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Cadernos de Saúde Pública

ISSN 1678-4464

36 nº.3

Rio de Janeiro, Março 2020


EDITORIAL

Resistência e esperança

Marilia Sá Carvalho, Luciana Dias de Lima, Cláudia Medina Coeli

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00023420


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Vivemos no Brasil, e também em muitas outras partes do mundo, uma conjuntura pouco favorável para a saúde e para a ciência. Mas, ao enfrentarmos momentos como esse, descobrimos energias novas e renováveis, para resistir e agir.

Em CSP acompanhamos, o mais proximamente possível, cada novo evento com impacto na saúde, procurando reunir estudos e evidências científicas em tempo oportuno. Nesse sentido, as seções Perspectivas e Espaço Temático se destacam por possibilitar o debate sobre temas conjunturais de relevância para a Saúde Coletiva nos cenários nacional e internacional. De 2013 a fevereiro de 2020 foram publicados 179 artigos nessas duas seções.

Sem compilar uma lista exaustiva, afinal os artigos estão todos disponíveis nas bases eletrônicas, em anos recentes foram enfocados temas candentes, tais como imigração e populações refugiadas, saúde e direito das populações trans, e avanços e retrocessos da política de saúde mental. A experiência da reforma da Previdência no Chile e suas implicações para a proteção social e a saúde foram analisadas visando a extrair lições para a América Latina e o Brasil. A questão ambiental e suas interfaces com a saúde foi objeto de diversos artigos: os desastres associados às atividades de mineração expressos nos casos de Mariana e Brumadinho, o derramamento de óleo na costa brasileira e a liberação de novos agrotóxicos. Em especial, a atenção primária à saúde foi debatida de forma aprofundada, devido à sua importância para a consolidação de sistemas públicos e universais e do próprio Sistema Único de Saúde (SUS). Com base no entendimento da saúde como direito humano fundamental e universal, o tema foi abordado nas novas concepções e diretrizes expressas na Conferência Global realizada em Astana em 2018, nas especificidades e dilemas da profissão médica em diferentes sistemas de saúde do mundo, e em dimensões específicas da reforma da política de atenção básica em curso no Brasil. CSP é uma revista científica, e todos esses temas foram tratados respeitando a diversidade de abordagens e enfoques da Saúde Coletiva.

Em 2019, CSP também publicou três suplementos temáticos sobre assuntos variados, assim como são variados os objetos relacionados à saúde das populações, às políticas e aos sistemas de saúde: saúde dos professores da educação básica no Brasil; redes de políticas públicas, regionalização e saúde; saúde de crianças e adolescentes indígenas na América Latina.

Os artigos empíricos, ensaios e revisões publicados em CSP são decorrência da imensa e sólida produção de conhecimento do campo. Seria impossível listar, sem cometer injustiça, os temas abordados. Inovação e qualidade científica são a base da política editorial de CSP, que reflete as pesquisas em todas as áreas e disciplinas que compõem o campo da Saúde Coletiva.

CSP é um bem comum da produção do conhecimento da Saúde Coletiva, que a cada ano tem ampliado a sua internacionalização, em especial na cooperação sul-sul, fruto do acúmulo editorial. O quadro de Editores Associados, responsáveis pela estruturação da revisão por pares, cresceu. No momento, a editoria conta com 39 pesquisadores das mais diversas áreas. Novos campos do conhecimento foram incorporados, por exemplo a ciência de dados, mantendo CSP na ponta da produção científica. Além disso, reuniões de editores de temas afins definem de forma consensual políticas específicas para as áreas das ciências humanas, da política, planejamento e gestão 1 e da epidemiologia.

O Corpo Editorial de CSP abriu recentemente uma nova frente de trabalho: a divulgação e comunicação pública da ciência. Inicialmente investindo na mídia digital (Twitter: https://twitter.com/CadernosSP; Facebook: https://www.facebook.com/cadsaudepublica/), foi feito um ensaio piloto na produção de dois podcasts (https://m.soundcloud.com/user-234001232) Reconhecendo a necessidade de uma abordagem profissional, obtivemos apoio financeiro para a realização de oficinas com autores e editores de suplementos temáticos, profissionais da área de comunicação e representantes da sociedade, para definir propostas mais específicas. A ideia é criar, juntos, produtos que permitam a disseminação dos conteúdos de alguns artigos escolhidos. É mais do que hora de enfrentar a anticiência 2. Para isso, é fundamental reconhecer e enfrentar as limitações da comunidade científica, incluindo aí as revistas do campo, no diálogo com a sociedade 3,4.

No final de 2019, nós, Editoras-chefe de CSP, preocupadas com a conjuntura atual, decidimos mandar mensagens de agradecimento e esperança para nossos parceiros, editores e revisores, que tanto contribuem para CSP. No caso dos revisores, elaboramos uma lista de e-mail específica para enviar nossa mensagem. Entretanto, a configuração da lista permitiu que respostas individuais fossem para todos e não apenas para CSP. Um tanto embaraçadas inicialmente, afinal esse procedimento não é o mais adequado, ao final ficamos felizes com a repercussão, em geral positiva dos colegas.

Sim: “...precisamos das respostas dos outros, de sentir que não estamos sozinhos na busca pela saúde pública física, mental, econômica, moral...”; “nunca recebi tanto ‘feliz ano novo' de tantos pesquisadores!!! Tô achando o máximo!!”; “...amei receber cada uma das mensagens desse grupo. É bom saber que somos vários na Resistência”. Afinal, editores, autores e consultores formam uma imensa comunidade. Algumas vezes somos autores, outras consultores, e comentamos artigos de colegas. O papel pode mudar, mas em cada um damos nossa contribuição indispensável à publicação científica.

Pedimos desculpas pela quebra de etiqueta digital, mas precisamos mesmo trabalhar de forma coletiva, sentir que estamos junto/as, ganhar força e energia. Este Editorial teve como ponto de partida a sugestão de uma colega: “Cadernos, vocês deveriam fazer um Editorial com essa surpreendente repercussão de sua mensagem de Boas Festas - e o ânimo dos pesquisadores dispostos a resistir juntos em 2020”.

Assim iniciamos 2020, satisfeitas por perceber que CSP se mantém firme em seus princípios e compromissos sociais com a Democracia, a Saúde Coletiva e o SUS, em um contexto de crise e de enormes desafios para a saúde e a ciência. Isso graças ao trabalho de muita gente! Gente comprometida com a missão da revista de divulgar estudos voltados para a melhoria das condições de vida e saúde das populações. Gente que, entre tantas outras atividades, escreve, avalia, produz, publica, divulga e lê os artigos de CSP. Como Editoras-chefe só podemos dizer: muito obrigada!

Referências

1.   Vieira-da-Silva LM, Novaes HMD, Travassos C, Lima LD. Artigos sobre políticas e serviços de saúde em Cadernos de Saúde Pública. Cad Saúde Pública 2016; 32:e00032716.
2.   Cook J. Countering climate science denial and communicating scientific consensus. http://climatescience.oxfordre.com/view/10.1093/acrefore/9780190228620.001.0001/acrefore-9780190228620-e-314 (acessado em 27/Jan/2020).
3.   Brownell SE, Price JV, Steinman L. Science communication to the general public: why we need to teach undergraduate and graduate students this skill as part of their formal scientific training. J Undergrad Neurosci Educ 2013; 12:E6-10.
4.   National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine. Communicating science effectively: a research agenda. Washington DC: National Academies Press; 2017.

CreativeCommons
Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons

 


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