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Cadernos de Saúde Pública

ISSN 1678-4464

36 nº.Suplemento 3

Rio de Janeiro, 2020


EDITORIAL

Envelhecimento no Brasil e coronavírus: iniciativa ELSI-COVID-19

Maria Fernanda Lima-Costa

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00181420


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Globalmente, a epidemia do novo coronavírus (síndrome respiratória aguda grave coronavírus 2 - SARS-CoV-2) está em diferentes estágios de evolução e espera-se que fatores locais possam mitigá-la ou agravá-la. No Brasil, a situação vem evoluindo rapidamente. Cerca de três meses após o reconhecimento da transmissão comunitária em nosso meio, o país já ocupava a 2ª posição no mundo em termos de casos confirmados e número de óbitos (Johns Hopkins University & Medicine. COVID-19 Dashboard by the Center for Systems Science and Engineering (CSSE) at Johns Hopkins University. https://coronavirus.jhu.edu/map.html, acessado em 09/Jun/2020) 1. As profundas desigualdades sociais no Brasil têm o potencial de agravar a situação, uma vez que parcela expressiva da nossa população reside em habitações precárias, sem acesso regular ao abastecimento de água e em situação de aglomeração, fatores estes que facilitam a disseminação do vírus 2. Assim, pode se levantar a hipótese de que teremos epidemias com evoluções diferentes entre os mais e os menos favorecidos.

Uma das características da síndrome causada pelo SARS-CoV-2 (COVID-19) é que ela acomete mais severamente as pessoas mais velhas e aquelas com doenças crônicas preexistentes. No Brasil, até 5 de junho de 2020, 86% dos óbitos pela doença haviam ocorrido entre pessoas com 50 anos ou mais 1. Além da vulnerabilidade biológica devido à idade, existem implicações diversas da epidemia para as faixas etárias mais velhas. A primeira delas é o etarismo (ou ageism em inglês), que significa o estereótipo, o preconceito e a discriminação contra as pessoas mais velhas 3. Essa concepção inaceitável pode levar à “naturalização” da perda de vidas entre os mais velhos, implicando condições diferenciadas de apoio social, tratamento e medidas de prevenção.

Pelo menos duas outras condições tornam os mais velhos mais vulneráveis à epidemia do SARS-CoV-2. Uma delas é a maior prevalência de doenças crônicas, que exigem monitoramento e uso contínuo de medicamentos (68% dos adultos brasileiros com 50 anos ou mais possuem duas ou mais doenças crônicas) 4. Portanto, não se pode menosprezar a possibilidade de piora dessas condições durante a epidemia, em função das dificuldades para a obtenção de consultas médicas e/ou de medicamentos, ou mesmo a adoção de comportamentos prejudiciais à saúde. Adicionalmente, existe a possibilidade do surgimento de novas doenças, como doenças cardiovasculares, doenças autoimunes e de problemas de saúde mental, em função do estresse gerado pela epidemia e do distanciamento ou isolamento social 5.

Existem muitas perguntas ainda não respondidas acerca do comportamento do SARS-CoV-2 na população. Uma dessas perguntas é se a epidemia será contida na primeira onda ou se ondas sucessivas virão 6, até que surja uma vacina eficaz ou surjam outras medidas, ainda desconhecidas, que sejam capazes de conter a sua disseminação. Existe, portanto, uma grande necessidade de informações transparentes, oportunas e de boa qualidade para esclarecer a sociedade e subsidiar políticas públicas para a mitigação da epidemia e suas consequências no curto e longo prazos.

Em função desses desafios foi constituída a iniciativa ELSI-COVID-19, com o objetivo de produzir informações para o melhor entendimento da epidemia do coronavírus 2 e suas consequências nas faixas etárias mais velhas. Essa iniciativa é baseada em entrevistas por telefone realizadas entre participantes do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), conduzido em amostra nacional representativa da população com 50 anos ou mais 7.

Neste Suplemento dos CSP são apresentados os primeiros resultados da iniciativa ELSI-COVID-19. O primeiro artigo descreve a metodologia da iniciativa. Os artigos subsequentes contemplam temas diversos, como isolamento social, saúde mental, doenças crônicas, uso de medicamentos e uso de serviços de saúde, entre outros temas não menos relevantes. Como estamos diante de uma crise sanitária, que exige respostas rápidas, alguns artigos estão na forma de comunicações breves para agilizar o processo de publicação. Espera-se, com esta primeira divulgação de resultados, mostrar as condições vividas pelos mais velhos durante esta terrível epidemia, e chamar a atenção da sociedade e das autoridades para a necessidade de medidas prementes para mitigar os problemas encontrados.

Referências

1.   Ministério da Saúde. Boletim epidemiológico 17. Situação epidemiológica da COVID-19: doença pelo coronavírus 2020. https://covid.saude.gov.br/ (acessado em 25/Mai/2020).
2.   Werneck GL, Carvalho MS. A pandemia de COVID-19 no Brasil: crônica de uma crise sanitária anunciada. Cad Saúde Pública 2020; 36:e00068820.
3.   Burnes D, Sheppard C, Henderson Jr. CR, Wassel M, Cope R, Barber C, et al. Interventions to reduce ageism against older adults: a systematic review and meta-analysis. Am J Public Health 2019; 109:e1-9.
4.   Nunes NB, Batista SFF, Andrade FB, Souza Junior PR, Lima-Costa MF, Facchini LA. Multimorbidity: the Brazilian Longitudinal Study of Aging (ELSI-Brazil). Rev Saúde Pública 2018; 52 Suppl 2:10s.
5.   Armitage R, Nellums LB. COVID-19 and the consequences of isolating the elderly. Lancet Public Health 2020; 5:e256.
6.   Kissler SM, Tedjanto C, Goldstein E, Grad YH, Lipstich M. Projecting the transmission dynamics of SARS-CoV-2 through the postpandemic period. Science 2020; 368:860-8.
7.   Lima-Costa MF, Andrade FB, Souza Jr. PRB, Neri AL, Duarte YAO, Castro-Costa E, et al. The Brazilian Longitudinal Study of Aging (ELSI-Brazil): objectives and design. Am J Epidemiol 2018; 187:1345-53.

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