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Cadernos de Saúde Pública

ISSN 1678-4464

37 nº.4

Rio de Janeiro, Abril 2021


COMUNICAÇÃO BREVE

Prevalência de anemia e deficiência de vitamina A e consumo de ferro e de vitamina A entre crianças usuárias do Sistema Único de Saúde na cidade do Rio de Janeiro, Brasil

Inês Rugani Ribeiro de Castro, Alessandra da Silva Pereira, Letícia Barroso Vertulli Carneiro, Letícia de Oliveira Cardoso, Flávia Fioruci Bezerra, Marta Citelli, Juliana Martins Oliveira, Patricia Afonso Maia, Milena Miranda de Moraes, Jose Firmino Nogueira Neto, Ana Carolina Feldenheimer da Silva, Jorginete de Jesus Damião

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00252420


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RESUMO
Estratégias nacionais para o controle de anemia e deficiência de vitamina A em crianças estão baseadas em estimativas de suas prevalências produzidas em âmbito nacional em 2006 com métodos não validados para este grupo etário e com nível de desagregação para macrorregiões. Com o intuito de subsidiar a gestão local para o (re)direcionamento de medidas de controle desses agravos, o presente trabalho apresenta estimativas de sua prevalência e, também, de marcadores de consumo alimentar de fontes de micronutrientes e do uso de suplementos de vitaminas e minerais em amostra probabilística de crianças de 6 a 59 meses, usuárias da atenção básica de saúde do Município do Rio de Janeiro, Brasil (n = 536). Foram coletadas amostras de sangue venoso para análise de hemoglobina, ferritina e retinol sérico e dados sobre o consumo alimentar, o uso de suplementos de vitaminas e minerais e as características sociodemográficas. As prevalências de anemia, anemia ferropriva e deficiência de vitamina A foram de, respectivamente, 13,7%, 5,5% e 13%. Quase todas as crianças haviam consumido alimentos ricos em ferro no dia anterior à entrevista, sendo altas as prevalências de consumo de fontes de origem animal. Somente 49,4% haviam consumido alimentos ricos em vitamina A. As prevalências de uso de algum suplemento, de suplemento com ferro e com vitamina A foram de, respectivamente, 51%, 14,7% e 24,4%. Os resultados apontam a necessidade de redirecionamento das estratégias de prevenção e controle de anemia e deficiência de vitamina A. Estudos futuros são necessários para examinar a evolução desses indicadores, tendo em vista as políticas de austeridade que entraram em vigor nos últimos anos e a crise econômica decorrente da pandemia da COVID-19.

Anemia; Deficiência de Vitamina A; Micronutrientes; Pré-Escolar; Inquéritos Epidemiológicos


 

Introdução

Mundialmente, a anemia e a deficiência de vitamina A em crianças menores de cinco anos seguem sendo agravos prioritários na agenda da saúde pública. Em 2011, mais de 40% delas apresentavam anemia 1, e a prevalência de deficiência de vitamina A entre 1995-2005 era superior a 30% 2.

No Brasil, o Ministério da Saúde desenvolve estratégias para o controle desses agravos 3 com base nos resultados da última Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS 2006) 4, que apontou prevalências de 20,9% e 17,4% para anemia e deficiência de vitamina A, respectivamente, em crianças menores de cinco anos. Na Região Sudeste, as prevalências eram de 22,6% para anemia e 21,6% para deficiência de vitamina A, o que, segundo o protocolo do Ministério da Saúde alinhado às diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) 5 (prevalência de deficiência de vitamina A superior a 20%), tornava a região elegível para a ampliação da cobertura do programa de suplementação profilática com megadoses de vitamina A. Entretanto, o desenho amostral da PNDS não permite a desagregação dos resultados em nível municipal ou estadual.

Estudos locais, de diferentes regiões do país, indicam redução de anemia e deficiência de vitamina A em crianças nos últimos 15 anos 6,7,8,9, o que sugere a oportunidade e a necessidade de realização de pesquisas locais em diferentes cenários para se conhecer a situação desses agravos.

O presente estudo foi realizado com o intuito de subsidiar gestores locais na tomada de decisão sobre o (re)direcionamento de medidas para o controle da anemia e da deficiência de vitamina A. São aqui apresentadas as estimativas de prevalência desses agravos e descritos os marcadores de consumo alimentar de fontes de micronutrientes e do uso de suplementos de vitaminas e minerais entre crianças menores de 5 anos, usuárias da atenção básica do Município do Rio de Janeiro, Brasil.

Métodos

Estudo seccional com amostra probabilística de crianças usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS) da cidade do Rio de Janeiro, com idades entre 6 e 59 meses, com seleção em dois estágios (estratificação das unidades básicas de saúde (UBS) por porte e sorteio de crianças destas unidades com base no cadastro de usuários). Foram excluídas as crianças portadoras de doença falciforme ou hepatopatias. Detalhes sobre a amostragem estão disponíveis em Carneiro et al. 10.

Em data pré-agendada, nas UBS sorteadas, pesquisadores treinados coletaram amostra de sangue por punção venosa, mediante jejum superior a quatro horas, e aplicaram aos responsáveis das crianças um questionário com perguntas sobre: caracterização sociodemográfica, acesso a benefício financeiro governamental, segurança alimentar e nutricional em nível domiciliar, uso de suplementos (no momento da pesquisa ou nos quatro meses que a antecederam: uso [sim/não], nome comercial, dose ministrada, periodicidade), aleitamento materno e consumo alimentar (alimentos marcadores de alimentação saudável e não saudável, baseados em listagem do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional - SISVAN 11, consumidos no dia anterior à pesquisa [sim/não]). Neste estudo, foram consideradas as perguntas referentes a consumo de alimentos fontes de ferro (carnes, ovos, fígado, leguminosas) e de vitamina A (hortaliças e frutas de cor alaranjada, hortaliças folhosas de cor verde escura).

O retinol sérico foi analisado por cromatografia líquida de alta eficiência 12. A dosagem de hemoglobina foi realizada em aparelho hematológico automatizado (Coulter T890. Beckman Coulter Inc., Estados Unidos). A ferritina foi dosada por turbidimetria/látex. Foram considerados deficiência de vitamina A, anemia e anemia ferropriva valores inferiores aos seguintes pontos de corte, respectivamente: 0,70μmol/L 2 de retinol sérico, 11g/dL de hemoglobina e 12μg/L de ferritina sérica na presença de anemia 1.

As análises estatísticas foram realizadas no módulo complex samples do programa SPSS versão 19.0 (https://www.ibm.com/), considerando-se o efeito do desenho amostral. Foram calculados os intervalos de 95% de confiança (IC95%) para a comparação das frequências das variáveis entre as faixas etárias (< 24 e ≥ 24meses).

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (SMSRio nº 93/13) e financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq, processos 480804/2013-3 e 420247/2016-5) e pela SMSRio.

Resultados

As características da amostra estudada (n = 536) estão descritas na Tabela 1. As prevalências de anemia, anemia ferropriva e deficiência de vitamina A foram, respectivamente, 13,7%, 5,5% e 13%. As prevalências de anemia e anemia ferropriva foram mais altas entre crianças < 24 meses quando comparadas às ≥ 24 meses. Já para a deficiência de vitamina A, não houve diferença estatisticamente significativa entre as faixas etárias Tabela 2.

 

 

Tab.: 1
Tabela 1 Caracterização sociodemográfica da amostra estudada (n = 536). Crianças de 6 a 59 meses de idade usuárias de unidades básicas de saúde. Município do Rio de Janeiro, Brasil, 2014.

 

 

 

Tab.: 2
Tabela 2 Prevalências de anemia e deficiência de vitamina A segundo faixa etária entre crianças de seis a 59 meses de idade, usuárias de unidades básicas de saúde. Município do Rio de Janeiro Brasil, 2014.

 

Quase todas as crianças haviam consumido alimentos ricos em ferro no dia anterior à entrevista, sendo altas as prevalências de consumo de fontes de origem animal. Por outro lado, somente 49,4% haviam consumido alimentos ricos em vitamina A Tabela 3. Os dois grupos analisados apresentaram perfis semelhantes de consumo desses alimentos. As prevalências de uso de algum suplemento e de suplemento com ferro e com vitamina A foram de, respectivamente, 51%, 14,7% e 24,4%, sendo sempre mais altas entre crianças < 24 meses Tabela 3.

 

 

Tab.: 3
Tabela 3 Consumo de alimentos fontes de ferro e de vitamina A e uso de suplementos de micronutrientes entre crianças de seis a 59 meses de idade, usuárias de unidades básicas de saúde. Município do Rio de Janeiro, Brasil, 2014.

 

Discussão

As prevalências de anemia e deficiência de vitamina A foram menores do que aquelas estimadas pela PNDS 2006, tanto para o Brasil quanto para a Região Sudeste 4, e corroboram os achados de estudos locais realizados nos últimos 15 anos 6,7,8,9.

Além das diferenças metodológicas entre o nosso estudo e a PNDS 2006, alguns eventos ocorridos entre 2006 e 2014 (ano da coleta de dados) podem explicar, ao menos em parte, esta diferença: o aumento da prática de aleitamento materno exclusivo até os 6 meses de idade e de aleitamento materno entre crianças menores de 24 meses 13, a ampliação da atenção básica à saúde no país e no município estudado 14 e a ampliação da cobertura do Programa Bolsa Família 15. Medidas de fortificação de farinhas não parecem explicar o resultado encontrado 16.

Embora ações de suplementação de ferro possam ter contribuído para essa melhoria, não se pode atribuir a elas o expressivo impacto na realidade estudada, tendo em vista que a cobertura de uso de suplementos com este nutriente era baixa (14,7%), mesmo entre crianças < 24 meses (26,8%), grupo etário mais vulnerável. Por outro lado, embora o programa de suplementação profilática com megadoses de vitamina A não estivesse implantado na rotina das UBS do município estudado, 24,4% das crianças faziam uso de suplementos que continham este nutriente.

Os indicadores de consumo alimentar sugerem que o consumo de alimentos fonte de ferro pode estar contribuindo para a menor magnitude da anemia. Por outro lado, apontam a importância de se reforçarem ações de Promoção da Alimentação Adequada e Saudável que estimulem o consumo de alimentos ricos em vitamina A.

Este estudo apresenta informações sobre as prevalências de deficiências de micronutrientes baseadas em métodos considerados padrão-ouro para a identificação destes agravos. Além disso, embora não seja representativa de toda a população de crianças moradoras no Rio de Janeiro, a amostra representa as crianças usuárias do SUS neste município, favorecendo a validade externa dos resultados para realidades similares.

A prevalência de deficiência de vitamina A encontrada indica que a implementação da estratégia de suplementação universal de vitamina A não se justificaria no cenário epidemiológico encontrado. Com base nesses achados, essa estratégia não foi implementada.

Os resultados deste estudo indicam a importância de se produzirem evidências atualizadas para a orientação de políticas públicas e de, sempre que possível, produzi-las também em nível local. Estudos futuros são necessários para examinar a evolução dos indicadores aqui descritos, tendo em vista as políticas de austeridade que entraram em vigor nos últimos anos, além da crise econômica decorrente da pandemia da COVID-19.

Agradecimentos

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq 480804/2013-3; 420247/2016-5) e à Secretaria Municipal de Saúde Rio de Janeiro.

Referências

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2.   World Health Organization. Global prevalence of vitamin A deficiency in populations at risk 1995-2005. Geneva: World Health Organization; 2009.
3.   Secretaria de Atenção à Saúde, Ministério da Saúde. Prevenção e controle de agravos nutricionais. https://aps.saude.gov.br/ape/pcan (acessado em 15/Dez/2020).
4.   Ministério da Saúde. Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher - PNDS 2006: dimensões do processo reprodutivo e da saúde da criança. Brasília: Ministério da Saúde; 2009. (Série G. Estatística e Informação em Saúde).
5.   Departamento de Atenção Básica, Secretaria de Atenção à Saúde, Ministério da Saúde. Manual de condutas gerais do Programa Nacional de Suplementação de Vitamina A. Brasília: Ministério da Saúde; 2013.
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