no entorno escolar, buffer de 250 metros segundo categorias, de acordo com as características das escolas. Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, 2015.

 

Considerando-se a disponibilidade de estabelecimentos não saudáveis nos buffers avaliados, verificou-se que 54,6% das escolas estavam inseridas em um buffer classificado como pântano alimentar. As escolas localizadas em pântanos alimentares estavam em sua maioria em setores censitários do 2º tercil (39,54%) e 3º tercil de renda per capita, eram escolas privadas (66,07%) e ofertavam Ensino Fundamental/Médio (58,16%) Figura 1.

 

 

Figura 1 Distribuição dos pântanos alimentares. Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, 2015.

 

Em relação as 37 escolas (2,58%) que não contavam com nenhum estabelecimento de consumo imediato em seu entorno, estas estavam localizadas em sua maioria (41,18%) no 3º tercil ( e em menores proporções (23,53%) no 1º tercil de renda. No que diz respeito à dependência administrativa, a maioria das escolas sem nenhum estabelecimento no seu entorno era pública (59,46%) e ofertava Ensino Fundamental (51,35%) (dados não mostrados).

Discussão

O presente estudo é um dos primeiros a avaliar o ambiente alimentar comunitário no entorno escolar de uma metrópole brasileira, considerando estabelecimentos de venda de alimentos para o consumo imediato e os pântanos alimentares. Os resultados mostraram que dentro das categorias de estabelecimentos estudados, os mais disponíveis no entorno das escolas foram as lanchonetes, bares e restaurantes, e a maioria das escolas estava localizada em buffers classificados como pântano alimentar. Diversos estudos têm demonstrado a importância da avaliação do ambiente alimentar comunitário no entorno das escolas e a forma como estes influenciam as escolhas alimentares de crianças e adolescentes 15,29. A análise do ambiente alimentar no entorno da escola é ainda mais relevante ao se considerar que em Belo Horizonte este ambiente impacta 470.691 alunos matriculados, de acordo com o Censo Escolar de 2017, nas escolas públicas e privadas da cidade (https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/belo-horizonte/panorama).

Independentemente do tipo de escola (pública ou privada) ou do tipo de ensino ofertado, as lanchonetes, os bares e os restaurantes foram os estabelecimentos de venda de alimentos mais frequentes no entorno das escolas. No Brasil, lanchonetes e bares são os estabelecimentos que comercializam predominantemente alimentos ultraprocessados 11, e um estudo realizado com crianças e adolescentes mostrou que o hábito de comprar alimentos em lanchonetes foi associado ao aumento da ingestão de alimentos ultraprocessados 30. Na mesma direção, estudos que avaliaram o ambiente alimentar no entorno das escolas em diversos países mostraram que os alimentos comercializados eram geralmente de baixa qualidade nutricional e que as crianças e adolescentes estavam expostos a um ambiente alimentar obesogênico 16,19,31,32,33.

Quanto à avaliação do ambiente alimentar comunitário segundo a renda, os resultados mostraram uma maior predominância de estabelecimentos considerados não saudáveis (bares, lojas que comercializam doces e guloseimas e lanchonetes) no tercil de maior renda dos setores censitários das escolas. Sabe-se que as características socioeconômicas da vizinhança podem influenciar o ambiente alimentar, visto que as instalações dos estabelecimentos comerciais tendem a ser mais frequentes em locais de maior renda 34,35. Dessa forma, vizinhanças de menor renda costumam apresentar menor disponibilidade e variedade de estabelecimentos de venda de alimentos, com acesso mais limitado aos alimentos saudáveis e maior exposição à venda dos alimentos não saudáveis 36,37,38.

Diante da elevada presença de estabelecimentos que comercializam alimentos ultraprocessados no entorno das escolas, também foi encontrado que a maioria das escolas estava localizada em pântanos alimentares. Esses pântanos vêm sendo associados ao aumento de taxas de obesidade 39, de internações por complicações de algumas doenças crônicas 40 e alimentação não saudável 41. Em Baltimore (Estados Unidos), um estudo realizado com adolescentes que cursavam as 6º e 7º séries avaliou a associação do ambiente alimentar com o consumo de lanches e concluiu que residir em áreas de pântanos alimentares associou-se ao maior consumo destes 26.

Outros trabalhos também encontraram maior concentração de lojas de conveniência e restaurantes fast food, estabelecimentos utilizados como marcadores de alimentação não saudável, no entorno das escolas secundárias (Ensino Médio), o que pode ser justificado pelo fato de os adolescentes apresentarem maior autonomia para comprar alimentos, bem como maior mobilidade para percorrerem maiores distâncias no entorno escolar ou entre o domicílio e a escola 42,43,44, e apesar de não ter sido avaliada a presença dos pântanos alimentares, verificou-se um ambiente alimentar obesogênico e tóxico 16,17.

Outro achado relevante do presente trabalho, complementar à questão dos pântanos alimentares, foi a presença de bares no entorno escolar. Esses estabelecimentos são caracterizados por venderem, principalmente, alimentos e bebidas ultraprocessados 11, sendo, portanto, um local adicional para a aquisição de alimentos ultraprocessados. Além disso, tem o aspecto relacionado ao aumento da disponibilidade de bebidas alcoólicas no entorno das escolas. Uma vez que é amplamente discutido na literatura que à proporção que o álcool se torna mais acessível, o consumo e os problemas relacionados a ele aumentam, sendo este um achado relevante que deve ser considerado pelos gestores ao propor políticas que incluam a população escolar 45,46.

Ademais, um estudo que encontrou características do ambiente alimentar similares às observadas no presente trabalho, relata que existe associação destas características com o comportamento alimentar de crianças e adolescentes, fazendo com que este grupo escolha uma alimentação monótona e densamente energética, o que favorece o desenvolvimento de obesidade 16. No Brasil, já existem dados que apontaram que 26,7% das calorias consumidas pelas crianças e adolescentes (10 a 18 anos) são provenientes de alimentos ultraprocessados. E ao comparar com a ingestão de adultos e idosos, as crianças e adolescentes são o grupo com a maior ingestão de alimentos ultraprocessados e a menor ingestão de alimentos in natura. Além disso, alimentos como salgados fritos e assados, sorvete/picolé, bolos recheados, salgadinhos chips e refrigerantes estão entre aqueles com o maior percentual de consumo fora do domicilio em áreas urbanas no Brasil 47.

É importante destacar que o ambiente organizacional também influencia nas escolhas alimentares de crianças e adolescentes, sendo que em escolas privadas é comum a presença de cantinas. Um estudo que avaliou escolas públicas e privadas no Brasil encontrou que a presença de cantinas era maior nas escolas privadas (97,75%) e que estas também apresentavam mais propaganda e comércio de alimentos processados e ultraprocessados 48. Além disso, vale destacar que as escolas públicas no Brasil são assistidas pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que tem por objetivo promover hábitos alimentares saudáveis por meio da oferta de alimentação saudável e de ações de educação alimentar e nutricional 49.

Os achados deste trabalho possibilitaram compreender como é a distribuição dos estabelecimentos para o consumo imediato no entorno de escolas públicas e privadas, avançando principalmente no sentido de investigar a existência de pântanos alimentares no entorno deste ambiente organizacional. Porém, entendemos que precisam ser realizadas pesquisas futuras com o intuito de entender o ambiente de informação dentro e no entorno dessas escolas e também avaliar a presença do comércio informal de alimentos. Temos como limitação o uso de fontes de dados secundárias para a localização das escolas e dos estabelecimentos de venda de alimentos, o que pode gerar imprecisões. Porém, a junção de duas bases de dados no caso dos estabelecimentos e a conferência virtual permitiram uma base de dados mais confiável para a avaliação do ambiente alimentar no entorno das escolas.

Outra potencial limitação diz respeito ao uso do buffer euclidiano para a definição do entorno escolar, uma vez que este tipo de unidade determina limites arbitrários, ou seja, que não leva em consideração as rotas que realmente são utilizadas para o acesso às escolas. Apesar da limitação, esta tem sido uma estratégia muito usada nos estudos que avaliam o ambiente alimentar no entorno escolar. Além disso, vale ressaltar que medidas de distância baseadas em buffer euclidiano e buffer network (r = 0,865) e densidade (r = 0,667-0,764, dependendo do tamanho da vizinhança) têm forte correlação entre si 50. Outra limitação em relação ao buffer diz respeito ao fato de que não foi avaliada a sobreposição dos buffers, para verificar a influência de ter escolas próximas. Além disso, existe uma diferença de tempo entre os dados secundários, o que poderia acarretar um viés de mensuração.

Ademais, algumas avaliações que não foram possíveis neste trabalho devem ser consideradas para futuros estudos como: avaliação da rota do estudante; informações sobre a aquisição de alimentos nos estabelecimentos que fazem parte do ambiente alimentar no entorno das escolas; avaliação do ambiente alimentar do consumidor (exemplo: o que está sendo vendido nas lanchonetes de Belo Horizonte? Quais os preços dos alimentos que estão sendo comercializados?) e avaliação objetiva na porta da escola relacionada aos vendedores ambulantes de alimentos.

Conclusões

As evidências encontradas neste estudo mostraram que entre as categorias avaliadas ocorre um predomínio dos estabelecimentos que comercializam, predominantemente, alimentos ultraprocessados, como os bares e as lanchonetes no entorno das escolas. Além disso, a maioria das escolas está em buffers classificados como pântanos alimentares, o que pode expor crianças e adolescentes a um ambiente alimentar obesogênico à curta distância de um local onde passam boa parte do seu tempo. Dessa forma, isso pode favorecer escolhas alimentares não saudáveis, exposição precoce a bebidas alcoólicas e, também, contribuir para o excesso de peso e comportamentos não saudáveis nesse público.

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ERRATUM

 

Os autores solicitam a inclusão de:

 

Agradecimentos

Os autores agradecem o financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (431979/2018-9) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais
(APQ03215-18).

 


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