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Cadernos de Saúde Pública

ISSN 1678-4464

37 nº.3

Rio de Janeiro, Março 2021


ESPAÇO TEMÁTICO

COVID-19, vulnerabilidade social e saúde mental das populações LGBTQIA+

Geovani Bordiano, Suzana Pacheco Liberal, Giovanni Marcos Lovisi, Lucia Abelha

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00287220


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Um importante aspecto observado durante a evolução da pandemia por COVID-19 é a relação entre vulnerabilidade social e maiores prevalência e letalidade do vírus 1. Os contrastes dessa mortalidade entre os mais pobres e mais ricos evidenciam como as desigualdades sociais impactam de forma direta a saúde da população brasileira e tornam mais vulneráveis determinados grupos sociais 1.

Para além dos danos à saúde já conhecidos, a pandemia pode ser considerada um evento traumático e, assim, gerar graves consequências à saúde mental da população como um todo, tais quais insônia, depressão, reações de medo e raiva, abuso de substâncias, reações agudas ao estresse e transtorno do estresse pós-traumático 2. Desse modo, a pandemia pode ser entendida como um catalisador para o adoecimento mental, especialmente para as populações mais vulneráveis.

As minorias sexuais e de gênero, ou seja, as pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros, queers, intersexuais, assexuais e outros (LGBTQIA+) sofreram, e ainda sofrem, um grave processo de exclusão social ao longo da história das sociedades contemporâneas 3. Uma das consequências desse fato é a piora do estado de saúde mental desses grupos.

Aspectos como baixa escolaridade, baixo nível socioeconômico, violência e dificuldades de acesso aos serviços de saúde estão intimamente relacionados às minorias sociais e, ao mesmo tempo, têm sido considerados fatores de risco para transtornos mentais comuns na população em geral 4,5. De forma adicional, outros fatores de risco à saúde mental são específicos desses grupos marginalizados: o preconceito (ou LGBTQIA+fobia) 6, a falta de proteção institucionalizada, a rejeição familiar e o bullying7. Toda essa conjuntura social coopera para a fragilização e vulnerabilidade dessas minorias.

Portanto, estudos nacionais e internacionais 8,9,10,11,12,13,14 revelam que as minorias sexuais e de gênero, quando comparadas à população não LGBTQIA+, possuem maiores prevalências de depressão e ansiedade, maior risco para o suicídio e fazem uso mais intenso de substâncias psicoativas.

 

Pandemia, saúde mental e populações LGBTQIA+

Em recente investigação nacional 13, realizada com cerca de 9 mil participantes, que objetivou averiguar os maiores impactos da pandemia para a população LGBTQIA+, 42,72% dos entrevistados elencaram a saúde mental como o principal impacto vivenciado durante este período, seguida de “novas regras de convívio”, “solidão”, “convívio familiar” e “falta de emprego e dinheiro”.

Dentre as razões que tornam os LGBTQIA+ mais vulneráveis em momentos como o atual, podemos citar os altos índices de violências a que estão submetidos cotidianamente. Apesar da carência de dados, números levantados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) no Atlas da Violência15 mostram um aumento de 127% das denúncias de homicídio de LGBTQIA+ em 2018 no Brasil. Além disso, uma das mais importantes medidas sanitárias preconizadas pelos órgãos de saúde tem sido o distanciamento social que, no caso dos LGBTQIA+, pode significar permanecer confinado junto a agressores em potencial, frequentemente as suas próprias famílias ou parceiros íntimos 11,12,13,16.

O aumento da violência doméstica em decorrência das medidas de isolamento social tem sido trazido à tona nas discussões 17, mas geralmente com foco exclusivo nas mulheres cisgênero heterossexuais. No entanto, é importante enfatizar que dentre os homicídios por LGBTQIA+fobia no Brasil, a residência da vítima é o segundo local de maior ocorrência de assassinatos 18, sendo as pessoas transsexuais, transgêneros e travestis alvos preferenciais deste tipo de violência, seguidos das lésbicas e então dos homens gays 16.

Outro fator de vulnerabilidade é o socioeconômico, permeando renda e vínculos trabalhistas. É sabido que a pandemia tem causado perda de empregos e precarização de vínculos empregatícios já frágeis, o que poderá agravar a situação socioeconômica dessas populações 11,12. Um estudo estadunidense 19 aponta que a maior parcela dessa população no país faz parte do mercado informal e também possui ocupações potencialmente mais expostas aos SARS-CoV-2, como trabalho em bares e restaurantes, além de terem menor renda e menores condições de acesso à saúde. No Brasil, quando se considera apenas as populações de transgêneros, transexuais e travestis, a vulnerabilidade é ainda maior dadas as especificidades destes grupos 12. Um estudo realizado com 672 transexuais no Estado de São Paulo revelou que, entre 2014 e 2015, apenas 16,7% estavam no mercado formal 20 e, ainda, muitos trabalhavam como profissionais do sexo 21. Em relação à população homossexual e bissexual, uma revisão sistemática internacional 22 aponta que homens gays e bissexuais recebem menos que seus colegas heterossexuais. Além disso, a taxa de desemprego nessa população, encontrada por uma pesquisa 13, é de 21,6% no Brasil e, durante a pandemia, 44,3% sofreram uma paralisação total de suas atividades.

Outro importante ponto posto em fragilidade para os LGBTQIA+ durante a pandemia é a vida social. Como são por vezes rechaçados no núcleo familiar, um importante mecanismo de resistência e sobrevivência desses grupos está no vínculo que estabelecem com as suas comunidades, de forma que um grave impacto vivenciado por esses sujeitos está na impossibilidade, dadas as medidas de distanciamento social, de um contato mais ativo e presencial com seus afetos e territórios, o que leva a uma experiência de isolamento e solidão 11,12,13.

Diante de tantos pontos que comprometem a saúde mental das pessoas LGBTQIA+, torna-se indispensável que as autoridades definam estratégias de cuidado para este momento.

O Ministério da Saúde, em sua cartilha sobre suicídio na pandemia por COVID-19 23, elenca alguns fatores de alerta que merecem especial atenção, entre eles: problemas de saúde mental preexistentes, com destaque para a depressão e a ansiedade; uso de álcool e/ou outras drogas; ausência de apoio social; existência de hostilidade no ambiente familiar; e sofrimento e inquietações sobre a própria sexualidade. Em outra cartilha 24, que trata das recomendações para os gestores, o Ministério da Saúde ressalta que um dos pontos que deve receber atenção é a identificação dos grupos vulneráveis do ponto de vista psicossocial, e destaca diversas recomendações que podem ser instituídas pelos gestores durante a pandemia para garantir o acesso à saúde mental dessa população. Contudo, é notório que apesar de sua importância, a existência de instrumentos legais, de orientações e normativos, não é suficiente para a garantia do acesso da população aos seus direitos.

Não raras vezes esses grupos são expostos ao preconceito mesmo nos serviços de saúde, o que pode levar à diminuição da procura e da aderência a tratamentos 25,26. Assim, observa-se que a heteronormatividade presente nos diversos campos assistenciais produz uma desvalorização ou o não reconhecimento dessas identidades, contribuindo para a perpetuação de violências e discriminações que afetam as condições de acesso e qualidade da assistência à saúde 27. Um estudo 27 relata que as principais dificuldades no acesso aos serviços de saúde para esse público estão relacionadas ao receio de sofrerem preconceitos e ao medo de revelar a orientação sexual, sendo esta informação muitas vezes omitida nos atendimentos.

No Sistema Único de Saúde (SUS), a atenção especializada em saúde mental é realizada por meio da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), que encontra nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) um de seus principais serviços 28. No entanto, é importante enfatizar que a RAPS enfrenta obstáculos significativos, como insuficiência de equipamentos em algumas regiões e municípios brasileiros 29, o que leva a longas filas de espera, e problemas de referência e contrarreferência 30. É notória, ainda, diante do grande percentual de discriminação sofrida em serviços de saúde, demonstrado em estudos 31, a carência de qualificação dos profissionais de saúde para lidarem com os sofrimentos transversais à sexualidade.

Considerando esses dados, é possível dizer que a saúde mental das minorias sexuais e de gênero carece, não apenas de atenção específica em termos de políticas públicas emergenciais de saúde durante a pandemia, mas, sobretudo, de mobilização e de ações concretas. Todavia, o que se atesta é uma profunda invisibilidade da questão por parte do Estado e, por vezes, também pela academia 32, durante um momento de extrema necessidade. É urgente, além disso, que a discussão tome os espaços sociais e que a população LGBTQIA+ seja ouvida e vista, inclusive para que a situação atual sirva de lição para momentos futuros.

Referências

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