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Cadernos de Saúde Pública

ISSN 1678-4464

36 nº.6

Rio de Janeiro, Junho 2020


EDITORIAL (ESCOLHA DAS EDITORAS)

Saúde Pública, Ciência e Arte

Marilia Sá Carvalho, Luciana Dias de Lima, Cláudia Medina Coeli

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00022920


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Um filme premiado de 1936 sobre a vida de Louis Pasteur. Por que nas páginas de CSP? E por que tão aplaudido em uma apresentação no Instituto Oswaldo Cruz, unidade da Fundação Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) que desenvolve pesquisas de ponta voltadas para as necessidades de saúde da população brasileira? Um cientista do Século XIX, um filme do Século XX, em debate no Século XXI.

Uma das mais relevantes contribuições de Pasteur, entre tantas mostradas no filme e ressaltadas no Ensaio de Daniel-Ribeiro & Lima 1, é, certamente, a “teoria dos germes”, que traz a possibilidade de medidas preventivas muito bem-sucedidas, desde o lavar as mãos até a vacinação. Alguns pontos trazem o filme para os nossos dias, em especial a enorme resistência às novas recomendações por parte da comunidade médica. Como exemplos, podemos citar a recusa de conselhos de medicina em aceitar as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) quanto à conduta na assistência ao parto 2, ou o apoio à liberação do uso de anorexígenos apesar de evidências contrárias, apontando os efeitos adversos do uso 3. Esse último exemplo, possivelmente, influenciado pelo lobby da indústria farmacêutica.

A rejeição das evidências científicas é construída a cada dia. São os falsos especialistas, as teorias da conspiração, a citação de exemplos selecionados a dedo para “demonstrar” que os cientistas não merecem a confiança da população. A negação das mudanças climáticas é um exemplo paradigmático da negação da ciência 4. Destaca-se que um dos elementos da construção da ignorância científica, objeto de estudo da agnotologia 5, é a produção da desconfiança relacionada aos cientistas. Cientistas são acusados de manipularem dados e esconderem evidências por interesses escusos, inclusive financeiros 6. As origens desse comportamento vêm sendo exaustivamente debatidas, indicando a importância da atuação dos cientistas no combate à ignorância científica por meio de uma maior aproximação com o público e comunicação com a sociedade 7.

Mas por que a admiração por Pasteur, presente no filme e tão bem relatada no artigo? Como cientistas da área da Saúde Coletiva nos envolvemos em grandes batalhas em prol da saúde das populações. Entre outros, nosso papel na defesa do direito à saúde, no controle do tabagismo, na rotulação de alimentos, no estímulo à atividade física voltada para a promoção e proteção da saúde é inegável. Essa é nossa função social, assim se dá a relevância do nosso trabalho. O pensamento científico, em todas essas questões (e muitas mais), ameaça interesses econômicos bem estabelecidos 8.

Aí entra o aplauso que o filme gerou na plateia de cientistas: o elogio a Pasteur, como cientista dedicado e incansável, que supera crenças arraigadas, hostilidade das sociedades de medicina, um verdadeiro herói. Mas, todos nós, cientistas no Século XXI, sabemos que a ciência não é fruto do trabalho isolado de gênios, mas uma construção coletiva do conhecimento. Por que então o aplauso? Precisamos de heróis?

Não. Precisamos de ARTE. Que nos anime a enfrentar o descrédito da ciência e de cientistas. São dezenas de recomendações para cientistas se tornarem ativos na divulgação científica 9. A arte é um caminho essencial. Que venham mais filmes, peças de teatro, livros, poemas, pinturas, cartoons, charges, memes.

Referências

1.   Daniel-Ribeiro CT, Lima MM. A morning with Louis Pasteur: a short history of the "clean hands". Cad Saúde Pública 2020; 36:e00068619.
2.   World Health Organization. WHO recommendations: intrapartum care for a positive childbirth experience. Geneva: World Health Organization; 2018.
3.   Paumgartten FJR. The return of amphetamine-like anorectics: a backward step in the practice of evidence-based medicine in Brazil. Cad Saúde Pública 2017; 33:e00124817.
4.   Cook J. Countering climate science denial and communicating scientific consensus. In: Oxford Research Encyclopedia of Climate Science. http://climatescience.oxfordre.com/view/10.1093/acrefore/9780190228620.001.0001/acrefore-9780190228620-e-314 (acessado em Fev/2020).
5.   Proctor R, Schiebinger LL, editors. Agnotology: the making and unmaking of ignorance. Redwood: Stanford University Press; 2008.
6.   Qiu L. The baseless claim that climate scientists are 'driven' by money. The New York Times 2018; 27 nov. https://www.nytimes.com/2018/11/27/us/politics/climate-report-fact-check.html.
7.   National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine. Communicating science effectively: a research agenda. Washington DC: The National Academies Press; 2017.
8.   Oreskes N, Conway EM. Merchants of doubt: how a handful of scientists obscured the truth on issues from tobacco smoke to global warming. New York: Bloomsbury Press; 2011.
9.   Brownell SE, Price JV, Steinman L. Science communication to the general public: why we need to teach undergraduate and graduate students this skill as part of their formal scientific training. J Undergrad Neurosci Educ 2013; 12:E6-10.

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