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Cadernos de Saúde Pública

ISSN 1678-4464

36 nº.9

Rio de Janeiro, Setembro 2020


COMUNICAÇÃO BREVE

A experiência do trabalho voluntário e colaborativo em saúde mental e atenção psicossocial na COVID-19

Juliana Fernandes Kabad, Débora da Silva Noal, Maria Fabiana Damasio Passos, Bernardo Dolabella Melo, Daphne Rodrigues Pereira, Fernanda Serpeloni, Michele Souza e Souza, Michele Rocha El Kadri, Carolyne Cesar Lima, Nicolly Papacidero Magrin, Carlos Machado Freitas

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00123120


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RESUMO
O Brasil é um dos países com maior número de casos e óbitos na pandemia por COVID-19, e seus impactos representam múltiplos desafios para a saúde mental. Esta comunicação relata a experiência de conformação emergencial do Grupo de Trabalho (GT) voluntário e colaborativo em saúde mental e atenção psicossocial, com objetivo de fornecer respostas rápidas aos serviços de saúde no contexto da COVID-19. O trabalho envolveu a identificação e sistematização de evidências atualizadas da literatura científica sobre saúde mental e atenção psicossocial em situações de emergências em saúde pública e pandemias, a constituição de uma rede envolvendo 117 pesquisadores e 25 instituições, além da organização de temas para elaboração de materiais, tendo como referência as fases de resposta em emergências em saúde pública e pandemias. Em menos de 60 dias foram publicados 18 documentos técnicos norteadores, englobando desde a organização e gestão dos serviços voltados aos diferentes grupos vulneráveis, ações que se tornaram referência em instituições e serviços de saúde, tendo sido também lançado um curso nacional sobre saúde mental e atenção psicossocial na COVID-19, com mais de 60 mil inscritos. Da experiência, são destacados tópicos para reflexão e contribuição para futuras ações, envolvendo translação do conhecimento nesta e em próximas emergências em saúde pública e pandemias: (1) combinar o trabalho voluntário e colaborativo com o envolvimento de profissionais experientes na organização de serviços e atenção em eventos passados; (2) contar com o suporte e recursos institucionais; (3) envolver a constituição de redes de profissionais e instituições para atingir rapidez e credibilidade no trabalho; (4) para as respostas às necessidades urgentes, deve-se envolver também a capacidade de moldar caminhos para a atenção e os cuidados em saúde mental e atenção psicossocial.

Saúde Mental; Sistemas de Apoio Psicossocial; COVID-19, Pandemias


 

Introdução

O Brasil é hoje o segundo país com maior número de casos e óbitos na pandemia por COVID-19 (agosto de 2020), e seus impactos representam um triplo desafio para a saúde mental: (1) prevenir o aumento dos impactos na saúde mental relacionados à redução do bem-estar psicossocial que atinge toda a população; (2) proteger as pessoas com doenças mentais dos impactos psicossociais associados ao aumento de sua vulnerabilidade; (3) prover cuidados aos profissionais de saúde e cuidadores 1.

Com o objetivo de fornecer respostas rápidas aos serviços de saúde baseadas em conhecimentos científicos, formou-se um Grupo de Trabalho (GT) voluntário e colaborativo em saúde mental e atenção psicossocial, no contexto da COVID-19, na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Esta comunicação sistematiza esta experiência, que resultou na elaboração de estratégias de cuidado em saúde mental e atenção psicossocial para o Sistema Único de Saúde (SUS).

Metodologia

O GT foi criado no dia 21 de março de 2020, um dia após o decreto legislativo reconhecendo estado de calamidade pública no país. Foi conduzido por um núcleo permanente de nove pesquisadores do campo da saúde mental, entre psicólogos, psiquiatras e cientistas sociais. Fruto da articulação entre o Centro de Pesquisas em Desastres (CEPEDES), o Programa de Pós-graduação em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) e a Fiocruz Brasília, o grupo contou com o suporte institucional por meio dos recursos humanos e de plataformas digitais da Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS).

Buscou-se, primeiramente, reunir evidências atualizadas da literatura científica sobre o impacto na saúde mental das populações afetadas pela COVID-19 e por emergências em saúde pública anteriores. Para tanto, realizou-se uma pesquisa bibliográfica em quatro bases virtuais de ampla abrangência no campo da saúde: PubMed, Biblioteca Virtual de Saúde (BVS), Embase e Periódicos Capes. O levantamento ocorreu entre os dias 24 e 29 de março de 2020, utilizando a combinação dos descritores em dois grupos: (1) “coronavírus”, “coronavidae”, “pandemic”, “SARS”, “MERS”, “COVID-19”; e (2) “quarantine”, “psychosocial support”, “mental health”, “psychosocial care”. Os descritores foram ajustados conforme os tesauros utilizados em cada base, exceto na BVS, que possuía uma janela específica chamada “BVS Corona”.

A partir da leitura sistemática, foram identificados 1.563 artigos científicos, categorizados por temas e características referentes à saúde mental e atenção psicossocial mais recorrentes em situações de emergências em saúde pública. Em um segundo momento, foram levantados temas centrais em conjunto com um total de 117 pesquisadores de 25 instituições nacionais e internacionais, escolhidos por sua produção e experiência no tema. Em um terceiro momento, os temas foram sistematizados de acordo com as fases de resposta da saúde mental e atenção psicossocial em uma pandemia 2. Pelo menos um membro permanente do GT se responsabilizava por liderar a produção de uma ou mais cartilhas e articular a participação dos colaboradores externos.

Resultados e discussão

A resposta rápida em emergências em saúde pública exige não somente disponibilidade de evidências científicas mas a construção de estratégias de translação do conhecimento que sejam capazes de produzir sínteses, disseminação, intercâmbio e aplicação do conhecimento em tempo mínimo, a partir de produtos em formatos amigáveis, linguagem simples e mensagens diretas 3,4.

Considerando a velocidade e magnitude da pandemia, os esforços direcionaram-se para a elaboração de cartilhas temáticas com recomendações técnicas para orientação de trabalhadores e gestores do SUS. No decorrer de cinco semanas de trabalho, entre os meses de abril e maio, foram publicadas 18 cartilhas, conforme o Quadro 1.

 

Quadro 1 Relação nominal de cartilhas conforme ordem de publicação.

 

As primeiras cartilhas objetivaram orientar a gestão e organizar os serviços de saúde, com recomendações gerais aos gestores e profissionais que atuam na linha de frente da assistência à saúde (cartilhas 1 e 2). As seguintes abordaram tanto grupos de temas evidenciados como recorrentes na literatura quanto demandas dos serviços que foram sendo percebidas na evolução da pandemia. Nessa lógica, foram produzidas cartilhas voltadas aos serviços e ao cuidado em saúde (cartilhas 4, 5, 10, 17 e 18); com enfoque para grupos etários (cartilhas 3, 12 e 14); para prevenção e enfrentamento de problemas de comportamento coletivo (cartilhas 7 e 8), ou por condições de exclusão social (cartilhas 9, 11, 13 e 15); sobre o processo de adoecer e lidar com a morte (cartilhas 5, 6 e 16). Importante ressaltar que o processo de trabalho do GT acompanhou a velocidade da propagação do vírus no Brasil e o aumento sucessivo do número de casos e de mortes, conforme a Semana Epidemiológica (SE). Boa parte das cartilhas foi publicada antes do início da fase crítica em vários estados, conforme se observa na Figura 1.

 

Figura 1 Fluxo do processo de trabalho do Grupo de Trabalho (GT) em saúde mental e atenção psicossocial e a evolução da COVID-19 no Brasil.

 

As cartilhas foram disponibilizadas por meio de uma plataforma virtual, com acesso livre e gratuito. A disseminação do material foi realizada com estratégias envolvendo a comunicação social da Fiocruz, além de webinars, palestras e entrevistas na imprensa, que potencializaram a ampla disseminação dos materiais também nas redes sociais (Instagram e Facebook). Passaram a ser indicadas como referência em websites das universidades, conselhos profissionais (Psicologia, Farmácia, Medicina), Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS), Ministério Público e diversas prefeituras, além de cinco dessas cartilhas terem sido traduzidas (cartilhas 1, 3, 4, 5 e 6) para a língua inglesa.

Para atender a uma demanda crescente, foi estruturado e ofertado o Curso Nacional de Saúde Mental e Atenção Psicossocial na COVID-19, de 40 horas, autoinstrucional, na modalidade a distância (EaD), desenvolvido na Escola de Governo (Fiocruz Brasília). O curso contou com 16 módulos, cada um deles contendo videoaula e encontro virtual síncrono (live) transmitido pelo Youtube, tendo a parceria de 37 pesquisadores e docentes. Lançado em 12 de maio, já somava 60.780 inscritos em um mês, oriundos das 27 Unidades Federativas (UF).

Por fim, o GT colaborou diretamente com a organização do serviço de atendimento psicológico virtual promovido pela Fiocruz Brasília mediante a elaboração do prontuário eletrônico e a construção de indicadores de monitoramento, sendo três cartilhas organizadas para este suporte (cartilhas 4, 10 e 18).

Como observam El-Jardali et al. 3, ativar grupos ou plataformas para a resposta rápida em situações de emergências em saúde pública representa um desafio e ao mesmo tempo elemento-chave para o fornecimento de evidências relevantes e de alta qualidade, em curto período. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a saúde mental como parte da resposta emergencial da saúde pública no manejo da COVID-19 5, e este foi o objetivo de todo o trabalho do GT: fornecer respostas rápidas aos serviços de saúde para enfrentamento do triplo desafio e mitigação dos danos psicológicos em massa no enfrentamento da pandemia 1,6.

A partir da experiência do GT no contexto da COVID-19, propõem-se alguns tópicos para reflexão e contribuição para futuras experiências de translação do conhecimento em emergências em saúde pública e pandemias:

(1) Combinar trabalho voluntário e colaborativo com experiência - A possibilidade de reunir um conjunto de pesquisadores que nunca trabalharam juntos, mas se mostraram empenhados no enfrentamento da pandemia com seus conhecimentos e experiências acadêmicas, foi a energia fundamental para constituir o GT. Acrescente-se que a presença de profissionais que já haviam trabalhado com saúde mental e atenção psicossocial na atenção e organização dos serviços em emergências em saúde pública foi também crucial na orientação do trabalho e formulação das primeiras perguntas e orientações.

(2) Apoio e recursos institucionais - Para além do mérito de cada pesquisador envolvido no GT, a obtenção de recursos e infraestrutura institucionais (pós-graduação, plataformas virtuais, redes sociais e estrutura de comunicação social) foi fundamental para viabilizar o alcance da produção e da comunicação para diferentes públicos, superando uma das grandes dificuldades da translação do conhecimento.

(3) Rapidez, redes e credibilidade - Emergências em saúde pública e pandemias exigem não somente estratégias de translação, mas principalmente rapidez para fornecer evidências aos gestores e profissionais envolvidos nas respostas 3. A velocidade da produção (no mês de abril, foram lançadas 13 cartilhas e, em maio, foi lançado o curso nacional) foi importante, mas ganhou escala nacional e para outros países quando combinada com uma rede colaborativa de pesquisadores e instituições de referência nos vários temas, ampliando os temas abordados e a credibilidade nos materiais produzidos.

(4) Responder necessidades e moldar caminhos - A produção das cartilhas e do curso procurou não só organizar a resposta da saúde mental e atenção psicossocial de acordo com as diferentes fases da pandemia 2 mas também trazer para esta agenda os temas relacionados aos diferentes grupos vulneráveis, bem como a perspectiva de um sistema universal de saúde na elaboração das estratégias de cuidado, por meio da organização do serviço de atendimento psicológico virtual.

Considerações finais

A morte, o adoecer e a doença, o isolamento social, as perdas de renda e trabalho, o acúmulo de dívidas e a incerteza em relação ao futuro são reconhecidos fatores com impactos na saúde mental. São acentuados em situações de emergências em saúde pública, tornando a sensação de medo uma experiência compartilhada coletivamente 7, representando um triplo desafio para a saúde mental 1. Para o profissional de saúde, reconhecer a singularidade deste cenário é crucial para determinar a busca por conhecimento oportuno e em tempo hábil. Igualmente, pensar o lugar da ciência e do pesquisador diante da urgência por ações significa colocar-se a serviço da sociedade em sua premência por respostas à altura da gravidade de uma pandemia.

O resultado dessa intervenção demonstra a importância de iniciativas que envolvam GTs e plataformas em translação do conhecimento para rapidamente fornecer evidências, não só fortalecendo ações e práticas de profissionais e gestores como também respondendo às necessidades do SUS para o enfrentamento da COVID-19, de outras emergências em saúde pública e futuras pandemias.

Agradecimentos

F. Serpeloni é bolsista de Pós-doutorado Nota-10 da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e M. S. Souza é bolsista de Pós-doutorado Júnior 2019 do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Referências

1.   Campion J, Javed A, Sartorius N, Marmot M. Addressing the public mental health challenge of COVID-19. Lancet Psychiatry 2020; 7:657-9.
2.   Organização Pan-Americana da Saúde. Proteção da saúde mental em situações de epidemias. https://www.paho.org/hq/dmdocuments/2009/Protecao-da-Saude-Mental-em-Situaciones-de-Epidemias--Portugues.pdf (acessado em 28/Ago/2020).
3.   El-Jardali F, Bou-Karroum L, Fadlallah R. Amplifying the role of knowledge translation platforms in the COVID-19 pandemic response. Health Res Policy Syst 2020; 18:58.
4.   Miranda ÉDS, Figueiró AC, Potvin L. Are public health researchers in Brazil ready and supported to do knowledge translation? Cad Saúde Pública 2020; 36:e00003120.
5.   World Health Organization. Mental health and psychosocial considerations during COVID-19 outbreak. https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/mental-health-considerations.pdf (acessado em 28/Ago/2020).
6.   Inter-Agency Standing Committee. Como lidar com os aspectos psicossociais e de saúde mental referentes ao surto de COVID-19. Versão 1.5, março 2020. https://interagencystandingcommittee.org/system/files/2020-03/IASC%20Interim%20Briefing%20Note%20on%20COVID-19%20Outbreak%20Readiness%20and%20Response%20Operations%20-%20MHPSS%20%28Portuguese%29.pdf (acessado em 28/ago/2020).
7.   Lu S. An epidemic of fear. https://www.apa.org/monitor/2015/03/fear (acessado em 28/Ago/2020).

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