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Cadernos de Saúde Pública

ISSN 1678-4464

36 nº.4

Rio de Janeiro, Abril 2020


ARTIGO

Fatores associados à falta de assistência hospitalar nos óbitos por doença cerebrovascular, São Paulo, Brasil: análise comparativa entre 1996-1998 e 2013-2015

Edige Felipe de Sousa Santos, José Leopoldo Ferreira Antunes

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00227718


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RESUMO
O objetivo foi avaliar os fatores sociodemográficos e clínicos relacionados à falta de assistência hospitalar em óbitos por doença cerebrovascular (DCV) e DCV hemorrágica, no Estado de São Paulo, Brasil, nos triênios 1996-1998 e 2013-2015. Foram utilizados dados dos óbitos provenientes do Sistema de Informações sobre Mortalidade. Para analisar a associação entre a falta de atendimento hospitalar e as variáveis consideradas no estudo utilizou-se a regressão de Poisson. Dos 127.319 indivíduos que morreram por DCV nos dois triênios, 19.362 (15,2%) não tiveram assistência hospitalar. A falta de atendimento hospitalar em óbitos por DCV manteve-se praticamente inalterada para as características sociodemográficas e clínicas, exceto a distribuição por sexo. No período mais recente, identificou-se maior risco de óbito por DCV sem assistência hospitalar entre indivíduos de cor da pele amarela (RR = 1,48), já em pessoas de cor preta (RR = 0,85), parda (RR = 0,86), nos casados (RR = 0,70), naqueles que residiam no Município de São Paulo (RR = 0,92), nos que tiveram assistência médica (RR = 0,17) e naqueles acometidos pela DCV hemorrágica (RR = 0,47) o risco de óbito sem assistência hospitalar foi menor. Além disso, a falta de atendimento hospitalar em óbitos por DCV hemorrágica foi menor entre os casados (RR = 0,67), naqueles que residiam no Município de São Paulo (RR = 0,74) e nos que tiveram assistência médica (RR = 0,08). As características sociodemográficas e clínicas estiveram associadas com a falta de assistência hospitalar em óbitos por DCV e DCV hemorrágica, sugerindo que há diferenças no atendimento ao paciente com DCV.

Mortalidade; Acidente Vascular Cerebral; Fatores Epidemiológicos; Assistência Hospitalar; Acesso aos Serviços de Saúde


 

Introdução

A doença cerebrovascular (DCV) é uma das principais causas de morte no mundo, inclusive no Brasil 1, além de ser a primeira causa de internação hospitalar no Sistema Único de Saúde (SUS) 2. Embora tenha sido observada redução da incidência 3 e mortalidade 4,5 por DCV na população, segundo sexo e para diferentes recortes etários 3,4,5, no início do século XXI a DCV ainda apresentava alta carga de doença 4,5, particularmente nos estados com menor desenvolvimento socioeconômico 4.

O sucesso para a prevenção e tratamento da DCV começa com o reconhecimento deste agravo como emergência médica 6, como também na identificação de fatores de risco, tais como histórico de hipertensão e diabetes mellitus, depressão, comportamentos relacionados à saúde (falta de atividade física regular, uso abusivo de álcool e tabagismo), presença de comorbidades (outras doenças cardiovasculares), entre outras 7.

Na primeira década do século XXI, no Brasil, a DCV era considerada uma doença negligenciada 8, devido ao fato de que se dava pouca ênfase ao controle dos fatores de risco e na organização dos serviços de saúde. Além disso, a falta de conscientização como emergência pelos indivíduos acometidos e familiares pode ser verificada pela demora em procurar ajuda médica imediata 9, como também pela colocação do Brasil na liderança do ranking da mortalidade por DCV na América do Sul 10.

Entre 1996 e 2016, a proporção de óbitos por DCV ocorridos dentro das unidades hospitalares do Brasil permaneceu praticamente inalterada, variando de 79,6% para 78,1%, respectivamente (http://www2.datasus.gov.br/DATASUS, acessado em 11/Mar/2019). Além disso, em razão da DCV ser um problema de saúde pública e requerer tratamentos agudos e complexos, espera-se que os óbitos por essa doença ocorram dentro dos serviços de saúde. Entretanto, entre 1990-2015 mais de 15% dos óbitos por DCV que ocorreram no maior estado do Brasil, São Paulo, não tiveram assistência hospitalar (http://www2.datasus.gov.br/DATASUS, acessado em 11/Mar/2019).

Manifestações clínicas da DCV ocorrem de forma súbita e inesperada, demandando socorro imediato e atendimento hospitalar 11. A necessidade de hospitalização também decorre do fato de ser uma doença complexa, que exige abordagens terapêuticas rápidas e intensivas 12. Sendo assim, óbitos por DCV que estejam ocorrendo em outros locais, como em domicílio, trabalho ou em via pública, podem refletir dificuldades no acesso aos serviços de saúde, reduzindo a chance de atendimento hospitalar e, consequentemente, maior probabilidade de óbito.

Estudos prévios identificaram que o local de residência também pode influenciar o uso dos serviços de média e alta complexidade 13,14. Assim, a análise da mortalidade por DCV segundo falta de assistência hospitalar pode ser uma forma de aferir diferenças no atendimento e no acesso a serviços de saúde.

Apesar de o Estado de São Paulo apresentar, em geral, indicadores socioeconômicos e de saúde melhores que a média do Brasil 15, não há estudos sobre os fatores associados à falta de assistência hospitalar nos óbitos por DCV que possam indicar diferenças no acesso aos serviços de saúde no momento anterior ao óbito. Assim, este trabalho teve como objetivo avaliar os fatores sociodemográficos e clínicos relacionados à falta de assistência hospitalar em óbitos por DCV e DCV hemorrágica, no Estado de São Paulo, entre os triênios 1996-1998 e 2013-2015.

Método

Foram utilizados dados oficiais de mortalidade por DCV de residentes no Estado de São Paulo, provenientes do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Brasil. A unidade de análise selecionada para este estudo foi o Estado de São Paulo, que apresenta elevado grau de urbanização, população estimada em 45 milhões de habitantes 16, além de apresentar informações de saúde de qualidade 17 e ser o terceiro estado do Brasil com menor mortalidade por acidente vascular cerebral, não especificado como hemorrágico ou isquêmico 10.

O Estado de São Paulo está dividido em 644 municípios (com 33 milhões de habitantes) e a cidade de São Paulo (com 12 milhões de habitantes), capital do estado. Os períodos de estudo correspondem a 1996-1998 (imediatamente após a adoção da 10ª Revisão da Classificação Internacional das Doenças - CID-10) e 2013-2015 (período mais recente com dados disponíveis). O trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (CAAE: 94920618.1.0000.5421).

População de estudo, causa básica dos óbitos e fontes de informação

Foram considerados todos os óbitos de residentes no Estado de São Paulo com idade acima de 1 ano, cuja causa básica foi classificada como DCV. Considerou-se esse recorte etário uma vez que a mortalidade infantil apresenta características muito singulares, além de ter correspondido a apenas 0,1% do total de óbitos por DCV.

DCV foi definida, de acordo com os critérios da Organização Mundial da Saúde (OMS), como sendo “desenvolvimento rápido de sinais e sintomas clínicos de perda focal e, às vezes, global da função cerebral, com duração de mais de 24 horas ou levando à morte, sem causa aparente que a de origem vascular18 (p. 541).

Para este estudo foram incluídos todos os óbitos por DCV (códigos: I60-I69) 19, de acordo com a CID-10, que incluem hemorragia intracraniana (I60-I62), infarto cerebral (I63), acidente vascular cerebral não especificado se hemorrágico ou isquêmico (I64), outros acidentes vasculares cerebrais (I67-I68) e sequelas de doenças cerebrovasculares (I69). Assim, foram estudados 62.413 óbitos entre 1996-1998 e 64.906 entre 2013-2015.

Além disso, dos óbitos ocorridos nos dois períodos, foram considerados 14.129 e 16.862 óbitos pela DCV hemorrágica no primeiro e segundo triênios, respectivamente. A DCV hemorrágica foi analisada separadamente, uma vez que representa a forma aguda mais letal da doença 20, para a qual o atendimento hospitalar seria ainda mais urgente e necessário.

Os microdados dos óbitos foram extraídos por transferência de arquivos do SIM, por intermédio do Departamento de Informática do SUS (DATASUS; http://www.datasus.gov.br). Esse serviço é mantido pelo Ministério da Saúde e teve início com o registro sistemático de dados de mortalidade (Estatísticas Vitais). O SIM recebe, processa, confere a consistência e validade sobre a causa básica da morte registrada na Declaração de Óbito (DO) e disponibiliza a informação de mais de 96% dos óbitos ocorridos no Brasil 1.

Variáveis de estudo

O atendimento hospitalar no momento anterior ao óbito (sim ou não) foi a variável de interesse do estudo. Considerou-se ausência de assistência hospitalar a situação em que o óbito ocorreu fora do hospital, por exemplo, nos domicílios, nos locais de trabalho ou em via pública. As demais variáveis consideradas estão presentes na DO, quais sejam: sexo (masculino e feminino); raça/cor (branca, preta, parda, amarela e indígena), estado civil (solteiro, casado, viúvo e separado judicialmente), município de residência (Município de São Paulo e outros municípios), assistência médica (sim e não), tipo de DCV (acidente vascular cerebral hemorrágico e outros tipos de DCV). As informações ignoradas ou em branco foram consideradas como missing.

Análise estatística

Inicialmente, realizou-se a caracterização dos óbitos por DCV de acordo com as variáveis consideradas, por meio de frequências absolutas e relativas percentuais para ambos os períodos considerados. A associação entre óbitos por DCV - e por DCV hemorrágica - segundo assistência hospitalar, e as demais variáveis consideradas neste estudo, foi realizada por meio da estimativa do risco relativo (RR) e respectivos intervalos de 95% de confiança (IC95%). Em seguida, para ambos os desfechos de interesse, foram ajustados modelos de regressão múltipla de Poisson, considerando-se todas as variáveis que na análise simples apresentaram um valor de p < 0,20. Consideraram-se significativas aquelas que apresentaram um valor de p < 0,05 quando ajustadas pelas demais. Todas as análises foram realizadas usando-se o programa Stata 15.1 (https://www.stata.com).

Resultados

Dos 127.319 óbitos por DCV ocorridos nos dois triênios, 15,24% e 15,17% não tiveram assistência hospitalar entre 1996-1998 e 2013-2015, respectivamente. Em ambos os períodos, observou-se predomínio de óbitos entre homens, nos indivíduos com 50 anos ou mais, brancos, casados, naqueles que não residiam na capital do Estado de São Paulo, nos que tiveram algum tipo de assistência médica e nos que foram classificados pelo tipo não hemorrágico da DCV Tabela 1. A média de idade no triênio inicial foi de 68,1 anos (± 15,5) e no triênio final de 72,3 anos (± 21,5).

 

 

Tab.: 1
Tabela 1 Óbitos por doença cerebrovascular segundo variáveis selecionadas. Estado de São Paulo, Brasil, 1996-1998 e 2013-2015.

 

O número de óbitos sem assistência hospitalar totalizou 9.514 em 1996-1998 e 9.848 em 2013-2015. Todas as variáveis consideradas no estudo apresentaram associação estatística com o desfecho. No primeiro triênio, a falta de assistência hospitalar foi maior entre mulheres (RR = 1,19), nos indivíduos com 50 anos ou mais (RR = 3,47), nas pessoas de cor da pele amarela (RR = 1,37) e nos viúvos (RR = 1,39). No segundo, a falta de atendimento hospitalar continuou sendo maior para pessoas de cor da pele amarela e nos indivíduos com 20 anos ou mais (p < 0,05). Além disso, menores ocorrências foram observadas para pessoas de cor da pele parda, nos casados ou separados judicialmente, naqueles que não residiam na capital, nos que receberam assistência médica e nos acometidos pela DCV hemorrágica nos dois triênios (p < 0,05) Tabela 2.

 

 

Tab.: 2
Tabela 2 Fatores associados aos óbitos por doença cerebrovascular sem assistência hospitalar. Estado de São Paulo, Brasil, 1996-1998 e 2013-2015.

 

A Tabela 3 mostra associação significativa da falta de atendimento hospitalar nos óbitos por DCV entre mulheres (RR = 1,09), nas pessoas de cor da pele amarela (RR = 1,53), preta (RR = 0,77) e parda (RR = 0,78), nos casados (RR = 0,79), separados judicialmente (RR = 0,69), nos indivíduos que residiam na cidade de São Paulo (RR = 0,89), naqueles que tiveram assistência médica no momento anterior ao óbito (RR = 0,31) e nas pessoas que apresentaram a DCV hemorrágica (RR = 0,37), independentemente das demais variáveis consideradas neste trabalho (valores referentes ao primeiro triênio). Durante 2013-2015, essas mesmas características estiveram associadas com a ausência de assistência hospitalar (p < 0,05), exceto para a variável sexo Tabela 3.

 

 

Tab.: 3
Tabela 3 Análise multivariada dos fatores associados aos óbitos por doença cerebrovascular sem assistência hospitalar. Estado de São Paulo, Brasil, 1996-1998 e 2013-2015.

 

Em relação à falta de assistência hospitalar nos óbitos decorrentes de DCV hemorrágica, de modo geral observaram-se diferenças quanto às características associadas nos triênios analisados; entre os indivíduos que eram casados e naqueles que receberam assistência médica, o risco de óbito sem assistência hospitalar permaneceu significativamente menor em ambos os períodos (p < 0,001). Para o triênio 2013-2015, ressalta-se a menor ocorrência entre as mulheres (RR = 0,76); nos indivíduos de cor parda (RR = 1,15) e naqueles com idades entre 20 e 49 anos (RR = 1,90) a ocorrência de óbitos sem assistência hospitalar foi significativamente maior (p < 0,05) Tabela 4.

 

 

Tab.: 4
Tabela 4 Fatores associados aos óbitos por doença cerebrovascular sem assistência hospitalar, segundo doença cerebrovascular hemorrágica. Estado de São Paulo, Brasil, 1996-1998 e 2013-2015.

 

Para o primeiro triênio (1996-1998), observou-se maior risco de óbito por DCV hemorrágica sem assistência hospitalar entre indivíduos de cor da pele/raça amarela (RR = 2,63); entre os anos de 2013-2015, menores ocorrências foram observadas entre os indivíduos casados e naqueles que residiam na capital (p < 0,001). Para ambos os períodos, observou-se que o risco de óbito por DCV hemorrágica foi cerca de 90% menor naqueles que receberam assistência médica, independentemente das demais variáveis consideradas neste estudo Tabela 5. A discrepância observada nas proporções de falta de atendimento hospitalar entre as categorias com e sem assistência médica é um resultado esperado, em função da presumível associação entre estas variáveis.

 

 

Tab.: 5
Tabela 5 Análise multivariada dos fatores associados aos óbitos por doença cerebrovascular sem assistência hospitalar, segundo doença cerebrovascular hemorrágica. Estado de São Paulo, Brasil, 1996-1998 e 2013-2015.

 

Discussão

A falta de atendimento hospitalar em óbitos ocasionados por DCV manteve-se praticamente inalterada nos dois períodos. Além disso, também foi mantida a sua associação com características sociodemográficas e clínicas, exceto em relação ao sexo. No período mais recente, identificou-se maior risco de óbito por DCV sem assistência hospitalar entre indivíduos de cor da pele/raça amarela, e menores ocorrências foram observadas em pessoas de cor da pele preta e parda, nos casados, naqueles que residiam na capital, nos que receberam assistência médica e naqueles acometidos pela DCV hemorrágica. A mortalidade por DCV foi analisada em indivíduos com 45 anos ou mais, segundo local de ocorrência do óbito, isto é, se recebeu ou não atendimento hospitalar, no Paraná, Brasil, em 2007, e também se observaram diferenças no acesso ao hospital no momento do óbito por DCV, segundo variáveis sociodemográficas e econômicas 12.

A proporção de óbitos por DCV sem assistência hospitalar verificada neste estudo manteve-se estável para os períodos analisados, e num patamar inferior ao registrado para o país (22%) 10. Dados do Estado de São Paulo (2018) apontam que este foi o estado com a 3a menor proporção de óbitos por DCV sem atendimento hospitalar (15,2%), com percentual superior ao do Distrito Federal (9%) e ao do Estado do Rio de Janeiro (12%). Essa condição deve-se, em parte, ao fato de a Região Sudeste concentrar o maior número de hospitais do país 21, bem como menores problemas de acesso aos serviços de saúde que as demais regiões 22. Além disso, esses resultados são compatíveis com o fato desses estados e o Distrito Federal concentrarem a sede das instituições públicas e atividades econômicas do país, consolidando-as como metrópoles, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) 23.

O presente estudo encontrou diferenças na falta de assistência hospitalar em óbitos por DCV, entre os sexos masculino e feminino, somente no primeiro triênio. Essa diferença pode ser atribuída a dois fatores. Por um lado, mulheres de 45 a 74 anos têm menor mortalidade por DCV do que homens 24, o que pode induzir maior grau de alerta quanto à necessidade de internação entre os homens acometidos pela DCV. Por outro lado, o risco de hemorragia craniana, que é a forma mais letal da DCV, foi apontado como sendo 1,74 vez mais elevado em mulheres do que em homens 25. No período final, a diferença não significante entre os sexos é sugestiva do progressivo aumento do grau de alerta para doenças circulatórias entre as mulheres.

Quanto à raça/cor da pele, a proporção de óbitos por DCV ocorridos fora do hospital foi maior para pessoas de cor da pele amarela nos dois períodos, e menor para pessoas de cor da pele preta e parda em relação aos brancos. Um estudo que avaliou a taxa de mortalidade por DCV segundo características relacionadas à cor/raça da pele em indivíduos de 30-79 anos, residentes na cidade de São Paulo, durante 1999-2001, identificou maiores taxas para a população de cor da pele preta, já em pessoas de cor da pele amarela houve pequeno número de óbitos 26. Essas observações poderiam justificar, em parte, a maior ou menor proporção de óbitos sem atendimento hospitalar entre os grupos étnico-raciais. Ressalta-se que as diferenças no risco de óbito segundo raça/cor da pele 27, especialmente no que se refere ao risco de óbito por DCV sem assistência hospitalar, devem ser melhor esclarecidas por estudo que considere outros fatores não incluídos nesta análise.

A cidade de São Paulo apresenta maior concentração dos recursos de saúde 10 em relação aos demais municípios do estado, o que explicaria a menor proporção de óbitos sem atendimento hospitalar na capital. A maior oferta de serviços hospitalares na cidade de São Paulo pode aumentar a chance de o óbito ocorrer dentro do hospital. Ademais, a região de residência do falecido pode ser utilizada como indicador da qualidade do atendimento e do acesso aos serviços de saúde, como demonstrado em estudo prévio 28. Os dados deste trabalho também reforçam que a acessibilidade aos serviços de saúde pode ser influenciada por obstáculos geográficos, financeiros e organizacionais 29, distribuição geográfica dos serviços de saúde 30,31, desigualdades sociais 32, características da comunidade 33 e capacidade da população para superar tais obstáculos.

Um estudo de base populacional 34 avaliou o conhecimento leigo sobre DCV e ativação de serviços médicos de emergência do Brasil de 814 indivíduos residentes em quatro cidades brasileiras, incluindo São Paulo, e encontrou que apenas 34,6% dos entrevistados responderam corretamente ao número de telefone de emergência no Brasil (#192). Mesmo tendo sido verificada menor proporção de óbitos sem assistência hospitalar de pessoas que residiam na cidade de São Paulo, a falta de conhecimento sobre ativação de serviços de emergência para tratamento da DCV no Brasil pode ter implicações desfavoráveis no campo da Saúde Pública para este agravo.

Em São Paulo - importante polo de riqueza nacional (http://www.emplasa.sp.gov.br/emplasa/Indicadores/gsp.asp, acessado em 22/Jul/2013) e que dispõe de uma extensa rede hospitalar 35 - foi muito pequena a proporção de óbitos por DCV sem atendimento médico. A assistência médica aos óbitos registrados no SIM refere-se ao atendimento médico continuado que o paciente recebeu durante a doença que ocasionou o óbito. Como verificado neste estudo, a falta de atendimento hospitalar nos óbitos por DCV que receberam assistência médica foi muito baixa. Nossos dados corroboram os achados do estudo ecológico que avaliou a mortalidade padronizada por DCV em indivíduos de 35 a 64 anos, em regiões urbanas de um município da região sudeste de Minas Gerais, no triênio 1999-2001, e identificou que o acesso e/ou consumo de tecnologias de assistência à saúde no momento anterior ao óbito pode ser influenciado por algum tipo de atendimento médico 36.

A análise secundária verificou a relação entre as mesmas variáveis consideradas neste estudo com os óbitos por DCV hemorrágica sem assistência hospitalar e possibilitou identificar associação significativa deste desfecho com a cor da pele, estado civil, local de residência e assistência médica. Ademais, essas características sociodemográficas e clínicas podem influenciar a falta de assistência hospitalar nos casos hemorrágicos, que representam 24,4% de todos os óbitos por DCV no Brasil 10, além de se tratar da forma mais grave da DCV, com opções limitadas para aumentar a sobrevivência dos doentes 37. Além disso, a falta de assistência hospitalar em óbitos ocasionados pela DCV hemorrágica foi diferente, entre os dois triênios, para características relacionadas à raça/cor, estado civil e município de residência dos acometidos.

Em relação ao período mais recente (2013-2015), identificamos que a falta de atendimento hospitalar nos óbitos por acidente vascular cerebral hemorrágico foi menor para indivíduos casados. Um estudo sobre a prevalência de idosos brasileiros que residem sozinhos, segundo características sociodemográficas, condições de saúde e de funcionalidade física, e características comportamentais, apontou maior dificuldade destes na realização de atividades instrumentais da vida diária (AIVD), doenças prévias e piores hábitos alimentares em comparação aos que residem com outras pessoas 38. Infere-se que, independentemente da faixa etária, maior proporção de indivíduos solteiros residam em domicílios unipessoais, o que pode implicar maior dificuldade de acesso aos serviços de saúde diante da ocorrência de DCV e, particularmente, quando desenvolvem a forma aguda hemorrágica da doença.

A análise realizada neste trabalho sugere que a ocorrência de óbito por DCV sem assistência hospitalar, que nestes casos é realizada por meio de serviços de média e alta complexidade, pode ser influenciada por fatores sociodemográficos. Além disso, o presente estudo pode orientar políticas públicas de saúde, como programas de detecção precoce da DCV e redução da mortalidade e incapacidades. Deve-se considerar, no entanto, que outros fatores não avaliados no neste estudo influenciam o acesso, tais como: fluxos de utilização dos serviços, o número de leitos hospitalares por habitante, e o tipo de tratamento oferecido ao paciente, entre outros.

Óbitos por DCV fora do hospital são frequentes na população mais idosa 12, ou por solicitação pessoal ou de familiares para não proceder a técnicas de reanimação 39, indicando que morrer no domicílio foi opção do paciente ou dos familiares 12. Entretanto, a escolha do local do óbito em domicílio parece ser mais comum para pacientes com câncer ou doenças crônicas terminais 11. Por outro lado, a DCV que se configura como emergência médica, pode exigir mais hospitalizações, elevando a morbimortalidade hospitalar 11.

Este trabalho foi realizado com base em dados oficiais de mortalidade e por isto apresenta as limitações inerentes. Assim, para o SIM, existe a possibilidade de sub-registro 40 das causas de óbito, especificamente nos municípios pequenos, o que pode afetar parcialmente os resultados, considerando que alguns óbitos por DCV podem não ter tido sua causa de óbito reconhecida. Além do mais, para esses mesmos municípios, a proporção de variáveis não informadas foi maior, especialmente para a variável raça/cor no primeiro triênio que correspondeu a 54,9% e 58,9% de informações não preenchidas na capital e demais municípios, respectivamente. O desfecho do estudo (a falta de assistência hospitalar nos óbitos por DCV) tem uma série de fatores de relacionados, como idade; local de residência; comorbidades; tratamento prévio da DCV; acesso do paciente aos serviços de saúde, especialmente aos serviços na atenção básica. Com exceção da idade e tratamento prévio, a base de dados do SIM não contém essas informações nas DO. Ademais, limitou-se a busca até 2015 por indisponibilidade de dados mais atualizados no SIM.

No entanto, deve-se ressaltar que esses dados são oficiais e provenientes do Ministério da Saúde, e mesmo contendo possíveis subnotificações, constituem a melhor informação disponível para a elaboração de políticas públicas. Além disso, os dados do SIM no Estado de São Paulo são de boa qualidade desde a sua implantação em 1979, com menos de 10% dos óbitos na categoria de causas mal definidas 41. Outra vantagem deste estudo foi a possibilidade de analisar uma extensa base de dados de óbitos referente ao maior estado do Brasil durante dois triênios.

Ademais, a análise desses óbitos é uma forma de aferir diferenças no atendimento a serviços de saúde. Mesmo tendo ocorrido uma maior hospitalização dos indivíduos e, consequentemente, maior proporção de óbitos dentro dos estabelecimentos de saúde, a partir dos anos 1950 42, o número dos óbitos por DCV fora de equipamentos de saúde do Estado de São Paulo é elevado e indica dificuldade no acesso da população aos serviços de saúde, além de considerar óbitos que poderiam ser evitados.

Conclui-se que as características sociodemográficas e clínicas consideradas neste estudo estiveram associadas à falta de assistência hospitalar em óbitos por DCV e DCV hemorrágica. Além do mais, a falta de atendimento hospitalar em óbitos ocasionados por DCV manteve-se praticamente inalterada, nos dois triênios analisados, sugerindo que há diferenças no atendimento ao paciente com DCV no Estado de São Paulo, segundo características sociodemográficas e clínicas. Estudos são necessários para identificar outros fatores relacionados ao maior risco de óbito sem assistência hospitalar em indivíduos de subgrupos específicos, como os da cor amarela, solteiros, residentes de fora da capital do estado, que não apresentaram algum atendimento médico durante a fase da doença ou acometidos pelas formas isquêmicas da DCV, para melhor direcionamento das ações de saúde.

Agradecimentos

À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

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