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Cadernos de Saúde Pública

ISSN 1678-4464

37 nº.5

Rio de Janeiro, Maio 2021


REVISÃO

“De quem é esse bebê?”: desafios para o direito à maternidade de mulheres em situação de rua

Gilney Costa Santos, Tatiana Wargas de Faria Baptista, Patrícia Constantino

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00269320


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RESUMO
As experiências de mulheres gestantes em situação de rua colocam na arena do debate público tensões entre garantias individuais e limites às ações do Estado. Este artigo analisa a produção científica sobre o tema, a fim de reconhecer os argumentos biomédicos, jurídicos e sociais que sustentam os posicionamentos neste debate. A partir de uma revisão integrativa, em bases de abrangência nacional e internacional, foram analisados 21 estudos e identificados quatro enunciados: Riscos à saúde da mulher e do feto/criança; Discursos sobre o pré-natal; Direitos de mulheres e de fetos/crianças; e Os sentidos sobre maternidade. Conclui-se que a experiência de maternidade dessas mulheres é extremamente complexa, não apenas pela situação de rua, mas por todo contexto, marcado por relações desiguais de classe, raça e gênero. Nos cenários nacional e internacional, sobressai o discurso de proteção e cuidado ao bebê/feto, em detrimento das mulheres gestantes. A criminalização dessas maternidades tem sido uma tendência global em que a expansão dos direitos “fetais/infantis” significa a retração dos direitos das mulheres. Esse modo de operar não produz e não incentiva que as mulheres busquem os serviços sociais e de saúde, mas o contrário. Torna-se um imperativo ético e humanitário pensar outros modos de cuidar, ancorados na perspectiva dos direitos humanos, para que a assistência ao feto/criança não se traduza em violência às mulheres.

Mulheres; Gênero; Maternidade; Pessoas em Situação de Rua; Direitos Humanos


 

Introdução

Este artigo tem como objeto de reflexão a maternidade de mulheres em situação de rua. Com base em uma revisão integrativa 1, faz-se uma incursão nos discursos científicos, analisando como se apresentam e se articulam os enunciados biomédicos, jurídicos e sociais sobre este tema.

A ideia de mulher e sua associação com a maternidade é uma construção social 2. No Ocidente, a figura da mulher remete ao sagrado e à pureza, como aquela que cuida de seus filhos e da casa. Já a mulher em situação de rua tem sido associada à prostituição, ao perigo e à criminalidade 3. Abordar as experiências de maternidade dessas mulheres tensiona essas construções e coloca em discussão os limites entre a liberdade individual e a ação do Estado.

No cenário internacional, este tema tem ganhado destaque, desde os anos 1950, em função do número crescente de casos judicializados e, em torno deles, os debates sobre direitos sexuais e reprodutivos dessas mulheres, bem como a legitimidade dos “direitos fetais” 4. Uma agenda ainda hoje não equacionada que se expressa no cotidiano dos serviços de saúde, do judiciário e da assistência em forma de dilemas em torno ora da defesa dos direitos das mulheres ora das crianças/bebês/feto.

No Brasil, a discussão sobre a situação de vida e saúde das mulheres e de seus bebês, no contexto da rua, ocupou o debate social, político e jurídico, especialmente a partir de 2012, fortemente associado ao uso de drogas. O tema alcançou a mídia, sugerindo uma relação direta entre o uso de drogas e a situação de rua, (re)produzida pelo discurso moral da “dependência química”, em que a droga seria a causa da passagem à vida na rua 5.

Esse discurso, contudo, não é isento de interesses e comumente se mostra equivocado: nem todas as pessoas que estão em situação de rua usam drogas, assim como, os motivos pelos quais a “vida na rua” acontece tem um amplo espectro de justificativas que varia desde gerações que já nascem nas ruas até mesmo aquelas que por circunstâncias a vida nas ruas se torna uma realidade/alternativa.

Ademais, as notícias sensacionalistas 5 que sustentam a produção do discurso moral 6 apagam o contexto de vulnerabilidade social das mulheres, tornando-se uma relevante estratégia de manutenção do status quo e de criminalização dessas mulheres, consideradas inaptas para o exercício da maternidade. Assim, tais narrativas normalizam a “guerra aos pobres”, travestida oficialmente de “guerra às drogas”, servindo para induzir e justificar as estratégias proibicionistas frente às propostas da redução de danos 6,7,8.

Para Santos et al. 9, a situação dessas mulheres e de seus bebês denuncia um mal-estar social ancorado nas históricas e desiguais relações de gênero, classe e raça que incidem sobre corpos específicos: mulheres, em sua grande maioria pretas e pobres, cuja história de vida é marcada por violências estruturais e institucionais. Trata-se de mulheres que vivem em um profundo contexto de desamparo e desproteção social, desafiando normas instituídas sobre o que é ser mulher e mãe, provocando respostas do Estado 3.

Nas últimas décadas, essas respostas implicaram a estruturação de uma rede de cuidado integrada entre atenção básica e saúde mental, com a expansão dos Centros de Atenção Psicossocial e a implantação das equipes de Consultórios na Rua. Em contrapartida, foram adotadas medidas para o enfrentamento do uso de drogas, em especial o crack 10, que reforçaram o olhar higienista sobre a população de rua, configurando um cenário de disputa em torno dos modelos de cuidado, no qual recursos públicos do financiamento dos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS) foram alocados no setor privado, sobretudo no financiamento das Comunidades Terapêuticas 11.

Para as mulheres, as medidas proibicionistas têm incidido diretamente sobre seus direitos reprodutivos. Em 2014, a Promotoria da Infância e da Juventude de Belo Horizonte (Minas Gerais) publicou duas Normativas 12,13 destinadas às maternidades e unidades básicas de saúde, recomendando a comunicação imediata às autoridades dos partos de mulheres usuárias de drogas e, ou, em situação de rua. Dois anos mais tarde, uma Portaria 14 foi editada, desta vez pela Vara Cível da Infância e da Juventude daquela capital, estabelecendo o prazo de 48 horas, a partir do nascimento do bebê, para a comunicação dos partos às autoridades, sujeitando profissionais de saúde a punições, caso descumprissem as determinações.

As práticas de separação mãe/bebê implementadas nesses últimos anos - como em Belo Horizonte desde 2011 15 ou no Município do Rio de Janeiro a partir de 2013, quando 39 recém-nascidos foram afastados de suas mães porque se tratavam de mulheres em situação de rua usuárias de crack 3 - remontam ao contexto das décadas de 1920 a 1980, quando milhares de crianças, filhos de pais diagnosticados com hanseníase, foram separadas e encaminhadas aos chamados preventórios, enquanto seus pais eram isolados em “leprosários” 16.

As práticas proibicionistas - aí incluídas a internação, laqueadura e a separação compulsórias entre as mulheres e seus bebês -, inicialmente restritas a algumas capitais brasileiras, se tornaram objeto de denúncias de movimentos sociais ligados aos Direitos Humanos, como os movimentos feministas e as universidades. Esses denunciavam que mulheres em situação de rua e, ou, com histórico de uso de drogas tinham seus filhos sequestrados ainda nas maternidades e encaminhados para a adoção, pela Justiça, à revelia das mães, mesmo quando estas manifestavam o desejo pela criança e buscavam meios para garantir a sua criação.

As denúncias explicitavam que esse modo de operar é parcial, pois focava no uso da droga sem considerar a história e o contexto de vida dessas mulheres; seletivo, uma vez que as decisões incidiam, em sua grande maioria, em corpos de mulheres pretas e pobres em situação de rua, “capturadas” ao acessarem serviços públicos da assistência social ou da saúde; e moral, haja vista que quase nunca essas mesmas decisões consideravam os homens, genitores dos bebês, como parte do processo reprodutivo 17.

Em 2016, uma Nota Técnica do Ministério da Saúde e do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome 18 reiterou que a vulnerabilidade dos pais e o uso de drogas não são motivos para a separação familiar, representando uma resposta ao Ministério Público de Belo Horizonte 9. Em 2018, a revista Saúde em Redes publicou um número temático reunindo artigos de pesquisadoras, movimentos sociais e defensorias públicas, somando-se aos esforços de denúncia, sinalizando que no “estado civilizatório que o neoliberalismo vem produzindo, (...) há vidas que valem mais que outras, e muitas (...) que não valem a pena (...) deixa-se morrer, ou mesmo mata-se19 (p. 7).

No mesmo ano, a Rede Unida realizou o XIII Congresso Internacional (http://www.redeunida.org.br/pt-br/evento/5/), expondo centenas de meias em um varal, cada uma representando um bebê retirado compulsoriamente de suas mães. Esse varal exibia trechos de depoimentos das mulheres a respeito do desejo de maternar, seguido da pergunta: “De quem é esse bebê?”.

A denúncia chamava atenção para o caráter eugênico da ação, que ao advogar em defesa dos direitos do mais vulnerável, perpetuava a estrutura de opressão, uma vez que não envidava esforços práticos com vistas a encontrar soluções efetivas para o problema dessas mulheres - pretas, pobres, em situação de rua e, ou, usuárias de drogas - e dos seus bebês.

Essas questões mobilizaram a realização deste estudo, que reconhece que as respostas institucionais à situação de vida e saúde dessas mulheres e de seus bebês requerem a produção de saberes sobre o tema. Olhar para as produções científicas sobre essa temática é provocar um debate acerca das práticas e políticas de saúde.

Metodologia

Este é um estudo de revisão integrativa da literatura científica sobre a maternidade de mulheres em situação de rua. A revisão integrativa abrange um conjunto de técnicas para recuperar, mapear, selecionar, avaliar e produzir análises críticas a respeito da produção de conhecimento sobre um objeto/questão de pesquisa 1.

Na construção do panorama de uma temática, a revisão integrativa não forma um todo homogêneo, como sugere o termo “integrativa”; por vezes, a revisão integrativa explicita (e é o desejável) as contradições, os apagamentos, possibilitando identificar razões pelas quais um tema ou uma agenda de pesquisa ascende.

A opção por esse método justifica-se pelo reconhecimento das potencialidades de análise sobre a forma como são retratadas nos estudos a maternidade/maternagem das mulheres em situação de rua. São duas perguntas-chave: (i) Quais enunciados sustentam a produção desses textos?; e (ii) Como saberes biomédicos, jurídicos e socioantropológicos atravessam a produção social e política dessas maternidades?

O levantamento bibliográfico ocorreu em junho de 2019, com duas estratégias de busca usando-se descritores nas línguas portuguesa e inglesa nas seguintes bases: Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Scopus, Web of Science e SciELO. A primeira estratégia consistiu na combinação simples dos descritores “mulheres, maternidade e rua” com o objetivo de maior alcance Figura 1. A segunda consistiu numa estratégia mais específica incorporando um número maior de descritores e duas outras bases nacionais: o Portal Brasileiro de Publicações Científicas em Acesso Aberto (Oasis) e o Catálogo de Teses e Dissertações da Coordenção de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

 

 

Figura 1 Processo e etapas da busca bibliográfica.

 

Os estudos recuperados foram organizados usando-se o software Mendeley (https://www.mendeley.com), facilitando a limpeza da base e checagem de duplicidades. Foram consideradas as publicações em português, inglês ou espanhol que estivessem disponíveis e acessíveis. Uma primeira identificação dos estudos foi realizada baseando-se nos títulos e validada por dois pares ad hoc. Em seguida, foram excluídos os textos sem versão completa. Depois da leitura dos resumos foram mantidos os trabalhos que de alguma forma estavam relacionados à temática da maternidade de mulheres em situação de rua e excluídos os estudos clínicos, protocolos de rotina dos serviços e os específicos de avaliação de serviços, sem uma discussão propriamente sobre as mulheres e a situação de rua.

Os trabalhos selecionados deram origem a uma matriz de dados organizada com base nas seguintes informações: título; autores; filiação; objetivo; tipo de estudo; métodos/metodologia; participantes; principais resultados; área de conhecimento; idioma; ano; local da publicação; e fomento. Em seguida, foi realizada uma leitura exaustiva dos estudos buscando reconhecer os núcleos de sentidos 20. Na perspectiva das práticas discursivas, os núcleos de sentido dizem respeito à compreensão da linguagem (escrita, falada, imagética e corporal) como práticas sociais em ação 20, que expressam condições de possibilidades históricas e políticas nas quais estão ancoradas a produção dos discursos.

A análise foi realizada reconhecendo o saber biomédico, jurídico e socioantropológico como discursos e lugares de fala que ofertam modos diferentes de olhar para o tema, em permanente tensionamento, inclusive no interior de cada um deles, posto que não produzem enunciados únicos. Ao observá-los questionamos: Como esses saberes e discursos se conectam? Como se transformam? Quais as disputas em jogo? Quais as interfaces entre os enunciados produzidos?

Resultados e discussões

A ideia de mulher é uma construção social que na modernidade ganhou contornos nítidos ao ser associada à ideologia de um amor instintivo à prole e uma devoção virtuosa ao lar 21. Sobre os corpos de mulheres operam regras e padrões de normalidade, tendo a ciência um importante papel na construção de práticas e saberes que incidem sobre estes corpos. A mulher vista como sinônimo de mãe reflete esse ideal construído e toda vez que algo coloca esse padrão em questão há tensionamentos. As experiências de maternidade das mulheres em situação de rua colocam em xeque o estabilishment, provocando debates e análises tanto no meio social como no acadêmico.

A produção científica identificada nesta revisão integrativa Quadro 1 expressa diferentes racionalidades e modos de entendimento sobre as experiências de maternidade dessas mulheres. O córpus de análise foi constituído por 21 estudos, com base nos quais quatro enunciados foram identificados:

 

(I) Riscos à saúde da mulher e do feto/criança: predominante no contexto das discussões internacionais, este enunciado está ancorado na perspectiva dos estudos biomédicos sobre fatores de risco argumentando que o contexto da rua, por si só, já representaria risco para a ocorrência de efeitos adversos à gestação dessas mulheres. Esse argumento é disputado pelos estudos socioculturais, que incorporam uma perspectiva macroestrutural na produção desses riscos, questionando o peso do contexto social e político ou o estilo de vida;

(II) Discursos sobre o pré-natal: tanto no contexto internacional quanto no brasileiro o pré-natal tem sido entendido como uma tecnologia de cuidado que favorece o controle e a mitigação dos fatores de risco que produzem efeitos adversos à gestação de mulheres em situação de rua. Aqui, prevalece o olhar das ciências sociais em saúde que alerta para o fato de que dispositivos jurídicos e normativos centrados na punição produzem desconfiança, levam ao abandono e à recusa das mulheres em procurar os serviços de assistência social e saúde;

(III) Direitos de mulheres e de fetos/crianças: foram localizados apenas estudos internacionais. Este enunciado explicita as dubiedades entre a defesa dos direitos das mulheres e a defesa dos fetos/crianças. Mostram que enquanto os saberes jurídicos, mobilizados pelo Estado, partem do pressuposto de que as mulheres em situação de rua são inaptas para o exercício da maternidade, justificando a ideia de que é preciso proteger fetos/crianças, as ciências sociais vão tensionar estes saberes denunciando a produção de estigmas, exclusão social, ruptura de vínculos afetivos e sociais, além de desestimular que as mulheres recorram aos serviços de saúde e assistência social;

(IV) Os sentidos sobre a maternidade: os estudos neste enunciado são majoritariamente nacionais e estão apoiados na perspectiva das ciências sociais. Discutem o desejo de maternar das mulheres em situação de rua como uma possibilidade de (re)construção de outros modos de caminhar pela vida. Esses estudos reconhecem que essas maternidades se distanciam do ideal, mas que há a possibilidade de exercê-las por meio de políticas públicas que amparem essas mulheres e seus bebês.

 

 

Tab.: 1
Quadro 1 Caracterização dos estudos publicados sobre mulheres em situação de rua com trajetória de uso de drogas.

 

A organização desses textos com base na identificação desses enunciados considerou a centralidade das discussões presentes nos estudos. Trata-se, portanto, de uma organização didática, posto que as discussões dos textos se sobrepõem. Ressalte-se ainda que ao tratar os estudos, a discussão sobre drogas ganha importância e assume lugar de destaque na produção tanto nacional quanto internacional. Para além de unir textos e contextos tão diferentes, a “droga” aparece nos enunciados como dispositivo que justifica as estratégias de vigilância e intervenção sobre os corpos dessas mulheres e de seus descendentes.

Riscos à saúde da mulher e do feto/criança

Em 8 dos 21 estudos foi identificado o enunciado dos riscos à saúde da mulher e do feto/criança. Três trabalhos problematizam o tema com base nas experiências brasileiras 22,23,24 e cinco nas do contexto internacional 25,26,27,28,29. Dispersos no tempo e no contexto, esses trabalhos compartilham a ideia de que os riscos atravessam a produção dessas maternidades, seja pela situação de rua, seja pelo uso de drogas.

Do ponto de vista conceitual, risco é uma medida probabilística que diz respeito às chances de um determinado agravo/evento acontecer. Em saúde pública, essa concepção inaugurou uma nova racionalidade no modo de organizar as práticas e serviços de saúde em que prevenir e controlar fatores de risco assumem a centralidade das ações 30.

Nos estudos desta revisão, os enunciados relativos aos fatores de risco para a mulher e para o feto/criança aparecem em permanente tensionamento: seria o contexto de rua e o uso de drogas os fatores preponderantes para os desfechos adversos à saúde materno-infantil ou o contexto político e social, muitas vezes anterior à vida nas ruas e ao uso de drogas? 26,28. O que pesa mais para os desfechos adversos das gestações dessas mulheres: práticas de uso, tipo de substância, estilo de vida ou o contexto de pobreza, no qual o viver na rua se torna a expressão da precariedade? 26,29.

Esses tensionamentos estão ancorados em diferentes entendimentos sobre os riscos que vão desde os biomédicos, que partem do pressuposto de que o contexto da rua por si só já seria um risco à gestação que se soma ao uso de drogas, até os estudos socioculturais, que consideram que os fatores de risco são estruturais, portanto, relacionados ao contexto de precariedade da vida 25,26.

Do ponto de vista biomédico, os estudos enfatizam a relação causa/consequência e apontam como solução para uma maternidade “livre de riscos”: o retorno ao domicílio e a abstinência do uso de drogas 22,23,24. Já a perspectiva dos estudos socioculturais traz os sentidos e percepções que as mulheres e profissionais de saúde constroem sobre os riscos e as condições de vida, trabalho e saúde 26,27,29.

Nos estudos de ênfase biomédica, há um esforço de localização dos possíveis desfechos adversos à gestação/nascimento: aborto 23, problemas hemorrágicos, anemia, malformação fetal, prematuridade 27, baixo peso ao nascer 28 e outros. O debate consiste em estabelecer relações entre condições de vida, hábitos e uso de substâncias, lícitas e ilícitas, e seus efeitos na saúde, em especial do feto/criança 24,28. Mas também em mostrar quando não existe nexo causal completamente estabelecido entre o uso de substâncias, a fase da gestão e a ocorrência de desfechos negativos 23,24,28.

Em alguns desses trabalhos 22,23, o discurso do risco está também associado à organização dos serviços, indicando que a situação de rua bem como o consumo de drogas ilícitas causam danos tanto individuais à saúde da mulher e do feto/criança quanto sociais, como, por exemplo, a expansão dos gastos dos sistemas de saúde, a sobrecarga na taxa de ocupação de leitos hospitalares e assistência social. Nesse contexto, há um estudo 25 que indica a atuação de uma cadeia industrial de testes toxicológicos na recomendação de testagem dessas mulheres e recém-nascidos (por meio do mecônio, cabelo materno e urina) como estratégia para controlar fatores de risco relacionados ao uso de drogas.

Outro estudo 23 compara os custos do parto e do cuidado com o recém-nascido de baixo e alto riscos com os custos-benefícios decorrentes de implantes de anticoncepcional subdérmico, com tempo de uso de três anos, contendo 68mg de etonogestrel, em uma população de 106 mulheres da região conhecida como “Cracolândia” de São Paulo. Para os autores 23, o investimento na prevenção de gestações não planejadas de mulheres em situação de rua e, ou, usuárias de drogas é a melhor e mais barata opção.

Noutra perspectiva, os estudos de abordagem sociocultural 26,27,29 entendem os fatores de risco como uma construção social regulada pelos lugares de fala de cada ator social. Assim, profissionais de saúde e mulheres em situação de rua com trajetória (ou não) de uso de drogas tendem a perceber riscos diferenciados 29.

Para Bassuk & Weinreb 26, a distribuição dos riscos é marcadamente desigual. Segundo as autoras, os fatores de risco operam na fronteira das desigualdades estruturais, sendo sobre o corpo de mulheres negras e pobres que incidem de modo mais frequente e intenso as decisões de corte político, econômico e social que mantêm a reprodução histórica dos fatores de risco.

Coadunando com essa visão, Leppo 29 ressalta que o discurso biomédico que incide sobre as práticas de uso de drogas se volta ao corpo feminino na rua pela via da moralidade, em que a abstinência, além de representar um risco à saúde mental dessas mulheres, traz consigo um alto grau de exigência, pois muitas vezes para manter-se de “cara limpa” as mulheres precisam romper com vínculos e laços sociais significativos para elas.

Leppo 29 ressalta que, para as mulheres, a abstinência não resolve os riscos cotidianamente vivenciados em seu contexto social (pobreza, racismo, patriarcado, violências) e destaca que dentre suas preocupações está a possibilidade do bebê apresentar sintomas de abstinência e de sofrerem intervenções que levam a separação de seu bebê. Desse modo, as mulheres tendem a não buscar os serviços de assistência social e de saúde.

Os dados levantados por Leppo 29 rompem com narrativas que tendem a considerar as mulheres como negligentes em função da baixa adesão aos programas de pré-natal, e coadunam com os resultados apresentados por Bloom et al. 27 para os quais as barreiras de acesso ao pré-natal constituem fatores de risco importantes para a ocorrência de eventos adversos à gestão/parto dessas mulheres.

Discursos sobre o pré-natal

O debate sobre o pré-natal dessas mulheres aparece em 2 dos 21 estudos 31,32. Embora tenham sido produzidos em distintos contextos, o primeiro brasileiro e o segundo de origem estadunidense, eles convergem para a ideia de que a maternidade dessas mulheres representa uma série de desafios para os profissionais e sistemas de saúde.

Há certo consenso entre esses autores 31,32 de que o pré-natal, quando bem manejado, isto é, em tempo oportuno para o diagnóstico precoce da gravidez, realização de testagem sorológica e acolhimento das demandas das mulheres, pode se tornar um dispositivo de cuidado capaz de controlar e reduzir riscos à saúde da gestante e do feto.

Para os autores 31,32, essas mulheres são marcadas por um amplo espectro de demandas que, comumente, extrapolam o setor saúde, inclusive durante o pré-natal. Esses desafios variam desde a emissão de documentos de identificação pessoal até a oferta de espaços de convivência mãe/bebê, em alguns casos, até mesmo familiar.

Os autores 31,32 também convergem a respeito da ideia de que a forma como os serviços se organizam para responder aos desafios colocados por essas mulheres pode ser crucial para o melhor desfecho da gestação, não apenas do ponto de vista das práticas biomédicas e assistenciais, mas da garantia de direitos das mulheres e de seus filhos.

Ao discutir a organização do pré-natal dessas mulheres, Araújo et al. 31 focam nas práticas assistenciais da consulta pré-natal de enfermagem, em serviço de Consultório na Rua. Já Beal & Redlener 32 discutem as implicações do pré-natal para o controle e a redução dos fatores de riscos que produzem efeitos adversos às gestações dessas mulheres, como a pobreza, a desnutrição e as condições precárias de habitação.

Araújo et al. 31 (p. 4015-6) problematizam as práticas assistenciais considerando o lugar de fala das mulheres em situação de rua e advogam que “...a atenção pré-natal pode controlar os fatores de risco que trazem complicações à gestação, além de permitir a detecção e o tratamento oportuno de complicações, contribuindo para que o desfecho perinatal e maternal sejam favoráveis”. Não obstante, alertam que “...o número de consultas pré-natal, por maior que seja, não garante que a assistência seja adequada31 (p. 4106), assim o pré-natal tardiamente iniciado favorece a ocorrência de desfechos adversos ao nascimento (prematuridade, baixo peso ao nascer, óbito fetal e/ou materno). Para os autores 31, pensar a (re)organização dos serviços de assistência materno-infantil, do ponto de vista dessas mulheres, implica reconhecer como elas se sentem nos serviços, quais os tratamentos são ofertados, os motivos que contribuem para que não procurem ou abandonem os serviços.

Os autores 31 também ressaltam que o ideário da Política Nacional de Humanização (PNH) favorece a perspectiva do lugar de fala e de escuta, deslocando o indicador abandono das explicações centradas nos estilos de vida para o entendimento de que não retornar aos serviços pode ser por desânimo, mas também, “por terem se sentido vítimas de preconceito na assistência institucional31 (p. 4106).

Desse modo, pensam o pré-natal não somente como a execução de exames laboratoriais, imunização e testes sorológicos, mas como momento de escuta 31. Nessa perspectiva, a despeito da (re)organização das práticas assistenciais, apostam no pré-natal como um momento de encontros afetivos entre profissionais de saúde e “...gestantes de alto risco que devem receber atenção especial (...) à probabilidade de intoxicação aguda que procede ao momento do parto31 (p. 4106).

Outro ponto de convergência entre os dois estudos 31,32 é o reconhecimento de que essas gestações são produzidas em meio a vulnerabilidades sociais extremas e que organizar esse pré-natal exige uma produção de cuidado que extrapola o prescrito. Para Beal & Redlener 32, existe um nível estrutural que dificulta o acesso dessas mulheres aos serviços de saúde e quando elas chegam não é só pensar a assistência. Para responder aos desafios colocados por essas mulheres é preciso que o pré-natal olhe não apenas para a questão da saúde, mas o contexto no qual essas maternidades são produzidas: a “desestruturação familiar, pouca capacidade de planejamento, abuso de substâncias32 (p. 308).

Trata-se, desse ponto de vista, de uma aposta política feita pelos autores 31,32 para a reorganização do cuidado em saúde, pois compreendem que é preciso reconhecer que as mulheres são diversas em suas necessidades e que os motivos que fazem com que mulheres/mães se encontrem em situação de rua são diferentes tanto quanto a forma como se relacionam com “a rua”.

Direitos de mulheres e de fetos/crianças

O debate sobre os direitos das mulheres gestantes em situação de rua foi encontrado em 6 dos 21 estudos 33,34,35,36,37,38, em sua totalidade internacionais. Isso não significa que essas discussões não estejam acontecendo no Brasil, há produções nacionais importantes já sinalizadas, como o número temático da Rede Unida, que pautam esse debate, mas que não foram localizadas na revisão integrativa.

Os estudos 33,34,35,36,37,38 descrevem diferentes entendimentos jurídicos sobre a temática e como eles se expressam em práticas biomédicas e assistenciais no cotidiano dos serviços sociais e de saúde. Partem do reconhecimento de que há uma tensão entre os direitos das mulheres em situação de rua e os direitos fetais/infantis, com certo consenso de que a questão central não diz respeito somente à análise do papel do Estado, mas dos interesses sobre os corpos dessas mulheres e seus descendentes. Aqui o debate sobre a maternidade e o uso de drogas sobrepõe as discussões acerca da maternidade no contexto da rua.

Garcia 33 ao problematizar a tensão entre as garantias individuais e o papel do Estado, chama atenção para a existência de questões que são objetos de controvérsia na literatura científica. Para a autora, ainda não está claro se o uso de drogas, que essas mulheres fazem, é uma questão médica ou de segurança pública. E se essas gestantes devem ser consideradas criminosas em função desse uso de drogas e dos danos potenciais causados ao feto. Segundo a autora, se a gestação dessas mulheres for considerada um problema social cabe definir ainda em que momento o Estado deve intervir para garantir direitos de quem e quais.

“[O debate sobre] a toxicodependência durante a gravidez levanta a questão de em que momento da gestação o Estado tem interesse suficiente para justificar uma intervenção. No entanto, a questão adicional de saber se os nascituros têm o direito de nascer saudáveis agrava o problema de determinar quando o Estado deve intervir para proteger a saúde dos nascituros33 (p. 136).

Para Garcia 33, há uma tendência, em escala global, à criação de dispositivos jurídicos que classifiquem o uso de drogas durante o pré-natal como evidência de negligência e/ou de maus tratos infantis. Esses dispositivos estão ancorados em racionalidades que justapõem os direitos das mulheres aos fetais/infantis, e centrados nesta cisão secundarizam a “necessidade de ajuda” a essas mulheres e majoram os direitos fetais/infantis, cuja garantia só se torna possível, nesta lógica, por meio da custódia do bebê.

Para Olsen 34, o padrão de resposta do Estado centrado em normativas punitivas às questões de saúde, como o uso de drogas durante a gravidez, esvazia o debate sobre questões que atravessam a produção dessas maternidades: “se nosso objetivo é evitar danos às crianças, nosso foco principal deve ser apoiar e não obrigar as mulheres e suas famílias a aderirem aos tratamentos oferecidos pelos serviços sociais34 (p. 29). O autor sugere que as leis que fundamentam a criminalização das maternidades dessas mulheres operam a partir da cisão entre o corpo da mulher/mãe/usuária de drogas, entendido como autora do delito e o corpo do filho compreendido como vítima do uso.

Para Maher & Curits 35, essa forma de construir políticas produz traumas psíquicos na relação mãe/bebê e eleva os custos dos serviços sociais (instituições acolhedoras). Ao focar no controle do dano, as respostas do Estado desviam a atenção da compreensão de como a estrutura de classe, raça e gênero opera sobre os corpos dessas mulheres e acaba por secundarizar a necessidade de uma política nacional de saúde.

Cohen 36, ao estudar a realização de testes toxicológicos durante a gestação, observou que as mulheres eram testadas sem seu o consentimento e sem o conhecimento dos desdobramentos da testagem, com relatos de que caso as mulheres não renunciassem a confidencialidade das relações profissionais de saúde e paciente, os bebês ao nascerem seriam retirados delas e postos em adoção. Para a autora 36, a ideia de que essas mulheres são perigosas aos seus bebês está ancorada na crença de que o uso de drogas produz uma geração inferior, capaz de sobrecarregar os serviços de saúde, assistência social e educação. A despeito da proteção infantil, o discurso de que é preciso salvaguardar as crianças torna mais aceitável a implementação de normas centradas na punição, que além de se imporem como violação institucional de direitos, servem como justificativa para a suspensão de quaisquer direitos femininos 36. A autora considera que tais estratégias produzem rupturas e desconfianças nos vínculos entre profissionais e mulheres.

Esses imbricamentos entre saberes/práticas biomédicas e jurídicas se expressam nos dispositivos normativos. Cohen 36 observa que a negação da autonomia das mulheres sobre o seu corpo, ainda que estas estejam grávidas, e a realização de testagem toxicológica sem o consentimento e o conhecimento dos desdobramentos, além de misógina, caracteriza negligência médica devendo estes serem responsabilizados.

Poland et al. 37 com base no relato das mulheres, discutem que as leis centradas em punição funcionariam para elas como impedimento para a utilização dos serviços de saúde e assistência social durante o pré-natal. Assim, as mulheres apresentariam mais probabilidade de não aderir aos cuidados “por medo de serem encarceradas e de perderem seus filhos37 (p. 202). Com isso, desmontam a crença difundida de que punir o uso de drogas por mulheres durante a gestação contribui para a abstinência.

Os sentidos sobre a maternidade

O debate sobre a maternidade como possibilidade de outros sentidos para as mulheres em situação de rua aparece em 5 dos 21 estudos. Desses, três foram publicados no Brasil 39,40,41 e dois no contexto internacional 42,43. Há nesses estudos um núcleo de sentidos comum que considera a possibilidade de outros modos de caminhar pela vida a partir da vivência/experiência da maternidade.

Nesses estudos 39,40,41,42,43, a maternidade, desde que desejada, representaria um momento de inflexão na vida dessas mulheres, podendo ser o disparador para a construção de outros projetos de vida que tenham a saída das ruas e a interrupção do uso de drogas como metas a serem alcançadas. Contudo, autores como Costa et al. 39 e King et al. 43 reconhecem que a luta cotidiana dessas mulheres para garantir a sobrevivência se torna um entrave para que elas consigam deslocar as intenções, do campo dos desejos, para o planejamento de estratégias efetivas.

Oliveira 40 também aponta que, se por um lado, o desejo de maternar pode favorecer a construção de outros sentidos e projetos de vida, ele por si só não garante sustentabilidade aos projetos em longo prazo, pois pesam sobre essas mulheres as desigualdades geracionais.

Oliveira 40 tem utilizado o conceito de “mãe de rua” para se referir às mulheres/mães que a despeito do desejo e do cuidado com seus filhos vivem um contexto de profunda desproteção social. A “mãe de rua” é uma metáfora que expressa as contradições sociais de gênero 9, pois é socialmente esperado que essas mulheres em nome da “prole” interrompam o uso de drogas e se tornem domiciliadas, assumindo a provisão do bem-estar social com seus filhos sem que as condições estruturais, como políticas habitacionais, favoreçam. Oliveira 40 considera que ao recair sobre as mulheres/mães de rua a responsabilidade pela provisão do bem-estar social dos filhos quase sempre o papel do pai é apagado.

No contexto internacional, King et al. 43 ao analisarem as práticas discursivas dessas mulheres, concluíram que essas maternidades podem representar um “ponto de virada na vida”, desde que as condições políticas-sociais e não apenas os estilos de vida favoreçam. As autoras sugerem ainda que a chegada de um filho pode representar para elas a possibilidade de se projetar no futuro. As mulheres participantes da pesquisa referiram que “...cortar contato com os amigos e não ficar mais no centro da cidade, como parte importante do assumir um papel de mãe43 (p. 145).

Resultado semelhante apresentam Almeida & Quadros 41 ao demonstrar que havia por parte das mulheres entrevistadas certa percepção de que o contexto da rua e o uso de drogas não favorecem o desenvolvimento físico, social e psicológico de seus filhos.

Ressalte-se que a trajetória de vida dessas mulheres é marcada por experiências de violências, perdas prematuras, práticas de sexo desprotegido, questões relativas à saúde mental e dificuldades de acesso a métodos contraceptivos. Para Almeida & Quadros 41 essas vivências atravessam as formas de exercício dessas maternidades que se distanciam do “padrão-ouro” encontrado na literatura e reconhecido como ideal.

O estudo de McClelland & Newell 42 considera que o uso de drogas não necessariamente é preditor de uma maternidade negligente, irresponsável e relapsa, apesar de também reconhecerem que ele pode favorecer a ocorrência de comportamentos que exponham as crianças a riscos desnecessários. Vale ressaltar que a literatura tem relatado casos de mulheres/mães que tendem a orientar a escolha da droga e o desenvolvimento de estratégias para que o consumo não represente danos aos seus filhos.

Maria dos Anjos informou (...) não fazer uso de álcool e cigarros (...) afirmando que esses hábitos não são bons para seus filhos. Elege as drogas que consome com a condição de que não perca a consciência, já que (...) seu maior pavor é que algo aconteça às crianças e que não possa estar em condições de cuidar deles...41 (p. 231).

Ao analisar a história de vida de três mulheres, Almeida & Quadros 41 apontaram que por desejarem o melhor para seus filhos elas a todo o momento negociam o exercício de suas funções maternas “da maneira como podem41 (p. 235). Segundo as autoras, essas mães desejam para seus filhos “destinos/futuros” diferentes dos seus. O estudo mostra que mesmo à margem e exercitando outras formas de demonstrar afeto, carinho, proteção e cuidado, as mulheres participantes da pesquisa “...transbordam sentimentos que configuram outro devir mulher-mãe41 (p. 236).

No que se refere ainda à maternidade como possibilidade de construção de outros projetos de vida, o estudo realizado por Costa et al. 39 sugere que algumas mulheres/mães em situação de rua não desejavam a gravidez, porém, não relatavam uso de preservativo, fato que segundo as autoras indica que as mulheres assumiam a gravidez como uma possibilidade cotidiana. Segundo o estudo 39, ao descobrirem a gravidez muitas mulheres relataram insatisfação, contudo, no decorrer foram ficando felizes. As autoras 39 chamam atenção para o fato de que aceitar a gravidez não significa estabelecer com ela laços afetivos, ou desejos de ficar com a criança e materná-la.

Constata-se um vínculo protetor, com diferentes variações: algumas buscam instituições e pessoas que possam criar seu filho com melhores condições; outras dizem que independente de sua situação atual, desejam ficar com seu filho e criá-lo; outras ainda não demonstram vínculo, o que leva ao abandono da criança39 (p. 1097).

A constatação de diferentes possibilidades de exercício do papel materno entre essas mulheres sugere a existência de uma percepção de que o contexto de rua com a trajetória de uso de drogas não favorece o cuidado a uma criança. Sugere ainda que, ao decidir pela “entrega” para uma instituição ou alguém próximo, com quem muitas vezes consiga manter alguma vinculação com seus filhos, essas mulheres o fazem não por não amá-los, mas justamente por acreditar que estão fazendo o melhor para eles.

Considerações finais

A análise sobre a produção discursiva da ciência a respeito das experiências de maternidade de mulheres em situação de rua possibilitou o reconhecimento das contradições, apagamentos e questões que mobilizam a ascensão do tema. Com base na identificação dos núcleos de sentidos presentes nos textos foi possível analisar como os diferentes saberes - biomédico, jurídico e socioantropológico - produzem discursos científicos e ofertam modos distintos, mas também complementares de olhar para o tema, constituindo um córpus discursivo que muitas vezes torna o discurso de proteção e cuidado ao feto/bebê hegemônico, mas também sinaliza, ainda que de modo marginal, as implicações das desigualdades sociais e os desafios a serem enfrentados para a garantia do direito à maternidade entre as mulheres em situação de rua.

Os estudos reconhecem essas gestações como uma questão de Estado e consideram que há uma centralidade em torno da ideia de proteção ao feto/criança que secundariza o entendimento do contexto de vida dessas mulheres e de suas gestações. A maioria dos estudos passa longe do debate sobre machismo, racismo e pobreza, acionando por vezes raça, gênero e pobreza como variáveis descritivas, esvaziando a dimensão sociológica destes conceitos e a capacidade para colocar em discussão as relações de poder como chaves que ajudam na compreensão da trajetória de vida dessas mulheres e de suas maternidades.

Apesar desse vazio, que não é ao acaso e nem mesmo uma mera coincidência, alguns estudos ressaltam a linha abissal que opera sobre os corpos das mulheres selecionando aquelas que são “autorizadas (e desejável)” a se reproduzir e aquelas que colocadas em esquemas de vigilância constante serão controladas e, até mesmo impedidas de gerar descendentes, comumente mulheres em situação de rua/favelada e, ou usuárias de substâncias psicoativas, pretas e pobres.

Ocorre que quando uma mulher em situação de rua e, ou usuária de drogas transgride a lei e a norma, a destituição do seu poder familiar se impõe, justificada por um conjunto de enunciados ancorados na ideia de riscos ao bebê, aqui abordados especificamente nos estudos do eixo “Riscos à saúde da mulher e do feto/criança”. O discurso de risco é acionado para justificar intervenções sobre os corpos dessas mulheres, e também fundamentar a opção do Estado em sua forma jurídica e assistencial, pelo advocacy em defesa do mais vulnerável. Assim, a hegemonia do discurso biomédico do risco esconde que a separação dessas mulheres de seus filhos é contingência da condição de pobreza e da fragilidade da rede social, comunitária e familiar delas.

Ressalte-se que este debate recai sobre os riscos biomédicos, sobretudo, biológico. É a percepção desse risco que torna possível a inscrição desses corpos no domínio da política, deslocando a gestação dessas mulheres de uma questão da esfera familiar/privada para um problema de Estado, que em última análise arbitra de quem e quais direitos devem prevalecer: os da mulher em situação de rua ou os do feto/criança.

O discurso biomédico sobre o risco ao privilegiar a perspectiva biológica desloca as soluções dos problemas vivenciados por essas mulheres e seus bebês de estratégias coletivas, como políticas de redução das desigualdades (gênero, raça, pobreza, habitação, alimentação etc.), para estratégias individualizantes como abstinência, procedimentos médicos, exames laboratoriais e suspensão do poder familiar.

Destaca-se que no enunciado do risco a associação com as drogas se mostrou constante mesmo sem o uso deste termo - drogas - na estratégia de busca. Esse é mais um aspecto que reforça a ideia, não apenas caricata como equivocada, que discrimina, exclui e associa pessoas em situação de rua ao consumo de drogas.

Um contraponto ao enunciado do risco apresenta-se no discurso sobre o pré-natal, embora tenham sido localizados apenas dois estudos. Tanto no âmbito nacional como no internacional verificou-se estratégias de aproximação e reconhecimento das especificidades que envolvem o cuidado pré-natal a essas mulheres, bem como as barreiras que se impõem por questões estruturais. Os estudos reconhecem que há riscos na maternidade de mulheres em situação rua, mas que o pré-natal pode ser colocado como uma tecnologia de cuidado capaz de reduzir riscos, numa aposta na organização de um cuidado intersetorial, territorializado, humanizado, operado por tecnologias leves e leve-dura. Ainda assim, ressaltam que um pré-natal realizado (ou não) em tempo oportuno e protocolar não é necessariamente indicador da capacidade futura de maternagem dessas mulheres.

A literatura examinada apontou que as soluções para as tensões entre os direitos das mulheres e os do feto/criança implica a coerção/punição e a oferta (obrigatória) de assistência com foco no bem-estar infantil. Santos et al. 9, em trabalho recente, chamam atenção para o fato de que mesmo em serviços de saúde do SUS, orientado por valores altruístas e humanitários, mulheres em situação de rua usuárias de drogas são estigmatizadas e culpabilizadas por sua condição de pobreza e de uso de drogas. Os autores indicam que ainda impera na organização dos serviços o ideal da mulher dona de casa, boa esposa e mãe virtuosa.

Nesse contexto, as ações assistenciais, a despeito do cuidado ao feto/criança ou mesmo à mulher, por mais bem intencionadas que possam ser, não estão isentas de criar outras situações de violência além daquelas já presentes no contexto de rua e na trajetória de vida dessas mulheres 3. A contradição dessas práticas seria a produção da “perversidade do ‘ato do bem'” 19 em que a cidadania esbarra nos limites das leis.

Na esteira dessas contradições há uma importante contribuição dos estudos na denúncia das graves violações que sofrem essas mulheres e a necessidade de pautar limites às ações do Estado, inclusive para que este não cometa excessos em sua intervenção. Os trabalhos revelam que a criminalização dessas maternidades tem sido uma tendência global em que a expansão dos direitos “fetais/infantis” significa a retração dos direitos das mulheres, o que faz com que elas não busquem os serviços sociais e de saúde.

Assim, “De quem é esse bebê?”, pergunta que dá título a este artigo, não é uma questão simples e sua resposta, via de regra, exige uma complexa atividade de articulação entre as dimensões da vida humana que estão profundamente interligadas, desde os processos macropolíticos que mantêm a reprodução das condições estruturais que atravessam os modos de vida na rua, como, por exemplo, a pobreza, o racismo e o patriarcado, até os processos subjetivos que dizem respeito ao sentido da maternidade e da rua na vidas dessas mulheres. Torna-se um imperativo ético e humanitário pensar outros modos de cuidar, ancorados na perspectiva dos direitos humanos, para que a assistência ao feto/criança não se traduza em violência às mulheres.

Agradecimentos

Os autores agradecem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ao Programa de Excelência Acadêmica/Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Proex/CAPES) e ao Programa Bolsa Nota 10 da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), pelo financiamento da bolsa de Doutorado em Saúde Pública possibilitando a realização do estudo.

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