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Cadernos de Saúde Pública

ISSN 1678-4464

36 nº.Suplemento 3

Rio de Janeiro, 2020


COMUNICAÇÃO BREVE

Relação entre trabalho antes da epidemia e ter saído para trabalhar durante esse período entre participantes do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros: resultados da iniciativa ELSI-COVID-19

Camila Menezes Sabino de Castro, Camila Teixeira Vaz, Bruno de Souza Moreira, Juliana Vaz de Melo Mambrini, Juliana Lustosa Torres, Luciana de Souza Braga, Fabíola Bof de Andrade, Maria Fernanda Lima-Costa

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00193320


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RESUMO
O objetivo do estudo foi examinar a prevalência e fatores associados a ter saído para trabalhar durante a epidemia da COVID-19, entre adultos com 50 anos ou mais que exerciam trabalho remunerado antes do seu início. Foram utilizados dados da segunda onda do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), conduzida por meio de entrevista face a face, entre agosto de 2019 e março de 2020 (antes do início da epidemia), em amostra nacional representativa de adultos com 50 anos ou mais, e dados obtidos por meio de entrevistas telefônicas realizadas entre esses participantes (iniciativa ELSI-COVID-19), conduzidas entre 26 de maio e 8 de junho de 2020 (durante a epidemia). As análises foram baseadas nas odds ratios (OR) estimadas pela regressão logística. A média de idade dos participantes foi 59,9 anos (DP = 6,5). A prevalência de ter saído para trabalhar nos sete dias anteriores foi de 38,4% (IC95%: 31,3-46,1), 50,2% entre os homens e 25,1% entre as mulheres (trabalho formal, por conta própria e informal). Os resultados mostraram que, entre os homens, a chance de ter saído para trabalhar foi menor entre aqueles de 60 a 69 anos em comparação com aqueles de 50 a 59 anos (OR = 0,27; IC95%: 0,15-0,48). Entre as mulheres, a probabilidade de ter saído para trabalhar foi menor entre aquelas que trabalhavam por conta própria (OR = 0,28; IC95%: 0,12-0,64) ou tinham vínculo informal de trabalho antes da epidemia (OR = 0,25; IC95%: 0,09-0,69), em comparação àquelas com vínculo formal de trabalho. Uma das hipóteses para explicar essa associação é que as mulheres com vínculo informal tenham sido dispensadas e aquelas que trabalhavam por conta própria tenham deixado de trabalhar durante a epidemia.

Envelhecimento; COVID-19: Trabalho; Inquéritos Epidemiológicos


 

Introdução

A epidemia da COVID-19, causada pelo SARS-CoV-2 1, espalhou-se rapidamente nos países, caracterizando-se como emergência de saúde pública de importância global 2. No final de julho, no mundo, o número de casos confirmados da COVID-19 somava mais de 18 milhões, com mais de 600 mil óbitos registrados 2. No Brasil, no mesmo período, eram mais de 2,5 milhões de casos, sendo, aproximadamente, 90 mil óbitos 2.

Para conter a velocidade de disseminação da doença e sua letalidade, muitos governos têm declarado emergências de saúde, recomendando o distanciamento social, com orientações para que as pessoas fiquem em casa, com restrições de viagens e fechamento de escolas e de serviços não essenciais 3. Nesse cenário, a epidemia tem causado impactos sanitários e econômicos na organização familiar e da sociedade, assim como no mercado de trabalho. No Brasil, medidas como auxílio para trabalhadores informais e autônomos, flexibilização das leis trabalhistas, além da redução de jornadas de trabalho e de salários foram anunciadas para minimizar esses impactos, bem como para estimular e permitir que trabalhadores, principalmente aqueles do grupo de risco, permaneçam em casa 4. No entanto, segundo relatório de mobilidade realizado pelo Google, até final de junho, o país tinha reduzido apenas 22% da mobilidade nos trajetos para o trabalho 5.

A gravidade dos sintomas da COVID-19 afeta desproporcionalmente as pessoas mais velhas 2. Nesse contexto, conhecer os fatores que levam os adultos mais velhos a saírem de casa para trabalhar torna-se necessário para que políticas públicas eficazes sejam implementadas, com o intuito de impedir ou desacelerar a expansão da epidemia no país e suas consequências para todas as idades, particularmente os mais velhos. Portanto, o objetivo deste estudo foi examinar a prevalência de ter saído para trabalhar durante a epidemia da COVID-19, entre adultos brasileiros mais velhos que trabalhavam antes do surgimento da epidemia; objetiva-se também examinar os fatores associados a esse comportamento.

Métodos

Fonte de dados e amostra

Foram utilizados dados dos participantes da segunda onda do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil) e do inquérito telefônico sobre o coronavírus (iniciativa ELSI-COVID-19). O ELSI-Brasil é uma coorte de base domiciliar, cuja amostra foi delineada para representar a população brasileira com 50 anos ou mais de idade. A amostragem utilizou um delineamento complexo, combinando estratificação por municípios, setores censitários e domicílios. A linha de base da pesquisa foi conduzida em 2015-2016, com 9.412 participantes. A segunda onda do ELSI-Brasil iniciou em agosto de 2019, sendo interrompida em março de 2020, devido à epidemia, com 9.144 entrevistas finalizadas. A iniciativa ELSI-COVID-19, conduzida entre 26 de maio e 8 de junho de 2020, incluiu informações sobre razões para sair de casa na última semana, com opção de resposta “para trabalhar”. Foram elegíveis para este estudo todos os participantes do ELSI-Brasil que exerciam trabalho remunerado antes da epidemia. Trabalho remunerado foi considerado como exercício de qualquer atividade com remuneração em dinheiro, produtos, mercadorias ou benefícios. Mais detalhes estão disponíveis em publicação anterior 6.

Variáveis do estudo

A variável dependente foi ter saído de casa para trabalhar, na última semana, categorizada em sim ou não, conforme resposta a iniciativa ELSI-COVID-19. As variáveis independentes incluíram: idade (50-59, 60-69 ou ≥ 70 anos); sexo; escolaridade (0-7, 8-11 ou ≥ 12 anos); situação conjugal (vive ou não com cônjuge/companheiro(a)); renda per capita (< 2 salários mínimos ou ≥ 2 salários mínimos); autoavaliação da saúde, definida pela pergunta “Em geral, como o(a) Sr(a) avalia sua saúde?”, categorizada em boa (excelente/muito boa/boa) e ruim (regular/ruim/muito ruim); e tipo de vínculo de trabalho nos últimos 12 meses, categorizado em formal (com carteira assinada), por conta própria (autônomo ou em empreendimento familiar) e informal (sem carteira assinada). Todas essas características foram informadas na entrevista da segunda onda do ELSI-Brasil.

Análise dos dados

A análise não ajustada para diferenças entre proporções foi baseada no teste qui-quadrado com correção de Rao-Scott. A análise multivariada foi baseada nas odds ratios (OR) estimadas por meio da regressão logística binária. Todas as análises foram realizadas separadamente para homens e mulheres. As estimativas foram realizadas utilizando-se o pacote estatístico Stata 14.0 (https://www.stata.com), considerando o efeito do delineamento do estudo e os pesos derivados para os participantes que responderam ao inquérito telefônico.

O ELSI-Brasil (CAAE 34649814.3.0000.5091) e o inquérito telefônico iniciativa ELSI-COVID-19 (CAAE: 33492820.3.0000.5091) foram aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto René Rachou da Fundação Oswaldo Cruz, Minas Gerais.

Resultados

Entre os 9.144 participantes da segunda onda do ELSI-Brasil, 1.494 exerciam trabalho remunerado quando da realização da entrevista e foram selecionados para esta análise. Destes, 1.431 possuíam informações completas para as variáveis de interesse e foram incluídos na análise. A média de idade dos participantes foi 59,9 anos (DP = 6,5) e o sexo masculino predominou (52,9%). A prevalência de ter saído para trabalhar na última semana foi de 38,4% (IC95%: 31,3-46,1), sendo 50,2% entre os homens e 25,1% entre as mulheres (p < 0,001). Ter saído de casa para trabalhar apresentou associação significativa com a idade entre os homens e com o tipo de vínculo de trabalho entre as mulheres Tabela 1.

 

 

Tab.: 1
Tabela 1 Características sociodemográficas, autoavaliação da saúde e tipo de vínculo de trabalho entre participantes do inquérito telefônico do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (iniciativa ELSI-COVID-19), segundo o sexo e a condição de ter saído de casa para trabalhar na última semana. De 26 de maio a 8 de junho de 2020.

 

Como mostrado na Tabela 2, após ajustes para potenciais variáveis de confusão, a idade apresentou associação estatisticamente significante com ter saído para trabalhar entre os homens (OR = 0,27; IC95%: 0,15-0,48 para a faixa etária de 60 a 69 anos em comparação com a de 50 a 59 anos). As mulheres que trabalhavam por conta própria (OR = 0,28; IC95%: 0,12-0,64) e aquelas com vínculo informal de trabalho (OR = 0,25; IC95%: 0,09-0,69) apresentaram menor chance de ter saído para trabalhar na última semana.

 

 

Tab.: 2
Tabela 2 Resultados das análises multivariadas das associações entre ter saído de casa para trabalhar na última semana, características sociodemográficas, autoavaliação da saúde e tipo de vínculo de trabalho entre participantes do inquérito telefônico do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (iniciativa ELSI-COVID-19), segundo o sexo. De 26 de maio a 8 de junho de 2020.

 

Discussão

Os resultados mostraram maior prevalência de ter saído para trabalhar durante a epidemia entre os participantes do sexo masculino. Entre os homens, ter saído para trabalhar não apresentou associação com o tipo de vínculo de trabalho, porém, apresentou associação significativa com a idade. Entre as mulheres, a probabilidade de ter saído para trabalhar foi maior entre aquelas com vínculo formal, em comparação àquelas com vínculo informal ou trabalho por conta própria.

Neste estudo, a chance de ter saído para trabalhar foi menor entre os homens de 60 a 69 anos em comparação com aqueles de 50 a 59 anos. O trabalho autônomo tende a aumentar com a idade, especialmente para os homens 7. Esse fato explica, em parte, os resultados. Esses trabalhadores podem ter optado por não sair de casa para trabalhar durante a epidemia, por fazerem parte do grupo de risco. Outra possível explicação é o fato de eles estarem exercendo suas atividades remotamente.

No Brasil, após o início da epidemia, o trabalho informal caiu de 51,6% em abril para 49,7% em maio de 2020 8. As pessoas mais afetadas pelas consequências da epidemia são aquelas que trabalham por conta própria, têm menor rendimento, não podem trabalhar remotamente e as mulheres 8. O presente estudo corrobora parcialmente esses achados ao mostrar que a chance de ter saído para trabalhar, durante a epidemia, foi menor para mulheres que tinham vínculo de trabalho informal ou trabalho por conta própria.

A epidemia da COVID-19, no país, expôs a vulnerabilidade dos trabalhadores informais, representada pela falta de proteção social e impossibilidade de buscar garantias trabalhistas. As mulheres apresentam dupla vulnerabilidade, pois são a maioria entre os trabalhadores do setor informal, como domésticas e cuidadoras de idosos 9. Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), 70% das profissionais domésticas estão inseridas no trabalho informal ou por conta própria 9.

A menor chance de as trabalhadoras brasileiras, com 50 anos ou mais, com vínculo informal ou trabalho por conta própria, terem saído para trabalhar durante a epidemia, conforme encontrado neste estudo, pode ser explicada pelo fato de que essas mulheres foram dispensadas do trabalho por não se tratar de atividade essencial. Outra possível explicação é o fato de que essas mulheres podem ter sido contempladas com o auxílio emergencial, que se revelou capaz de compensar grande parte da perda potencial de renda domiciliar causada pela epidemia no país 10. Segundo dados do IPEA, o valor médio do auxílio recebido pelas famílias brasileiras foi de BRL 846,50, que corresponde a 77,5% do rendimento médio dos trabalhadores por conta própria, e é 21,2% superior ao rendimento médio do trabalhador doméstico 10.

Previsões apontam que o cenário do mercado de trabalho pós-epidemia será caracterizado pelo aumento do teletrabalho e das atividades informais, em conjunto com o aumento do desemprego e uma queda expressiva da renda familiar, com reflexo para os mais vulneráveis 10. Os achados deste estudo chamam a atenção para a importância da continuidade de políticas públicas que garantam proteção social adequada para os trabalhadores informais e por conta própria, principalmente as mulheres.

Agradecimentos

O ELSI-Brasil foi financiado pelo Ministério da Saúde: Departamento de Ciência e Tecnologia da Secretaria de Ciência e Tecnologia e Insumos Estratégicos (processos 404965/2012-1 e 28/2017) e Coordenação da Saúde da Pessoa Idosa da Secretaria de Atenção à Saúde (TED: 20836, 22566, 23700 e 77/2019). A iniciativa ELSI-COVID-19 é financiada pelo DECIT/SCTI e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). M. F. Lima-Costa é bolsista IA de produtividade em pesquisa do CNPq.

Referências

1.   Coronaviridae Study Group of the International Committee on Taxonomy of Viruses. The species severe acute respiratory syndrome-related coronavirus: classifying 2019-nCoV and naming it SARS-CoV-2. Nat Microbiol 2020; 5:536-44.
2.   Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde. Brasil. Folha informativa - COVID-19. https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6101:covid19&Itemid=875 (acessado em 29/Jun/2020).
3.   Gostin LO, Wiley LF. Governmental public health powers during the COVID-19 pandemic: stay-at-home orders, business closures, and travel restrictions. JAMA 2020; 323:2137-8.
4.   Brasil. Medida Provisória nº 936, de 1º de abril de 2020. Institui o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda e dispõe sobre medidas trabalhistas complementares para enfrentamento do estado de calamidade pública reconhecido pelo Decreto Legislativo nº 6, de 20 de março de 2020, e da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do coronavírus (covid-19), de que trata a Lei nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020, e dá outras providências. Diário Oficial da União 2020; 1º abr.
5.   COVID 19 community mobility report. https://www.gstatic.com/covid19/mobility/2020-06-23_BR_Mobility_Report_en.pdf (acessado em 29/Jun/2020).
6.   Lima-Costa MF, Macinko J, Andrade FB, Souza Jr. PRB, Vasconcellos MTL, Oliveira CM. ELSI-COVID-19 initiative: methodology of the telephone survey on coronavirus in the Brazilian Longitudinal Study of Aging. Cad Saúde Pública 2020; 36 Suppl 3:e00183120.
7.   Hasselhorn HM, Apt W, editors. Federal Ministry of Labour and Social Affairs. Understanding employment participation of older workers: creating a knowledge base for future labour market challenges. http://www.jp-demographic.eu/ (acessado em 03/Ago/2020).
8.   Ulyssea G. Efeitos da Covid-19 no mercado de trabalho brasileiro. https://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/20018_webinar_covid.pdf (acessado em 30/Jun/2020).
9.   Pinheiro L, Tokarski C, Vasconcelos M. Vulnerabilidades das trabalhadoras domésticas no contexto da pandemia de Covid-19 no Brasil. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; 2020. (Nota Técnica, 75).
10.   Cavalcanti MAFH, Lameiras MAP. PNAD Covid-19 - Divulgação de 24/06/2020 - Principais destaques. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; 2020. (Carta de Conjuntura, 47).

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