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Cadernos de Saúde Pública

ISSN 1678-4464

36 nº.10

Rio de Janeiro, Outubro 2020


RESENHA

Aspectos e intervenções psicossociais nas pandemias na contemporaneidade

Mário César Rezende Andrade, Marco Antônio Silva Alvarenga

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00253520


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THE PSYCHOLOGY OF PANDEMICS: PREPARING FOR THE NEXT GLOBAL OUTBREAK OF INFECTIOUS DISEASE. Taylor S. Newcastle: Cambridge Scholars Publishing; 2019. 161 p. ISBN: 978-1-5275-3959-4.

 

A recente pandemia de COVID-19 tornou evidente a necessidade de compreender os aspectos psicossociais envolvidos nessas situações, seus principais impactos e moderadores das ações e reações ao contexto pandêmico. Alguns meses antes do início da pandemia, em Wuhan, na China, quase ninguém imaginava a crise de saúde pública, econômica e social que seria enfrentada em escala global 1. Entretanto, ainda no final de 2019, como se fosse um presságio, o psicólogo canadense Steven Taylor já esperava a ocorrência de uma pandemia em um futuro próximo, com o lançamento do livro The Psychology of Pandemics: Preparing for the Next Global Outbreak of Infectious Disease2. Baseando-se em estudos na área e em dados de outras pandemias anteriores, principalmente aquelas causadas pelo vírus influenza, o autor nos oferece um amplo panorama das principais questões psicológicas e sociais que deveriam ser consideradas no caso de uma próxima crise pandêmica. Os 12 capítulos que compõem a obra apresentam a história, origem, formas de dispersão, impactos sociais e subjetivos causados pelas pandemias, e possíveis intervenções individuais e sociais/comunitárias.

O autor inicia o livro com a definição do conceito de pandemia, as nomenclaturas utilizadas e oferece um panorama sobre as maiores crises desse tipo na história da humanidade e suas características. Além disso, são apresentados os principais estressores psicossociais, socioecômicos e efeitos imediatos das pandemias no cotidiano das pessoas, além de uma análise acerca dos efeitos nos sistemas de saúde, na economia e sobre como as infecções podem se espalhar, sobretudo no mundo globalizado contemporâneo. Nos capítulos seguintes, são discutidos os principais métodos contemporâneos para o manejo das pandemias, por parte dos estados e dos cidadãos, com destaque para a comunicação de riscos, tratamentos farmacológicos, práticas de higiene e distanciamento social.

As manifestações psicológicas frequentes durante e após uma pandemia são também contempladas na obra. A ansiedade é um dos sentimentos mais comuns nessa situação e conduz ao estresse e desgaste emocional e, consequentemente, afeta o sistema neuroimunológico e torna as pessoas ainda mais vulneráveis ao contágio, especialmente pessoas já em situação de vulnerabilidade econômica e social. A economia e a organização social também são prejudicadas, o que pode levar ao pânico massivo e à agitação civil, em função da perda de pessoas significativas e empregos, crise financeira, isolamento e falta de recursos básicos para a sobrevivência. Tais eventos confirmam a necessidade de haver políticas de saúde para a prevenção de situações de crise psicológica e intervenções emergenciais acessíveis à população para minimizar o desgaste, sentimentos de vulnerabilidade e desamparo percebido, evitando o colapso social. Para embasar as intervenções com enfoque subjetivo, o quinto capítulo apresenta modelos cognitivos-comportamentais de como a ansiedade pela saúde pode produzir atitudes prejudiciais durante a pandemia. Esse modelo possibilita a identificação de sinais físicos, a redução de experiências emocionais negativas e readaptação comportamental, sendo, portanto, de grande auxílio em intervenções antes, durante e após a pandemia. Essa forma de intervenção pode ser feita de forma on-line ou presencial. No caso da população brasileira, que apresenta, em sua maioria, um aparelho telefônico com a acesso à Internet, poderia se beneficiar da prática remota de acolhimento, pelo menos durante o distanciamento social. Desse modo, mesmo considerando a exclusão digital que ainda existe em nosso contexto, uma parcela significativa da população pode se beneficiar dessa modalidade de intervenção.

Outro tópico explorado em um dos capítulos é o papel e influência da personalidade na forma como as pessoas são afetadas durante a pandemia. A expressão acentuada de determinados traços tende ao negacionismo ou à maior percepção de ameaça e, deste modo, leva a estratégias de enfrentamento, como o monitoramento ou o embotamento, nem sempre adaptativas. Portanto, políticas de cuidado à saúde devem desenvolver estratégias de comunicação mais detalhadas (relatos longos de monitoramento e cuidados) ou de conteúdo breve (tópicos curtos de esclarecimentos sobre a pandemia e ações profiláticas), considerando diferentes perspectivas pessoais na compreensão e busca por informações. Outra temática retratada é a adequada divulgação de informações, no caso, a comunicação dos riscos, que é de grande importância para os cuidados pessoais e sociais. Trata-se de umas das intervenções psicossociais mais eficazes por atingir uma ampla parcela da população. As informações devem ser percebidas como críveis e apresentadas de forma a facilitar maior aderência da população às práticas de manutenção da saúde 3. O autor ressalta que a efetividade dessas práticas ocorre por meio do apelo racional e do afetivo para que seja possível auxiliar as pessoas a diferenciarem rumores de fatos, evitar a divulgação de ideias equivocadas e atitudes negligentes.

Além dos aspectos psicológicos, também são explorados fatores e fenômenos sociais específicos que podem ocorrer durante as pandemias. Como exemplo, um capítulo inteiro é dedicado às teorias da conspiração, que comumente surgem em casos de doenças novas e ainda pouco conhecidas. O autor apresenta as principais características, causas e correlatos desse tipo de pensamento, tecendo também algumas explorações acerca de possíveis estratégias para reduzir seus impactos e influências. Outros fatores sociais importantes são também abordados. Em particular, são exploradas as principais formas pelas quais o medo e crenças acerca da doença podem se espalhar e influenciar o próprio curso da pandemia. Uma delas são as mídias e as redes sociais, juntamente com os rumores, os quais podem ser responsáveis pela distorção e disseminação de fake news, que constituem um fenômeno complexo e relevante no mundo contemporâneo. Outro ponto abordado é a influência que as mídias sociais podem exercer nas atitudes a favor e contra a vacinação. Além disso, essa própria atitude quanto à vacina e os fatores que podem ajudar em sua adesão recebem também dedicação exclusiva em outro capítulo, incluindo reflexões sobre a vacinação compulsória. Desse modo, ações para combater - localizando-as e evitando sua propagação - fake news devem ser implementadas.

Sobre outras possíveis intervenções, o penúltimo capítulo apresenta o método Sondagem-e-Tratamento (Screen-and-Treat) de acompanhamento remoto, que pode colaborar de forma efetiva no suporte de pessoas de diversas camadas sociais angustiadas com a situação. Essa metodologia mostra-se efetiva no levantamento das necessidades apresentadas (triagem) e encaminhamento. A abordagem remota tem sido adotada por vários profissionais de saúde e se mostrado eficaz no contexto atual 4. Ademais, é de suma importância cuidar também dos profissionais de saúde que trabalham expostos durante esse período. Essa ação é muitas vezes negligenciada em períodos críticos e pode comprometer, de maneira global, esses profissionais.

Por fim, o décimo segundo e último capítulo apresenta algumas considerações e atitudes a serem adotadas no caso de possíveis futuras pandemias. Inicialmente, as principais instituições públicas e sociais deveriam se preparar para o problema, orientar as pessoas sobre como poderiam enfrentar a pandemia e preservar atividades econômicas e educacionais, com o cuidado contínuo da saúde. Prosseguir com pesquisas em diferentes áreas será de suma importância para compreender as novas dinâmicas sociais, formas de comunicação adequadas, redução de fake news e enfoque no autocuidado e cuidado social.

De modo geral, ao longo da obra, é dada uma grande ênfase aos determinantes psicológicos em cada temática, dada a explícita influência cognitivista do autor. Entretanto, deve-se ponderar o risco de cair em uma psicologização e patologização da vida e das emoções, já que muitos dos fenômenos abordados fazem parte de reações intrínsecas ao processo histórico vivenciado em uma pandemia. Isso não significa também que a atenção aos efeitos negativos de uma pandemia e do isolamento social na saúde mental da população deva ser negligenciada. Por outro lado, alguns aspectos políticos e sociais de extrema importância são também abordados, apesar do nível superficial e da complexidade devida, como o papel determinante dos governantes e de seus comportamentos, além da forma como a pandemia afeta de forma desigual as diferentes camadas sociais. Além disso, a atual pandemia de COVID-19 provocou diversos impactos subjetivos, sociais e econômicos e está confirmando vários preceitos presentes no livro. A obra nos fornece, deste modo, várias bases para se refletir e manejar diversos problemas associados a uma pandemia. Trata-se, portanto, de uma obra extremamente relevante e necessária para ajudar no entendimento e atendimento às demandas contemporâneas.

Referências

1.   Bavel JJV, Baicker K, Boggio PS, Capraro V, Cichocka A, Cikara M, et al. Using social and behavioural science to support COVID-19 pandemic response. Nat Hum Behav 2020; 4:460-71.
2.   Taylor S. The psychology of pandemics: preparing for the next global outbreak of infectious disease. Newcastle: Cambridge Scholars Publishing; 2019.
3.   Kanadiya MK, Sallar AM. Preventive behaviors, beliefs, and anxieties in relation to the swine flu outbreak among college students aged 18-24 years. J Public Health 2011; 19:139-45.
4.   Bäuerle A, Graf J, Jansen C, Dörrie N, Junne F, Teufel M et al. An e-mental health intervention to support burdened people in times of the COVID-19 pandemic: CoPE It. J Public Health 2020; 42:647-8.

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