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Cadernos de Saúde Pública

ISSN 1678-4464

37 nº.3

Rio de Janeiro, Março 2021


RESENHA

Relações de trabalho e a saúde do trabalhador durante e após a pandemia de COVID-19

Graziella Lage Oliveira, Adalgisa Peixoto Ribeiro

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00018321


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OS IMPACTOS DA PANDEMIA PARA O TRABALHADOR E SUAS RELAÇÕES COM O TRABALHO. Moares MM, organizadora. Porto Alegre: Artmed; 2020. 77 p. (Coleção O Trabalho e as Medidas de Contenção da COVID-19: Contribuições da Psicologia Organizacional e do Trabalho, 2). ISBN: 978-88-7223-315-3.

 

A pandemia de COVID-19 suscitou ações de prevenção que impactaram fortemente a vida, a saúde e o trabalho. Entre elas o distanciamento físico, o fechamento de setores da economia, a adoção do trabalho remoto e as medidas de higiene pessoal. Além das consequências biomédicas, a pandemia trouxe consigo desemprego, precarização das condições e vínculos de trabalho, aumento da jornada sem aumento dos rendimentos, custos adicionais para os trabalhadores 1 e problemas psicoemocionais 2.

Com o objetivo de colaborar com as reflexões e as ações necessárias nesse contexto desafiador, o livro Os Impactos da Pandemia para o Trabalhador e suas Relações com o Trabalho é parte da coletânea organizada pela Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho, e aborda a temática com base em olhares e experiências de 19 pesquisadores da área.

A primeira discussão diz respeito à fragilização dos vínculos que se estabelecem nos relacionamentos com as pessoas e as organizações (comprometimento, entrincheiramento, consentimento e enraizamento). A tênue fronteira entre o trabalho e a vida, condição aflorada pelo trabalho remoto, impacta nos níveis e formas de manifestação dos vínculos, repercutindo na saúde mental dos indivíduos. As mudanças nos vínculos podem ser mais ou menos traumáticas dependendo de determinantes sociais como a cor da pele, o gênero e a classe social dos trabalhadores. Nesse contexto, sentimentos como medo, culpa e frustração afetam os trabalhadores e os vínculos que podem ser interrompidos ou exacerbados.

“Arranjos alternativos de trabalho diante da COVID-19” é outro tema relevante abordado no livro. Contempla trabalhadores autônomos e informais em uma multiplicidade de configurações do trabalho (trabalho contingencial, crowdsourcing, pejotização, uberização), que se caracterizam pela individualização, fragilização das relações contratuais, flexibilização do tempo e deslocalização do trabalho. Para esses trabalhadores a pandemia gerou diminuição da demanda de trabalho e de rendimentos, ampliando suas vulnerabilidades, reavivando debates sobre renda mínima e políticas de apoio social; a transferência de custos de treinamento, desenvolvimento, equipamentos, insumos e manutenção para os trabalhadores; e a exposição ao risco de contaminação, agravado pelas barreiras de acesso à seguridade social.

Nesse sentido, a pandemia amplificou a precarização do trabalho e abriu espaço para novos estressores. Ao discutir “saúde mental e qualidade de vida no trabalho”, os autores destacam grupos profissionais que vivenciam torções deflagradas pela pandemia, como os professores, forçados a se moverem da atividade presencial clássica à educação a distância. Enfrentar as crises que transcendem a dimensão sanitária e repercutem na dimensão do trabalho envolve considerar as experiências individuais, mas também a dinâmica do coletivo em relação a estas vivências. Assim, são lembrados os “médicos”, “professores”, “coveiros” e “policiais”, mas indubitavelmente os trabalhadores de estabelecimentos farmacêuticos e alimentícios (supermercados e padarias) que, considerados serviços essenciais, vivenciam crises das mais diversas ordens. O registro de casos de COVID-19 tem sido maior entre os trabalhadores do comércio, empregadas domésticas e trabalhadores da indústria, como motoristas de caminhões de transporte de carga e pedreiros 3.

O tema da informalidade, forte característica do trabalho no Brasil, foi abordado no livro com pouco destaque para o contexto pandêmico. Considerando os determinantes do trabalho informal (desemprego, falta de políticas de amparo aos trabalhadores e precarização do trabalho), os autores discutem as funções e discursos vigentes sobre a uberização do trabalho e o empreendedorismo, usado como “saída privilegiada ao desemprego”. Discutem ainda a diversidade de significações e a centralidade do trabalho na vida; a liberdade e o acesso imediato à renda; e a convivência entre competição e cooperação entre trabalhadores informais.

O contexto pandêmico gerou “novas demandas de aprendizagem” aos trabalhadores. A rápida adaptação ao trabalho remoto de caráter compulsório não foi acompanhada ou precedida de preparação material ou psicológica. Trabalhadores e gestores foram impelidos a adquirir habilidades afetivas para a comunicação mediada por tecnologias, assertividade para buscar ajuda e suporte social de colegas e superiores, aprender a regular os tempos de trabalho e descanso, equilibrar as atividades do trabalho com as domésticas e regular os diversos estados afetivos que o isolamento exacerbou.

A criatividade e a proatividade são apontadas como novas soluções para o trabalho em resposta à pandemia. A criatividade pode auxiliar no enfrentamento do novo, na adaptação ao ritmo acelerado das mudanças. A proatividade envolve uma atitude voltada para o futuro que extrapola a realização da atividade atribuída. Ambas permitem que o trabalhador identifique oportunidades, aja sobre elas e desenvolva novos métodos de trabalho aprimorando o seu desempenho.

Do ponto de vista organizacional, fomentar e estimular a criatividade dos trabalhadores permite às empresas uma melhor adaptação ao contexto de crise, e aos trabalhadores a sensação de pertencimento e capacidade de contribuir efetivamente. Para promover a criatividade, apontam-se fatores individuais (habilidades, motivações, personalidade); organizacionais (cultura e clima organizacional); sociais ligados ao trabalho (relação com líderes e pares); e relacionados à autonomia e demais características do trabalho.

As implicações da pandemia para as carreiras dos trabalhadores são destacadas com base na necessidade de compreender os efeitos das diferenças sociais e consequentes injustiças no desenvolvimento das carreiras em um contexto pós-pandemia, que pode variar de acordo com a modalidade contratual do trabalhador (formal x informal), gênero, etnia e setor produtivo.

Um dos pontos fortes do livro é a abordagem de determinantes sociais que implicam a maior vulnerabilidade para algumas categorias profissionais, particularmente para trabalhadores com vínculos e relações instáveis de trabalho. Assim como afirmam Santos et al. 3, a pandemia de COVID-19 descortinou uma conjuntura de perdas relevantes de direitos trabalhistas e previdenciários, que somadas às desigualdades sociais e às iniquidades em saúde expõem os trabalhadores a riscos pessoais e coletivos.

Como perspectivas futuras, o livro alerta que a evolução dos modelos de trabalho seguirá a evolução e a transformação digital, que certamente vai propiciar contextos de trabalho globalizados, pois a mobilidade será um requisito dispensável. Espera-se ainda um aumento de vínculos alternativos de trabalho, precarização e informalidade, com a permanência do modelo exploratório mediado pelos aplicativos, relação que mascara a responsabilidade das empresas e amplia as desigualdades pela ausência de garantias 2.

Para o contexto do trabalho remoto e teletrabalho, apontam a necessidade de: (1) prezar pela participação e protagonismo dos trabalhadores na busca por soluções inovadoras, possibilidades de regulação/gestão e treinamento; (2) realizar diagnóstico organizacional para fundamentar planejamento, operacionalização, avaliação e replanejamento da promoção da saúde mental e física dos trabalhadores; (3) adequar a avaliação de desempenho e controle dos resultados às condições de produção (trabalho remoto e teletrabalho) para oferecer suporte organizacional e reduzir os riscos; (4) implementar programas de qualidade de vida no trabalho customizado, envolvendo todos os atores e com responsabilidade institucional; e (5) promover a aprendizagem e o desenvolvimento de habilidades (sociais, afetivas, gerenciais e instrumentais).

Finalizam o livro apontando que em contextos de emergência mundial como uma pandemia, é fundamental estimular a criatividade no ambiente de trabalho; propiciar um ambiente de aprendizado e autonomia dos trabalhadores; promover o diálogo, feedbacks e encorajamento, usando recompensas e metas realistas no contexto remoto.

Recomenda-se a leitura a gestores de recursos humanos, psicólogos e médicos do trabalho, além de gestores públicos e pesquisadores da área da Saúde Coletiva.

Referências

1.   Abilio LC, Almeida PF, Amorim H, Cardoso ACM, Fonseca VP, Kalil RB, et al. Condições de trabalho de entregadores via plataforma digital durante a COVID-19. Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano 2020; 3:1-21.
2.   Souza DO. As dimensões da precarização do trabalho em face da pandemia de Covid-19. Trab Educ Saúde 2021; 19:e00311143.
3.   Santos KOB, Fernandes RCP, Almeida MMC, Miranda SS, Mise YF, Lima MAG. Trabalho, saúde e vulnerabilidade na pandemia de COVID-19. Cad Saúde Pública 2020; 36:e00178320.

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